sábado, 8 de março de 2014

Do necessário ao desnecessário

Pensando no que se comemora nessa data, imaginei em fazer um roteiro histórico remontando à 08 de março de 1857,  quando operárias foram queimadas vivas  em uma fábrica de tecidos, por reivindicarem menos horas de trabalho. Parece que queimar mulheres vivas já era prática bem usual pelo o que nos vem de Joana.

De direitos trabalhistas, passamos a reivindicar direitos políticos e liberdade com que o fazer com nosso próprio corpo.

Sem querer rechaçar, diminuir ou menosprezar as  conquistas que obtivemos, é bom lembrar que ainda ganhamos menos que os homens em qualquer tipo de ocupação (exceto as concursadas), mesmo estudando em média 7,3 anos a mais que eles; adquirimos direito ao voto mas detemos menos de treze por cento  das cadeiras do parlamento; conquistamos o direito a tomar contraceptivos para evitar  gravidez e o aborto clandestino continua matando uma brasileira a cada dois dias. As taxas de feminicídios permanecem estáveis no Brasil, mesmo depois da criação da  Lei Maria da Penha ( uma morte a cada hora e meia, segundo dados do IPEA).  Segundo a OMS uma mulher é espancada da cada 15 segundos no Brasil. Metade sofre calada. A covardia desses números me assusta.

Se os dados aterrorizam, o que ganhamos com o feminismo?

Conquistamos o direito de frequentar universidades, conduzir empresas, nações e também adquirimos o inefável direito de jornada tripla, o que penso eu, vem nos assolando em obrigações cumpridas  ininterruptamente, sem intervalo, sem refresco e em solidão.

Passamos a contribuir em casa com nossos salários, o tiro saiu pela culatra, muitas nos tornamos arrimos de família ( esse numero aumentou mais que quatro vezes, na última década) outras tantas adquiriram o direito de criarem seus filhos sem ajuda financeira de atuais ou ex parceiros. Criamos uma nova dinâmica de consumo, e começamos a trabalhar cada vez mais para mantermos os padrões de exigências que ajudamos a soerguer.

Lutando por direitos equânimes, começamos a pregar que as mulheres são iguais aos homens (até o terrível tailler foi estilizado como versão feminina do terno masculino). Aí deu-se o imbróglio. Quando demos  nossos primeiros passos rumo à uma escalada morro acima,  perdemos a oportunidade de aspirar o perfume das flores pelo caminho, contemplar a  vista pelos belvederes e principalmente, trazer nossos filhos e nossos companheiros conosco. Poucas tiveram a sabedoria de se dosarem. Nossos filhos criados por babás ou nas escolinhas. Nossos companheiros perdidos entre não saber mais como se comportarem, sem saber se seriam abandonados por não nos ouvirem e por não nos apoiarem; ou se seriam abandonados de qualquer forma por nos darem ouvidos demais e por nos apoiarem demais. Era tarde para trazer de volta a poesia.

Não que não almejasse por direitos paritários ou que seja cruel a ponto de não reconhecer que os  usufruo,  mas me reservo o direito de ponderar que muitas coisas foram executadas sem maestria, sem orquestração e por aí seguimos cada uma com a sua batuta empunhada em pulso firme,  sem saber que estávamos compondo uma sinfonia ruim de ser ouvida e chata de ser tocada.

Demoramos muito tempo para termos a dimensão de nossa obra. É preciso maturidade, executar coisas de maneira equivocada e distanciamento para apreciarmos o quadro que pintamos sobre a  imensa tela do nosso viver.

Se me fosse dado o direito de escolher novamente, decidiria por fazer mais tricô, mais bolachinhas caseiras, teria tido mais tempo para estar com meu filho, porque no fundo no fundo, chego a conclusão de que a maternidade me ensinou mais sobre a vida do que a universidade, os cursos, os desgastes por posições no trabalho. Mas acima de tudo e em qualquer hipótese não deixaria que queimassem meu soutien para que não perdesse o que considero existir de melhor: a  nossa natureza feminina. Que vejo hoje, mais do que nunca, como uma condição sagrada que não se pode perder de vista e merece ser resgatada.

Se Angela Merkel lesse estas linhas me chamaria de  "demente" como se referiu às mulheres que querem passar mais tempo em casa e Simone de Beauvoir, ícone de força e independência feminina, com tudo o que fez e remexeu,  tão pouco declarou-se feliz ao fim de tudo. Portanto, razões para reflexão não nos faltam.

Vejo essa data, não como uma continuidade da maratona que empreendemos na busca de  nossos direitos mas como um caminho que nos possibilite continuar lutando com aquilo que temos de melhor: a decisão de continuar sendo mulheres. E que respeito, possa ser um dia, quem sabe, algo além de uma prescrição jurídica.

Esses caminhos sociais certamente tiveram sua relevância mas nos trouxeram também um grande desafio que passa ( ou deveria passar) pela reaproximação dos gêneros.    Acho que estamos todos precisando aprender como nos juntarmos de novo, porque, é disso que o mundo vem sentindo falta.



















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