domingo, 7 de setembro de 2025

Luzes da aurora


Pelo retrovisor, a cidade ia perdendo o foco, ficando cada vez mais para trás. Luzes se apagavam devagar, como um adeus de fininho.

Distantes, trêmulas.

À frente, o escuro se desfazia aos poucos, como quem vai embora sem fazer barulho. A aurora escorre. E o que vejo não são apenas luzes: são presságios, arrepios, a beleza inquieta de não saber o que me espera.

A madrugada me encontra acordada.

Perco o sono por causa das viagens… ou viajo porque nunca aprendi a dormir.

Saio de casa no silêncio que antecede os pássaros.

Dirijo sozinha, através daquilo que deixou de ser noite, mas ainda não se fez dia.

A estrada me acolhe com o colo frio da noite.

E então vem o dia:

lento, macio, tateando atrás das montanhas, escorrendo pelo vidro embaçado do carro.

Minhas mãos, geladas, seguram o volante como se fosse a única âncora num mundo que se dissolve aos poucos.

Eu sigo para o dia que nasce diante de mim, e um milagre acontece: somos ambos desconhecidos.



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