quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Onde a primeira vez meus olhos viram o mundo. Os cafezais, a escolinha para os filhos dos colonos, a professora. A boneca da minha irmã que andava e fa-la-va. A égua Brigitte do meu irmão, uma inocente homenagem para Bardot. Os homens de botas até os joelhos, chapéu, cavalo, esporas. As moças roubadas durante a noite e fugidas para casar. A profusão de parentes, onde todo mundo era primo, primo irmão, de primeiro, de segundo grau, num confusão de prole onde de vez em quando nascia um meio bobo ou muito louco. O medo da minha mãe que se trancava em casa com todas as crianças antes do por do sol. Os espelhos cobertos nas horas de tempestades. A raposa que vinha de noite comer os pintos. O pé de sapoti plantando pelo meus pais depois do casamento (e que sobrevive até hoje). O por sol do sol na frente da casa. O açude onde moram as sucuris. As jabuticabeiras, as mangueiras, o tamarindeiro imenso. As galinhas d`angola, o porco criado de a meia. A cascavel enroscada no pé de mandioca. O poço d`água, com gosto de água de verdade. O azulejo azul da cozinha, o armário com cheiro de madeira. O cheiro de leite fervido. A manteiga feita em casa. Uma tia que ninguém teve: tia Nina. A cerca de pau a pique rodeando a casa, os pés de coco que meu pai nunca parou de plantar. Os cavalos do meu pai, sempre com nome de carta de baralho, Valete, Sete de Ouro. As conversas dele com as vacas e os apelidos dos rebentos mais feios. O "cumpadre" Chico, com uma penca de filhos, pra quem não adiantava ter frio porque não tinha paletó pra vestir. O benzedô que curava as feridas dos bois e fazia as cobras aparecerem. O buraco grande no quintal, onde tudo virava cinzas. A vaca lambendo o potássio da árvore queimada. As noites com lampiões, os banhos de bacia. Os dias de lidar com porco e os dias de se fazer pamonha. As chuvas, o cheiro de terra molhada, as doenças infantis e o choro que me acometeram quando fomos embora de lá e de onde fui me mudando cada vez mais um pouco mais pra longe. O gosto que me dá caminhar sozinha pelo pomar e ouvir de novo o silêncio que ele ainda me tráz.


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