Eros, sendo filho de Riqueza com Pobreza, não pode ser uma coisa nem outra. Filho que é, herdou essas duas possibilidades. Daí a imperfeição do amor.
O amor é aquilo que estamos dispostos a doar a ele. Se pouco ou muito, é o reflexo de nossa própria disponibilidade. Por outro lado (como tudo na vida), o excesso ou a falta perfazem o descompasso que tanto pode saciar irremediavelmente como carenciar insustentavelmente.
O amor não se mede em xícaras, colheradas, pitadas, como em uma receita.
O amor se mede tão somente pela nossa aptidão em adotá-lo, a capacidade para suportá-lo e nas ausências que se possam notar.
O amor é o maior dos desequilíbrios entre a falta e a completude e aí reside a sua natureza e sentido.
Não vivenciar esse desequilíbrio, perder-se em explicações nos faz esquecer o seu propósito
E para isso e só por isso foi feito: para amar...!
As explicações não revelam o amor e sim a sua falta. Ou a falta que ele nos faz.
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 3. Lisboa: Publicações Europa-América. 1989.

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