quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Manhã de Natal

É dia de Natal, todo mundo fala em noite de Natal, sobre o dia todo mundo esquece de dizer. Acordei no meu horário habitual sem ressaca alcoólica ou emocional. Estou só mas não sozinha. Não sou crente de nada, apenas respeito profundamente os rituais e as almas mais generosas que a minha que acreditam em tudo. Penso nos meus que se foram, acendo uma vela. Penso neles em forma de oração pela ordem de desaparecimento: Sérgio, meu sempre amor. Meu avô paterno com quem dialogo todos os dias, seu bom senso e suas realizações estarão guardadas comigo. Minha avô materna, meio artista, meio deprimida, inteligente sem estudo, habilidades manuais invejáveis, histórias engraçadas. Tia Nina, precisaria de muitas palavras para dizer o que ela significou para todos nós. Minha mãe, como foi difícil sua vida, pela melancolia nunca expressada, pela opressão em que viveu sua vida sempre triste. Por último o Rubem, pai do meu filho, que nessa mesma data no ano passado estava entre nós. Revejo seus olhares, seus sorrisos, suas maneiras singulares que diferenciam um ser humano do outro, ouço suas vozes, que estarão sempre comigo enquanto ainda me for permitido lembrar e recordar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Tubarão no tanque

Enquanto observo o céu meio nublado, avisto a torre da igreja do Assunção subindo pela janela. Estou de boca aberta — literalmente — e só ela tem o direito de falar.  Maneja os instrumentos com precisão, deslizando vez ou outra no banco de rodinhas, enquanto me atualiza sobre os grandes acontecimentos do ano: o casamento do filho e o seu próprio, com alguém que ela chama de “meu velhinho”, já que ele tem quase a idade de seu pai, se este ainda estivesse vivo.

Com a longevidade do relacionamento e do cônjuge, ela acredita que seu papel é estimulá-lo, engrandecer o que ele ainda pode fazer, em vez de lamentar o que já não consegue. Sabe tocar a vida com uma leveza admirável. Num raro momento em que minha boca não está ocupada, comento que ela deveria dar um curso ensinando outras mulheres a conduzir um casamento assim: apesar das diferenças — inclusive de idade — moldou o companheiro ideal para cuidar das orquídeas, controlar as compras da casa, escolher filmes, restaurantes e até a próxima viagem.

Quando os filhos dele insinuam que “vai ser ótimo quando você tiver que cuidar do papai”, ela apenas sorri e responde de maneira espontânea:

— Me casei com ele sim, portanto, sou sua mulher. Mas, quando ele precisar de cuidados, contrato uma profissional.

Dou graças a esse espírito prático, afinal ela é minha dentista há décadas e eu não pretendo renunciá-la tão cedo.

Depois da minha sugestão do tal curso, ela pergunta se conheço a história dos peixes transportados no tanque de um barco de pesca. Com o sugador pendurado, só consigo resmungar que não. Ela então começa: o barco vinha lotado de peixes no tanque de água balançante. Ao chegar, estavam todos molengas, sem vida. Até que alguém teve a ideia de colocar um tubarão ali dentro. O predador passava a viagem inteira tentando engolir os peixes; estes, obrigados a nadar o tempo todo para escapar, chegavam ao destino lépidos, firmes, frescos.

— A vida é assim — concluiu, ajeitando o fotopolimerizador . — Sempre tem que ter um tubarão no tanque.

Minha manhã terminou com o frescor de Kolynos, aaahhhhh!

domingo, 7 de setembro de 2025

Luzes da aurora


Pelo retrovisor, a cidade ia perdendo o foco, ficando cada vez mais para trás. Luzes se apagavam devagar, como um adeus de fininho.

Distantes, trêmulas.

À frente, o escuro se desfazia aos poucos, como quem vai embora sem fazer barulho. A aurora escorre. E o que vejo não são apenas luzes: são presságios, arrepios, a beleza inquieta de não saber o que me espera.

A madrugada me encontra acordada.

Perco o sono por causa das viagens… ou viajo porque nunca aprendi a dormir.

Saio de casa no silêncio que antecede os pássaros.

Dirijo sozinha, através daquilo que deixou de ser noite, mas ainda não se fez dia.

A estrada me acolhe com o colo frio da noite.

E então vem o dia:

lento, macio, tateando atrás das montanhas, escorrendo pelo vidro embaçado do carro.

Minhas mãos, geladas, seguram o volante como se fosse a única âncora num mundo que se dissolve aos poucos.

Eu sigo para o dia que nasce diante de mim, e um milagre acontece: somos ambos desconhecidos.



sábado, 16 de agosto de 2025

Grão de areia

Andei à tua procura. Revirei cada grão de areia pra ver se te achava. Esperei escurecer pra te buscar além das estrelas. Nas gotas de cada chuva que caiu, nas nuvens que deslizaram sem fazer água.  No fundo do mar, nos dias de missa, na fila do cinema,  na lanchonete da esquina. Te procurei até no meio da banca de alfaces da feira de quarta-feira.  Liguei pra polícia, pro analista. Te procurei indo e voltando das minhas viagens,  no meio dos meus livros. Na fumaça do cigarro, no copo pela metade de um corpo inteiro. Te busquei dentro das minhas insônias e  quando o sono, por fim, me venceu, foi nos meus sonhos que finalmente te encontrei. 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Dias frios


Depois de três anos da morte de minha mãe, voltei à cidade onde supostamente nasci. Supostamente porque é ali que consta meu registro de nascimento, onde adquiri meu primeiro número: folha tal, livro tal.

Ao longo da vida fui recebendo vários outros números. Apenas o meu nome se conservou o mesmo. Sempre me recusei a mudá-lo. Quando estudei Direito, ouvi de um professor que, na tradição romana, a mulher ao casar mudava de manus: deixava de ser propriedade do pai para tornar-se propriedade do marido. Esse absurdo teve registros em mim.

Fui visitar o túmulo da minha mãe. Ali, com o seu nome de casada, está  com outros familiares da minha linhagem paterna. Fiquei feliz por estar tão bem acompanhada. Está com os melhores da família, os que fizeram parte dos meus dias, dos quais guardo lembranças preciosas.

Depois fui procurar meu irmão, que está num lugar mais afastado, em companhia de minha avó paterna.

Percebi que não mudei nada desde a infância. A atmosfera do cemitério, as cruzes, as calçadas de pedras portuguesas, a solidão poeirenta de um mês frio e seco me acompanharam por dois dias. Bastava fechar os olhos e tudo aquilo voltava: o inexplicável, o silêncio, o frio.

Quando era criança, vivia nessa cidade, que para mim sempre foi sinônimo de tédio. Fazia qualquer coisa para me livrar da sensação de não ter o que fazer. Era assim que, em novembro, antes do Dia de Finados, eu aceitava o convite da Yazinha - a empregada que completou cinquenta anos de serviços com minha avó e dela herdou o nome em diminutivo - para lavar e enfeitar os túmulos da família.

Acho que essa ideia de limpar os túmulos era uma forma de mostrar que não abandonávamos nossos mortos. Dona Yazinha acreditava que se não tivesse tudo lustrado, "os pessoal da cidade ia falámardenóis ". 

Eu ficava, pelo menos, uns quinze dias com o cemitério na cabeça. Bastava fechar os olhos durante o dia que o medo vinha. À noite, ele vinha ainda pior. Pensava na solidão daqueles que, deitados sempre de barriga para cima, de olhos fechados, para nunca mais ver ou poder conversar com os que vinham de visita. As flores murchavam com a cabeça curvada. Também estavam mortas.


sexta-feira, 4 de julho de 2025

O segredo dos teus olhos

Existe uma frase de Freud, no emblemático Caso Dora, que soa quase como uma profecia. Mesmo sem nunca desejar sê-lo e tendo refutado a posição de oráculo, quando escreveu um dos textos inaugurais da psicanálise, A Interpretação dos Sonhos, Freud afirmou que um sonho depende muito mais do sonhador do que da tentativa de adivinhar o futuro.  

Mas antes que eu me perca completamente , volto à frase do Caso Dora:

"Nenhum mortal pode guardar um segredo; se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas dos seus dedos..."

Não quero falar de Freud, nem da interpretação dessa frase em seu contexto.

Quero falar de você.

Quero falar de tudo o que ouvi nos seus silêncios, dos seus olhos pousados em mim, da sua mão roçando as pontas dos meus dedos  e da importância da minha imaginação em interpretar e guardar cada memória do tempo em que você esteve ao meu lado.

Eu sempre te disse que a melhor distância entre nós era a de um palmo.

Era quando eu sentia tua respiração encontrando a minha, fazendo nuvens, gerando conjecturas, criando um futuro sem existência.

Buscamos juntos um fim porque nunca soubemos buscar uma finalidade.

Estivemos juntos em longos silêncios porque não suportaríamos as palavras que viriam, encerrando aquilo que jamais sonhamos que um dia acabaria. E acabou, mesmo em silêncio.

Nosso segredo sempre foi terminar.

Guardo para mim o segredo dos teus olhos, assim como guardo as coisas incontáveis, intocáveis, incomunicáveis da minha memória. 

Claudia Casimiro 



sábado, 28 de junho de 2025

Amores que não passam na vida real


A vida é glória inglória.

É assim que, às vezes, penso nela. Porque, no fundo, nada se parece com os filmes, nem com os livros, nem com as adaptações dos livros que tentam ser filmes. A vida real é mais parecida com a gente. Um rascunho de tudo o que poderia ter sido e foi. Daquilo que tivemos juntos e, mais ainda, daquilo que continuei tendo com você mesmo depois da nossa separação, quando nunca mais nos vimos.


Porque a vida, essa inglória gloriosa, não se repete.


Ou você vive o momento em que tudo acontece ou o perde para sempre. Não há replay. Não há edição. Mas eu aprendi a blefar com a vida. Confesso: disponho de um mecanismo bem mais eficiente que esses: as lembranças, onde tudo acontece ou desacontece, dependendo do estado de espírito de cada dia.


A vida pode até não terminar como nos cinemas, porque pode ser muito melhor. Ela tem essa inusitada capacidade de se enrolar nas cordas do destino. Tenho finais que foram se apagando com o tempo, como tinta em papel exposto ao sol.


Mas com você, não.

Com você ficou tudo.


Tenho edições ilimitadas sobre o mesmo tema.

Detalhes minúsculos, nuances, entrelinhas, palavras guardadas.

Ficou até o seu sorriso meio tremido, naquele exato instante antes de dizer que me amava pela primeira vez.

Com você, eu acreditava no que via. E, em algum momento, passei a acreditar também no que não conseguia ver, como se amar fosse também uma profissão de fé às cegas.


Gostamos das fantasias que criamos, mesmo sabendo que somos incapazes de reproduzi-las no plano real. Precisamos delas. Precisamos das fantasias como quem precisa de um palco improvisado onde nossos amores possam ser apresentados diante de uma plateia irreal, silenciosa, ausente.


Nos perdemos, talvez, nesse palco difuso. E nos achamos, brevemente, em cada cenário fantasmático que inventamos. Muitos amores foram isso: amadores. Amores que não passaram para a vida real.


O meu por você foi real.

A dor e a beleza da unilateralidade dos encontros.

Mesmo diante da inexistência de novos encontros.

Claudia Casimiro 


sábado, 1 de março de 2025

Acenar

Os acenos de despedida começavam do lado de fora. Minhas mãos pequenas acenavam enquanto meu coração começava a chorar devagar. Enquanto o carro acelerava eu corria atrás até quase perder o fôlego ou até que ele sumisse de vez na próxima curva. Percebia naquele momento que ficar é sempre mais doloroso do que partir. O carro seguia sempre em frente, para o novo. Eu voltava a pé,  pelos caminhos gastos, olhando as pontas dos meus pés.  Era obrigada a voltar, sempre, enquanto outros iam-se. Para onde eu voltava não haviam aventuras, novidades me esperando. Havia somente a espera de esperar que você voltasse novamente,  um dia, quem sabe. Acho que foi por isso que não via hora de crescer, ter dinheiro,  comprar um carro e ir embora também. Voltando apenas em natais possíveis,  em nascimentos ou casamentos com datas marcadas ou enterros prováveis.

Minha avó materna cultivava um canteiro com rosas na lateral da casa. Cada roseira era dedicada a um que tinha morrido. Meu tio, meu avô, meu irmão.  Nessa ordem.  A ordem da  morte nunca obedeceu a ordem de nascimento. A desgraça da ruptura nunca perguntou se você estava pronta para recebê-la. Uma intrusa que afirma sua presença a contra gosto de quem sofre.

Eu via naquele canteiro um propósito,  as gotas que vertiam água para irrigar as flores eram também as lágrimas da minha avó: lágrimas de mãe,  de esposa, de avó,  nessa ordem. 

Percebi que tenho plantado árvores,  de pessoas vivas ou mortas. Quero que meu jardim me faça lembrar dos que se foram por vontade própria,  dos que ainda estão comigo e daqueles que nem foram nem ficaram mas que gosto de lembrá-los porque o gosto de lembrá-los me lembram que ainda estou viva.

O seu jasmim de poeta tem perfumado as minhas noites de maio. Ainda me lembro de você todas as vezes que o sinto perfumando meu jardim noturno.

Não quero ser aquela criança que voltava sozinha para casa, quero ser a mulher que cresce aprendendo a fazer despedidas, que não sente o coração doer lentamente de saudade,  nem tem um nó amargurado na garganta e que chora apenas de emoção nos reencontros possíveis. As impossibilidades da vida são muitas.  Aprendi lentamente a conviver com elas, hoje as tomo em meus braços e posso dançar sozinha sem me preocupar se a música que ouço é a mesma que está sendo tocada. 


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

A varanda da minha casa

Acho que naquele tempo ainda não ia para escola,  deveria então ter por volta de seis anos. Lembro-me bem daquela varanda em "L".  Para acessá-la a partir do jardim era preciso subir alguns degraus,  de forma que ficava suspensa ao nível da rua. De onde estávamos era preciso descer  um degrau alto, talvez pelas minhas pernas ainda diminutas, acessando um corredor externo à casa. Esse corredor era coberto por uma parreira de uvas,  de ponta a ponta, até o final do corredor,  embocando para um quartinho de despejo, onde eram guardadas coisas remanescentes  da casa, onde a roupa era passada a ferro.

Eu deveria estar inquietada com as questões de vida e morte, o que é próprio das crianças nessa idade.  Acho que é quando começamos a ter ideias de finitude e morremos de medo que nossos pais morram.

Minha tia, que também era tia do meu pai, que não tinha casa, nem marido, nem filhos, morava um pouco na casa de cada parente. Era uma alegria quando vinha e uma tristeza quando partia. Uma das raras pessoas onde esse fenômeno acontece. Passava seis meses, um ano com cada família, depois se mudava de família, carregando sacolas,  deixando histórias. Deixava saudade por onde passava. Inimiga de intrigas,  tinha habilidade em guardar segredos de família. Tinha medo de esclerosar e começar a contar tudo o que sabia. Figura adorável,  era baixota (eu acho), sempre tentando fazer regime mas cozinhando todos os dias,  fazendo doces, só se lembrava da dieta depois que comia. De forma que nunca perdeu peso o que lhe garantia um colo fofinho, onde eu adorava sentar, conservando esse hábito até mesmo quando fiquei moça. Um dia ela me disse que eu chegava, rodeava, rodeava até terminar sentada no seu colo. Nunca tinha me dado por isso, depois fui percebendo que de fato me comportava assim, que costumava dessa forma sentada, passar-lhe o braço por detrás do pescoço e encher-lhe de beijos. Era também a minha madrinha,  tive muita sorte eu!

Voltando à varanda e sobre a minha inquietação sobre a finitude, lhe perguntei como era o rosto do seu pai. Tomei um susto! Como assim não se lembrava mais daquele rosto? Então era assim que o mundo era? Além de morrer as pessoas não se lembrariam mais da nossa fisionomia? Não poderia aceitar isso como um fato. Amava tão profundamente meus pais, tinha tanto medo que eles se fossem que a ideia de não me lembrar de seus rostos me pareceu ainda mais apavorante que a morte.

Fazemos pactos infantis que a maturidade nos retira. Hoje é certo que tenho que rastrear a fundo na memória os detalhes das fisionomias que se foram. As nuances de suas personalidades, alguma particularidade que só essa pessoa tinha, como mexer lentamente os dedos dos pés quando estava sentada vendo televisão,  um jeito de olhar quando chegava em casa, a forma como chacoalhada as chaves no portão,  a forma como acelerava o carro para estacionar,  a forma como me chamava, como pronunciava meu nome, um jeito de olhar para o infinito, perdido em devaneios ou até mesmo pensando na morte que lhe chegaria muito cedo na vida.  Entre as lembranças, onde faço força para não perdê-los conservo-lhes o tom de voz.  Tento não lhes esquecer a voz para que continuem tendo vozes em mim.