segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Alguém que me empreste as suas certezas#

4:17. Dormi muito mal.  Nesse silêncio desproveitoso procuro entender o que está se passando comigo. Algumas luzes acesas no prédio em frente me acenam com alguma possibilidade solidária.  Do outro lado da rua, se não compactuam de minhas dúvidas, tão pouco dormem.

Nessa curta caminhada  rumo a cozinha diligencio a necessidade de encontrar um nome para esse meu sentimento antes que ele me domine ou antes que ele se dissipe, sem ao menos me dizer a que veio.

Nessas horas de desentendimento alguns recorrem a Bíblia, outros tem hora marcada com a terapeuta, outros se preocupam menos pois o medicamento, felizmente,  tem surtido efeito. Eu, olho para o Aurélio que nunca está guardado,  começo a folheá-lo na esperança de que ele ME explique. Inútil.

Lembro-me então de Clarice. Descubro finalmente o meu incômodo: eu não pertenço.

Não pertenço aos que veem o resultado dessas eleições como exercício do direito democrático,  pois como Saramago há muito questiono o esvaziamento desse conceito. (video abaixo)

Tão pouco pertenço ao PSDB.

Cada vez consigo menos ver o mundo com essa dicotomia,  onde  é preciso estar de um lado ou de outro e defender um ponto de vista como se estivéssemos em luta, onde somos todos perdedores. Uma destruição coletiva, de forma velada, sutil e na pior das imagens  sarcástica.
Agressões  bilaterais, por vezes covarde dando o tapa e escondendo a mão.  Os que mais agridem são os que mais clamam a si como defensores de minorias,  num discurso tão carregado de chavões como de tão pouca originalidade. Defendem idéias e ideais com a liberdade de um gueto. Avocam a si um espirito marginal em nome todo maior que dizem fazer parte.

Salvadores,  salvacionistas, lúcidos e bem intencionados: todos nós! E agora me lembro de Fernando http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp

Arrogância,  vaidade e medo.

Quem foi que traçou no chão dessa mesma Pátria um linha dividindo elite branca e povão?  Essas expressões não foram cunhadas por mim e confesso meu desconforto em usá-las!
Qual a utilidade disso? Será que existem outros que como eu desejam estar em nenhum dos lados dessa linha hedionda?
Onde estão as pessoas que antes de serem PT ou PSDB consigam refletir adotando não uma posição meramente partidária mas se personificando antes a acima de tudo como um ser humano?

Alguém ainda tem coragem de ter uma alma?  E em nome dela propor não uma divisão mas uma igualdade?

Só existe uma maneira de mudar as coisas: perceber-se não como diferente mas, perceber-se como parte. E é por isso que clamo, veementemente,  aos meus amigos: me emprestem, por favor, as suas certezas inabaláveis para que eu possa de novo PERTENCER! http://pensador.uol.com.br/clarice_lispector_pertencer/




Um comentário:

  1. A única certeza é que vou agradecer por participar quando o dia clarear. Se não escutar os mentirosos vai notar na rua muitos sorrisos pelo caminho, talvez pelo mesmo motivo. Alongar, agradecer, contemplar, não escutar, se limpar, sorrir e ir.

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