Aqui na minha rua ainda passa um amolador de facas (e alicates... é preciso diversificar a clientela, plano B hoje é fundamental para qualquer tipo de sobrevivência). Pois bem, tem aquele apito que me lembra o vendedor ambulante de sorvetes, esse também admirável, que passa aos domingos silenciosos pela casa de minha mãe. Minha irmã diz que desde o dia que meu pai comprou 20 picolés de uma tacada só, o sorveteiro pára na esquina dos silêncios e se esganiça perdendo o fôlego de tanto apitar para ver se meu pai aparece de novo com vontade dominical de chupar 20 sorvetes. O amolador de facas é bravíssimo, tenho medo, jamais lhe daria uma faca de açougue para afiar e ficaria ali plantada na sua frente esperando o resultado da lâmina. Imagino se as pessoas escolhem profissões com algo de inconsciente que lhes habitam a alma.
Fui ver então A Peste, de Albert Camus, um médico desesperadamente lúcido que tenta curar com os parcos recursos materiais que dispõe. Está manchado de carvão pelo rosto e vestimentas. Agonicamente, enquanto fala, transpõe com uma pá restos de madeiras carbonizadas de uma pilha para outra no palco. Tentando curar lida com outra circunstância muitíssimo particular, a população que não pode se dar conta da existência da peste, como se ao negá-la pudesse salvar os seus bem amados ou livrar-se de contágio. Rezam coletivamente ou se embriagam nos bares que ainda abrem para vender o ópio nosso de cada dia. Outra circunstância é lidar com as mentiras que nos contam as autoridades públicas, onde em situações de absoluta onipotência coletiva editam-se leis autorizando o egoísmo humano.
Quem neste vasto mundo, onde a verdade precisa estar maquiada para a festa que acontece todos os dias, ainda se disporia a ver espetáculos assim? Os teatros complexos seguem vazios. No inicio do espetáculo o diretor nos convida a postar nas redes sociais #experimenteteatro.
Em tempos de peste é absolutamente necessário sublimar através dos recursos que a arte nos oferece. Do contrário nos encontraremos todos em algum dos inúmeros templos da cidade, onde tudo pode ser comprado mas nada pode ser adquirido.
#experimenteteatro
Antes, a questão era descobrir se a vida precisa de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado. Albert Camus

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