As outras casas que me perdoem mas onde primeiro senti amor foi na casa de minha avó materna. Simplicidade. Dinheiro contado e generosidade. O melhor chá mate docinho com bolacha de água e sal da minha vida. Noites sem luz, banhos de bacia, quintal com jabuticabeiras, um rancho de piso quadriculado de branco e preto que fazia as vezes de varanda da casa. A casa sempre cheia de novidades, os móveis mudando de lugar todas as semanas. Minha avó tinha uma mente inquieta, as cadeiras, sofás, mesas e camas acompanhavam a cadência de suas ideias.
Me ensinava a fazer as coisas de casa, mesmo me advertindo que se eu aprendesse a fazer, teria que continuar fazendo a vida toda...
Me deixava passar a ferro os lenços dos homens. Fiz duas bolhas imensas no meu ante braço esquerdo. Com medo que arruinassem ou que meu pai me encontrasse queimada, me levava todo fim de tarde, antes do por do sol, para benzer as feridas. As bênçãos podem não tê-las curado, mas certamente devem ter funcionando como algum tipo de proteção para outras chamuscadas ao longo da vida.
Costumava guardar os retalhos de tecido num guarda roupa que cheirava a madeira, pano guardado e naftalina. Era um saco imenso. Jogava tudo no chão e começa a escolher os mais bonitos, sentava na máquina de costura e fazia roupinhas para minha única boneca.
Quando cresci e os nossos homens foram morrendo, ela me levava no jardim e me mostrava as suas roseiras. Cada uma tinha o nome de um dos nossos mortos homens. Ela ia dizendo, olha que linda a rosa que nasceu no Júnior; a do Aurazil preciso podar; a do Fiani está cheia de botões novos.
No dia que em que ela morreu fui visitar suas roseiras. Não pude entrar. Um cadeado trancava fortemente as grades que me separavam de seu jardim de saudades.

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