quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tagarela

Era bom que tivesse chovido pra valer de madrugada. O dia amanheceu mais fresco, continuou nublado e não ia ter poeira na estrada. Chegamos um minuto atrasadas. Tínhamos marcado as sete da manhã daquele domingo. Uma caminhada de treze quilômetros, saindo da pousada da Marciana chegando até Três Barras.

Logo nos primeiros metros, somos convidadas a adentrar a mata conservada pela família da nossa anfitriã.  Uma das poucas que restam naquelas paragens, ao lado de um fosso onde correu o trem que circulou por ali até final dos anos cinquenta, acredito eu. Vi famílias inteiras nos vagões acenando com um adeus e uma criança com um olhar perdido, sabendo que ficaria muito tempo longe da terra. Ainda tem Faveiro ali. Um santuário de cheiros e sons  esse verde!

Tinha chão pela frente, mas a conversa era tão boa e a acolhida tão generosa que tudo se misturava ao simples prazer de caminhar. Antes de terminar o primeiro quilometro já tínhamos descoberto que éramos todas meio aparentadas. Uma confusão de casamentos entre famílias onde alguém sempre é primo de outro , fora os complicados emaranhamentos de casamentos consanguíneos. Todos os DNAs se misturando formando uma prole gigante.  Vamos descobrindo semelhanças físicas, desenterrando memórias, juntando esse enorme quebra cabeça de nossas existências.

Essa caminhada, para mim, tinha um enorme significado. Passava por caminhos ainda de terra batida por onde circularam meus antepassados. Margeando o  Ribeirão dos Porcos, onde meu bisavô paterno, com quatro filhas mulheres  educadas como homens,  criava porcos soltos pelo meio das abóboras que cresciam, também soltas. Alguns parentes ainda mantém seu pedacinho de chão por ali, que de tanto picar e repicar, acabou sobrando  umas poucas léguas de terra, para aqueles que tiverem algum juízo em mantê-las.

Não muito longe dali, acredito que uns oito quilômetros em alguma direção, fica o lugar onde nasci e onde vivi até os meus cinco anos, de onde trago poucas lembranças, mas uma muito especial , que me acabou vindo como um presente no final dessa caminhada.

Passando por um sítio, uma de minhas irmãs disse que tinha estado ali recentemente com meu pai, que era de fulano de tal, filho de alguém, sobrinho do meu avô. Entramos para dar bom dia. Tive vontade de pedir a benção. Esse meu primo de segundo grau era como ver meu avô novamente. Senti que o reencontrei antes de chegar ao céu, com aqueles traços irrefutáveis que tem uma ala de nossa família, que nos fazem reconhecidos à distância.

Alguns dos caminhantes eram velhos de guerra  nessa modalidade esportiva. Percebi que quem caminha tem muita estória para contar que vão surgindo tão naturalmente quanto a fluidez dos passos. Imediatamente acolhem quem está ao lado e seguimos todos sendo da turma. Nos alimentamos fartamente pelo caminho, com a generosidade das frutas que crescem e outras que são plantadas, nascendo às pencas como convém à natureza que o faz num processo tão silencioso e corriqueiro quanto encantador, nos oferecendo seus frutos todos embalados e higienizados.

Eu queria mesmo era chegar nas Três Barras, antiga parada de trem, onde havia a promessa de cerveja gelada.

Uma de minhas irmãs cansada dos pés,  tendo andado dez quilômetros, aparece  sentada na carroceria de uma pick up, de carona com um outro primo saído das páginas de literatura: Percival. Acho bem pouco provável que quem tenha lhe dado o nome conhecesse lendas. Parou, para da carreta mesmo,  experimentar um naco da manga que eu tinha derrubado na pedrada. Seguiu feliz de carona com o cavaleiro da Távola Redonda, em busca nosso Graal: cerveja gelada.

Por volta de meio dia, num dia abençoado sem sol, já avistávamos a Venda da Três Barras. Alí nos instalamos, para nos primeiros dedos de prosa descobrir que dona do estabelecimento é Isabel. Filha do compadre Gumercindo que teve nove filhos e morou na fazenda onde nascemos. E dela, guardo a estória de uma boneca.

Minha irmã mais velha, ganhou de Natal uma boneca, mais alta que eu, sainha plissada, fita na cabeça e cabelo que seguia até os ombros,  com franjinha. Não sei se andava, mas sei que FA-LA-VA!. Eu adorava  aquela boneca. Tagarela ficou muito pouco tempo entre nós ou talvez pela intensidade do meu amor, achei que o tempo foi curto demais. Quebrou-se. Ou melhor, soube nesse domingo, que um primo bem mais velho a tinha quebrado. Entendi então,  porque nunca consegui me relacionar com ele, sempre mantive uma distância enorme e nunca o considerei parente. Mistérios revelados do inconsciente que nos prega peças durante toda a vida. Minha irmã desinteressada da boneca que não mais falava a deu para Isabel. Tagarela foi reparada por um de seus irmãos e falou por mais algum tempo,  além de piscar os olhinhos. Minha irmã, quando soube do consertamento quis a boneca de volta. Não houve acordo. Minha mãe cortou-lhe qualquer possibilidade de resgatá-la, disse que "deu tá dado" e com essas três únicas palavras criou um dogma irreversível na minha cabeça de criança de quatro anos. Mesmo tendo claro que  Tagarela nunca mais iria para nossa casa, aceitei o veredicto de minha mãe mas nunca deixei de pensar nela.Meu úncio lenitivo era saber que estava em boas mãos. Uma das poucas coisas que me lembro dessa minha vida na fazenda, era ser levada pela mão de uma paje (não sei, mas acho que devia ser umas das irmãs de Isabel), para visitar Tagarela, numa casa que ficava beeeeeeeeeem lá  pra baixo.

Há muitos anos atrás,   aqui em São Paulo, entrei num antiquário e imaginem o que encontrei? Tive ímpetos de comprá-la para minha irmã, mesmo custando uma pequena fortuna. Mas não o fiz. Quanto tive a oportunidade de estar com esta minha irmã e contei-lhe o ocorrido, ela simplesmente me disse: "ainda bem que não comprou, eu nunca gostei de boneca". Diante dessa estarrecedora declaração, percebi,  então,  que quem amou Tagarela, pela vida toda, fui eu.

Isabel, fiquei muito feliz em te encontrar, teu zóio verde mareado de água salgada, um  presente que me foi dado num dia de domingo, onde me veio a lembrança de termos partilhado o mesmo amor.

Prometo voltar.
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* Essa caminhada partiu do "Caminho Caipira", empreendimento de quatro mulheres corajosas  no interior de São Paulo.




















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