Existe duas formas de dizer o amor. Uma delas é dizer do amor sobre a perspectiva de quem ama (ou amou um dia), a outra é a perspectiva de tentar explicar o amor. Nenhuma delas pode ser coincidente, obviamente, pois experimentar é sempre diferente de imaginar. Não que imaginar não seja um ingrediente poderoso para amar. Embora o amor seja um sentimento universal e humano (as outras espécies se agregam por sobrevivência - não estão preocupadas durante o acasalamento se o pelo do leão A é mais macio que o pelo do leão B ou se a ameba A tem olhos azuis, uma covinha do lado esquerdo do rosto e fez mestrado numa instituição de primeira linha, o que poderia indicar um caminho para um bom emprego, um bom salário, uma vida confortável). Embora o amor seja um sentimento universal e humano, cada raça, etnia, território tem sua própria maneira de descrever o amor. Amor descrito não é o mesmo que amor vivido, certo? O mundo real não é como o mundo imaginado e talvez nisso o amor vivido encontre componentes para ser abandonado no primeiro round do que se pretendia como construção amororsa. Bauman que o diga.
A ideia de construção amorosa é bastante cultural. Se entendermos a cultura como um processo civilizatório que visa mais do que acolher, fazer como o que o sujeito receba um salvo conduto para viver em sociedade, teremos que muitos dos componentes que tentam balizar o amor são acometidos da visão histórica daquele momento. A cada época, a cada geração são criadas palavras novas para introduzir o amor como conceito e ideia. Nos anos 60, era a liberdade dos corpos garantida pela invenção da pílula anticoncepcional, nos anos 70 era tudo "paz e amor"; nos anos 80 era muito dancing days até que veio a AIDS, para mudar tudo o que tínhamos idealizados como "liberdade" para viver e experimentar o amor. O amor livre e dançante que tínhamos socialmente conquistado pisou o território da morte. Veio a WEB, mudou nossa relação com o mundo, numa velocidade estonteante de informações começou a engolir nossas certezas. O Outro tão fundamental para os exercícios da suposta construção amorosa passou a morar atrás de um teclado performático onde cada um pode aparecer e sumir pela força das mesmas pontas dos dedos que sequer chegaram a tocar o seu corpo. Ficou a saudade de uma amor imaginado como uma hipótese de felicidade e encontro.
A dificuldade do amor não está no tempo que ele dura, na intensidade com que nos alcança, nos caminhos conflitantes que nos aponta. A dificuldade do amor, é que, para me colocar diante do Outro com disponibilidade para criar laços preciso dizer para mim mesma quem sou eu; preciso pisar em territórios incertos, dar de cara como todas as minha dúvidas e incertezas sem que as inúmeras impossibilidades de encontros gerem desencontros reais; preciso entender que o amor traz sempre o seu par correlato em oposição: o abandono. Com tantas coisas que ainda preciso "entender", será que um dia ainda vou conseguir "viver o amor"...?

O amor também passa pelo tempo, quero dizer pela idade em que vivemos nos apaixonando. Sem dúvida diversos tipos de amor, mas falando do amor de relacionamento vejo o amor na forma que venha para somar, que traga alegria, que seja parceria espontânea. Isto acontece de forma natural e você só entende quando começa a fazer, começa a realizar o desejo do outro de uma forma voluntária, é assim que entendo o vem para somar.
ResponderExcluirPura diversão seus textos profundos e polêmicos.
Nunca desista de amar, sem amor não existe harmonia, não fica completo.
ResponderExcluirLeio e volto para ler novamente e novamente. Todas as vezes me surpreendo com a riqueza dos textos e para onde me carrega.
Agradeço Goddess of beauty..