domingo, 9 de novembro de 2014

Coincidência, será?

Era para ser sábado, simplesmente e nada mais que sábado. Sento para tomar o café da manhã e vejo a notícia de que ela estará aqui em São Paulo. Preciso sair correndo, o encontro será daqui há duas horas. Quantas vezes tinha imagino esse encontro?! ... e como tudo o que imaginamos acaba saindo sempre de outra forma...  No caminho fui pensando no que diria.  De uma coisa estava absolutamente certa: seria ao final da entrevista, quando tivesse a oportunidade de estar sozinha com ela. Ou talvez na hora do autógrafo fosse melhor? Tinha encontrado um livro de sua autoria, intacto na estante  que estava dentro da bolsa colada no meu corpo.

O auditório está lotado. De mulheres obviamente. Encontro um lugar na segunda fila, olho para a mesa de centro com pelo menos vinte obras de capas viradas para a platéia,  me sinto um pouco acuada, não li nenhuma. Li só aquela única crônica que me chegou por intermédio de uma amiga, tudo parecendo muito ocasional, cuja leitura me tirou o sono e era por isso estava vindo aqui hoje. Para agradecer.  Não por ter me tirado o sono mas,  pela transformação que os escritos são capazes de alcançar, onde quem lê e quem escreve nunca jamais terá a dimensão de prever, por mais que presuma entender as singularidades da vida.

Ela senta, de pernas compridas,  é bem magra, de uma franqueza clara diz que nunca planejou nada, nunca pensou em ser escritora, que nem mesmo sabe se é de fato. Considera-se uma mulher normal,  que empurra carrinho de super mercado três vezes por semana em Porto Alegre, leva e busca filho na escola, vai ao correio, faz pilates e em algumas horas vagas...  escreve.

Por conta do que  faz nessas suas horas vagas, foi que  li a tal crônica que falava sobre a Portaria 276 que prevê remissão de pena para presos que leem. Ela terminava escrevendo que "ler pode significar a liberdade". Então, aquilo que sempre acreditei por metáfora passava a existir num mundo real e  estava normatizado?!

 Acreditando no  poder de transformação através da literatura, essa que entre as artes é a meu ver,  a mais singela e humilde,  para que ser realize apenas precisa de um bom texto, uma voz que o leia e uma alma que o ouça. Através de simples rodas de leitura nascia o Leitura-cura, projeto que venho me dedicando no último ano, um processo de busca e encontros onde fica difícil divisar quem ajuda ou quem é ajudado. Estórias que mudam porque foram contadas ou porque  nunca foram ditas. Coisas que saltam de nossas memórias fazendo um paralelo ritmado com a nossas irrealidades.  No fundo no fundo,  vamos percebendo que somos todos iguais, só que com estórias diferentes.   E que curar-se depende muito mais de entender o que viveu do que nominar culpados. Entender a própria estória significa colocá-la como sua, indelegável.   Negá-la é o caminho certo para nunca mais sonhar. Libertos pelas estórias que ouvimos voltamos a sonhar novamente, sendo provável reescrever ou retomar às nossas próprias, no ponto em que as perdemos. Disso é feito o mundo mágico dos livros.

O encontro com a escritora não aconteceu como eu tinha imaginado, a platéia de mulheres não cessava de fazer perguntas, imaginei que acabada a entrevista, que já durava mais de hora e meia,  ela sairia correndo para tomar o próximo avião para Porto Alegre e tchau. Fui a última a falar, vencendo minhas resistências pessoais pedi o microfone e lhe agradeci publicamente. Achei que a ocasião assim o merecia. Obrigada então: Marta Medeiros por esse seu escrito que tem mudado todos os rumos da minha estória.

Para quem acredita que a vida é um acaso de coincidências, esse meu tão esperando encontro de agradecimento deu-se na Biblioteca São Paulo, justamente no Pavilhão 9, onde todos se lembram e para que não nos esqueçamos, de que onde existirem livros existirão menos prisioneiros.

Se não acredito em coincidências, acredito que um sonho bem sonhado vira uma estória de verdade.



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