Era uma menina de ouro. Caprichosa, delicada e aplicada. Ouviu a avó dizer que daria o piano de presente para quem chegasse e tocasse uma música. Tratou de tomar aulas e descobrir a música predileta da avó: um dia chegou, sentou e tocou "Danúbio Azul". Alguns dias depois os homens trataram de carregar o piano para o novo endereço.
O que para algumas pessoas é motivo de êxtase para outras pode ser um tormento. Foi o que esse "Zirmmerman" representou para mim. Por ela ter tocado Danúbio Azul, me foi imposta a condição de estudar piano por cinco anos sem nunca ter conseguido sair do preliminar, o que equivale a nunca ter saído do pre primário. Aquela professora de nariz comprido, unhas vermelhas e laquê no cabelo era o tormento que me aguardava duas vezes por semana. Para que meus pulsos não dobrassem sobre as teclas, munia-se de um lápis com ponta bem apontada que servia de sustentáculo para minhas mãos que nunca desejaram ser pianista. Escalas, solfejos, colchetes ou semi colchetes, claves de sol, fá ou seja lá o que fosse, lápis espetando meus pulsos nada disso conseguia botar melodia nessa minha inabilidade musical.
Surgiu pela cidade uma mania muito estranha de se usar colar feito de macarrão (crú, tá?). A técnica consistia e torrar o macarrão em formato de estrelinha, numa panela em fogo brando até que pegasse uma cor tostada. A partir dai metia tudo num fio e estava pronto o tal colar de macarrão. LINDO!!!
Era dia de aula de piano, lá fui eu com a minha pasta vermelha, com clave de sol dourada, as benditas partituras e claro, de colar novo. Aquele maldito lápis me espetando, aquela maldita aula que não acabava nunca, aquele laquê que não deixava um fio de cabelo fora do lugar, a minha inabilidade em trançar as mãos pelo teclado... foi fatal. Me enrosquei de tal forma pelo colar novo que o dito cujo arrebentou bem em cima daquelas teclas, voou macarrão pela sala toda e ela com um pincel na mão tentando salvar as teclas do macarrão e depois de quatro tentando limpar aquela sua sala mais imaculada que capela de internato. Foi o único dia feliz dessas minhas aulas.
Mudamos de cidade, eu me livrei do laquê mas, me arranjaram outra professora pior que a primeira. Nossa antipatia era crônica, recíproca e verdadeira. Ela odiava ser professora e eu mais ainda ser aluna. Sem declararmos guerra, mantínhamos um relacionamento bélico velado, até que um dia, criei finalmente coragem e fui ter uma conversa com o meu pai. Assumi que havia descoberto uma nova paixão. Ele me olhava de canto de olho, como faz até hoje quando não quer nos encarar de frente, finalizei argumentando que precisava de dedos fortes para jogar volley o que não combinava em absoluto com uma menina que não queria aprender a tocar piano. Suspirou aliviado por não ter sido o caso de lhe ter arranjado um genro e me liberou de imediato daquelas aulas. Terminava assim meu suplício que durou cinco longos anos.
O Maestro João Carlos Martins tem um projeto de educação musical e acredita que a criminalidade diminuiria se as escolas voltassem a ensinar música. Mesmo tendo sofrido pela música também concordo plenamente, Maestro. A única coisa que ele pede aos novos alunos é que não se exercitem por mais de quinze minutos diários. Só quinze minutos!!!!!. A novidade é que depois de um mês, os que descobrem o prazer pela arte, pedem para estudar além dos quinze minutos...
Numa dessas últimas tardes frias e infinitamente chuvosas, meu João me convidou para irmos à biblioteca pública aqui perto de casa. Caminhamos lado a lado dividindo o mesmo guarda chuva, enquanto caminhava, pensava em paixões e imposições, não lhe disse nada mas, esse convite foi seguramente o meu momento de ouro.
Ahhhhh... a menina de ouro continua sendo um primor, faz bolachinhas de nata como ninguém e, às vezes, quando vou visitá-la, senta ao piano para me brindar com "Petite Fleur".
Nenhum comentário:
Postar um comentário