segunda-feira, 19 de maio de 2014

Virei

Aproveitando que ali não é um lugar que convém andar a pé,  resolvi entrar. Parece que tudo o que restou no Centro com alguma preocupação estética foi projetado por Ramos de Azevedo. Prédios que passaram por utilidades diversas hoje abrigam espaços culturais. Felizmente como é o caso DEOPS que nossa geração tanto ouviu mal dizer, hoje,  guarda as memórias de tempos que considero imemoriais,  que não deveriam ser esquecidos pelas gerações presentes e futuras. De todos os "ismos" nunca vi algum que valesse a pena. Duvido que essa nova extrema direita jovem e insurgente conheça a  história.  Ao meu ver deveria. Não se pode escolher um lado para estar sem que se avalie as consequências de nossas escolhas. Avaliação essa que somente os anos bem ou mal vividos podem trazer.  Conhecer os horrores da história pode ao menos impedir que  atrocidades aconteçam com uma roupagem nova de vestes antigas. Nosso Estado aparece no mapa com a desonrosa posição que mais matou ou fez desaparecer pessoas.
Um enorme painel com fotos 3x4 de sumidos, desaparecidos, alguns encontrados mortos outros apenas um retrato, até a presente data.  Suspirei algumas vezes diante de todos aqueles rostos - a maioria bem jovem.

Tenho filho adolescente e me chegam notícias de amigos que tem feito escolhas políticas a meu ver temerárias. Como nós que um dia pretendíamos mudar o mundo. Confio que nosso testemunho não salvará o mundo de nada. Mas, poderá ao menos nos aproximarmos de como os fatos se deram. Quem precisar de provas mais concretas, alguns arquivos do Deops encontram-se abertos, por força de uma sociedade que lutou para que isso viesse a público. Desconhecer a própria história certamente levará ao risco de repetir os mesmos erros.

Caminhando pelo mesmo pátio pode-se chegar a algo salvador.  A antiga Estação Júlio Prestes, abriga a  Sala São Paulo, que não só tem a melhor acústica,  a iluminação mais bonita como dá ao público o privilégio de ser acolhido pelas quatros lados do palco. Onde quem pensa em clicar fotos durante o espetáculo vê surgir do nada homens de preto impedindo essa recorrente falta de respeito, cada vez mais usual nas salas de espetáculos paulistanas. Bravo!!!

Dia de  Virada Cultural, ao meu lado um jovem estudante de Matemática tendo a oportunidade de frequentar essa Sala maravilhosa pela primeira vez, ouvindo a sua ciência em tons de acordes musicais.

Começamos com "Estrepolia Elétrica" de Moares Moreira,  tivemos calma com Caymmi e terminamos com uma única lágrima furtiva, que se secou no punho do casaco, com "Anos de Solidão" de Piazzolla.

O Centro de São Paulo poderia ser melhor aproveitado como deveria ser a vida. Sempre e não apenas uma vez ao ano!!!



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