segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Tubarão no tanque

Enquanto observo o céu meio nublado, avisto a torre da igreja do Assunção subindo pela janela. Estou de boca aberta — literalmente — e só ela tem o direito de falar.  Maneja os instrumentos com precisão, deslizando vez ou outra no banco de rodinhas, enquanto me atualiza sobre os grandes acontecimentos do ano: o casamento do filho e o seu próprio, com alguém que ela chama de “meu velhinho”, já que ele tem quase a idade de seu pai, se este ainda estivesse vivo.

Com a longevidade do relacionamento e do cônjuge, ela acredita que seu papel é estimulá-lo, engrandecer o que ele ainda pode fazer, em vez de lamentar o que já não consegue. Sabe tocar a vida com uma leveza admirável. Num raro momento em que minha boca não está ocupada, comento que ela deveria dar um curso ensinando outras mulheres a conduzir um casamento assim: apesar das diferenças — inclusive de idade — moldou o companheiro ideal para cuidar das orquídeas, controlar as compras da casa, escolher filmes, restaurantes e até a próxima viagem.

Quando os filhos dele insinuam que “vai ser ótimo quando você tiver que cuidar do papai”, ela apenas sorri e responde de maneira espontânea:

— Me casei com ele sim, portanto, sou sua mulher. Mas, quando ele precisar de cuidados, contrato uma profissional.

Dou graças a esse espírito prático, afinal ela é minha dentista há décadas e eu não pretendo renunciá-la tão cedo.

Depois da minha sugestão do tal curso, ela pergunta se conheço a história dos peixes transportados no tanque de um barco de pesca. Com o sugador pendurado, só consigo resmungar que não. Ela então começa: o barco vinha lotado de peixes no tanque de água balançante. Ao chegar, estavam todos molengas, sem vida. Até que alguém teve a ideia de colocar um tubarão ali dentro. O predador passava a viagem inteira tentando engolir os peixes; estes, obrigados a nadar o tempo todo para escapar, chegavam ao destino lépidos, firmes, frescos.

— A vida é assim — concluiu, ajeitando o fotopolimerizador . — Sempre tem que ter um tubarão no tanque.

Minha manhã terminou com o frescor de Kolynos, aaahhhhh!

Um comentário:

  1. Tem algo em que você escreve, me prende e provoca um desejo por mais. Sempre surpreende.

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