sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A Peste

Fui ao teatro, domingo às 19h, horário mais que perfeito. Não encontrei entre meus pares alguém que idealizasse me acompanhar. Pelo nome e autoria do espetáculo seria denso. As pessoas não gostam mais de densidade, imagino que não gostam mais também de teatro. Comprei o ingresso na hora, tinha somente três opções de lugares vagos, espremidos entre outros. Felicitei-me intimamente. Ao apagar das luzes me dou conta que somente um terço da platéia está preenchida. Fazem isso para que o ator não se sinta solitário no palco (isso é o que pensam os bilheteiros, o ator de verdade em atuação imagino que a entrega seja tamanha que não veja as pessoas quantificadas). Acho admirável ainda que exista teatro e louvo a quem ainda ouse fazê-lo. Como também acho louvável que ainda existam sapateiros, amoladores de facas, sapatos sob medida e escritores.
Aqui na minha rua ainda passa um amolador de facas (e alicates... é preciso diversificar a clientela, plano B hoje é fundamental para qualquer tipo de sobrevivência). Pois bem, tem aquele apito que me lembra o vendedor ambulante de sorvetes, esse também admirável, que passa aos domingos silenciosos pela casa de minha mãe. Minha irmã diz que desde o dia que meu  pai comprou 20 picolés de uma tacada só, o sorveteiro pára na esquina dos silêncios e se esganiça perdendo o fôlego de tanto apitar para ver se meu pai aparece de novo com vontade dominical de chupar 20 sorvetes. O amolador de facas é bravíssimo, tenho medo, jamais lhe daria uma faca de açougue para afiar e ficaria ali plantada na sua frente esperando o resultado da lâmina. Imagino se as pessoas escolhem profissões com algo de inconsciente que lhes habitam a alma.

Fui ver então A Peste, de Albert Camus, um médico desesperadamente lúcido que tenta curar com os parcos recursos materiais que dispõe. Está manchado de carvão pelo rosto e vestimentas. Agonicamente, enquanto fala, transpõe com uma pá restos de madeiras carbonizadas de uma pilha para outra no palco. Tentando curar lida com outra circunstância muitíssimo particular, a população que não pode se dar conta da existência da peste, como se ao negá-la pudesse salvar os seus bem amados ou livrar-se de contágio. Rezam coletivamente ou se embriagam nos bares que ainda abrem para vender o ópio nosso de cada dia. Outra circunstância é lidar com as mentiras que nos contam as autoridades públicas, onde em situações de absoluta onipotência coletiva editam-se leis autorizando o egoísmo humano.

Quem neste vasto mundo, onde a verdade precisa estar maquiada para a festa que acontece todos os dias, ainda se disporia a ver espetáculos assim? Os teatros complexos seguem vazios. No inicio do espetáculo o diretor nos convida a postar nas redes sociais #experimenteteatro.

Em tempos de peste é absolutamente necessário sublimar através dos recursos que a arte nos oferece. Do contrário nos encontraremos todos em algum dos inúmeros templos da cidade, onde tudo pode ser comprado mas nada pode ser adquirido.

#experimenteteatro

 Antes, a questão era descobrir se a vida precisa de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado. Albert Camus




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