Era Dia da Ave, eu estava no meu primeiro ano de escola. Era preciso fazer um cartaz, numa cartolina branca, com o desenho de um pássaro, que ficaria exposto nos corredores do Colégio.
Eu nunca soube desenhar uma linha reta que fosse. Precisei pedir ajuda para minha irmã, dois anos mais velha. Ela sim, sempre teve mãos de fada. Era um primor de menina. A inspetora da escola, que era uma cobra, a chamava de "Menina de Ouro".
A Menina de Ouro fez meu cartaz, com aqueles traços ainda infantis. Ficou pendurado nas paredes dos corredores por alguns dias. O que eu não sabia é que haveria uma premiação. O que eu não sabia é que no dia da premiação, com aquele pátio lotado, com toda a escola presente, professores e agregados, a diretora iria fazer um anúncio. "Chamamos para subir ao palco, para receber o diploma de melhor cartaz do Dia da Ave, porque entendemos que foi o único que não teve mão de gato: Claudia Alves Casimiro"
Eu era uma criança tímida, dessas de empacar. Ainda me suspendi apoiada nas pontas dos pés para ver se enxergava a Menina de Ouro, para que ao menos com os seus olhos pudesse me acudir.... Não a encontrei. Caminhei trôpega para o palco, devo ter abaixado a cabeça e ter ficado olhando para a minha saia com uma prega na frente e para o meu sapato preto vulcabrás, dois dedos maiores que meus pés, com algodão na ponta, para durar mais um ano.
Acho que teve muitos aplausos. Eu não escutei nada. Queria ir logo para casa, contar para minha mãe que naquele dia eu tinha morta de vergonha, conhecido mais um novo sentimento: o constrangimento. Antes de aceitar aquele rolinho preso com uma fitinha azul de cetim, pensei em contar a verdade. Minha voz não saiu.
Terminada a aula, cheguei em casa com meu Diploma do Dia da Ave. Desesperada para encontrar minha mãe e ver se ela, pelo menos ela, que era adulta poderia dar um jeito nas coisas.
Minha mãe, minha úncia fonte de esperança contra a vergonha que sentia, não me salvou. Peguei o rolinho amarrado com a fitinha azul e dei para Menina de Ouro.
Para elas acho que esse epísódio não teve qualquer importância. Mainha, sei lá por que cargas d'água, talvez para perpetuar minha agonia, guardou o dito cujo do diploma, dentro do cofre de casa, num cantinho junto aos bilhetinhos que lhe dávamos em datas comemorativas. Esses sim verdadeiras preciosidades.
Não sei se o diploma amarrado na fitinha azul ainda está guardado no mesmo lugar, ou se eu algum dia, mediante algum descuido de manhia o surrupiei de lá as escondidas, enquanto ela procurava algo mais importante dentro do cofre, para poder picá-lo para bem longe das minhas vistas. Só me lembro que bem no centro do papel, tinha um vistoso sabiá colorido.
Receio que com o passar do tempo, o vistoso sabiá tenha sumido do centro da folha de papel, e que muito provavelmente, tenha vindo morar dentro de mim, me tornando a pessoa em que fui me transformando com o passar de todos esses anos.
Preciso falar com mainha.....
Legendando: "mão de gato", significa algo que um adulto faz em detrimento à uma atribuição que deveria ser de execução exclusiva de uma criança.
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