terça-feira, 10 de junho de 2014

Na fotografia

Tantas vezes olhando aquela foto que já a conhecia de cor. Conhecia cada centímetro daquela sala, tinha decorado o desenho do bandô da cortina. Os tacos de madeira presos no chão. A poltrona floral no canto. O arranjo de flores brancas ao lado do piano. O abatjour que fazia a luz boa da cena. O tapete com desenhos egípcios na ponta. O quadro da mulher que estava presa na parede. Seus olhos eram para os dele. Tapava com o polegar o rosto intruso do amigo ao lado que apareceu para estragar a  imagem.
As fotos são sempre irreais. Nos deixam jovens para sempre, não engordamos e não perdemos o  brilho do olhar, mesmo que o papel fotográfico se estrague. Nossa roupa é de festa e nunca está amarrotada, fora de moda sim, sempre. Mas nunca amarrotada. Os ombros não se curvam para frente acompanhando o ritmo da barriga que se protubera com os anos. E assim ela o vê:  ainda jovem, magro, sorriso que era só dela e as pedras de gelo que nunca derreteram dentro do copo de whisky. A foto tinha sido tirada no inicio da festa, quando nem se conheciam ainda. Mas quando ela olhava para a foto, tinha a certeza absoluta de que aqueles olhos risonhos sorriam na sua direção. Os dela sorririam para os dele, sempre. Não existiu outro dia, só aquele.Tanta vida acontecida depois, tantas outras fotos picotadas, rasgadas,  aguçando a curiosidade muito mais do que se tivessem permanecidas inteiras. Sugerindo que ali houve alguém,  que houve briga, que houve ruptura, que deixou saudade ou que perdeu a importância. Mas a foto dele, daquela noite que seria só uma, permaneceria inteira. Guardada intacta, esperando se um dia ele  voltasse para ficar só  mais um pouco; se sumiria de novo; se ela ficaria olhando para aquele retrato, procurando os olhos que olhavam só para ela,  até que o gelo derretesse dentro daquele copo,  até que se esvaziasse, desistindo de imaginar tudo o que poderia ter sido mas nunca foi.

Na fotografia meus versos são banais.


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