quinta-feira, 6 de novembro de 2014

1968, um ano para não ser esquecido

1968. Um ano para não ser esquecido. Tempos felizes de jovens transviados, moças de mini saias e outras versões de vestidos "engana papai",  festas, efusão,  rock , flertes.
Essa condição feliz de uma mocidade que estava trilhando novos caminhos tinha também um lado "B".   Famílias que tinham filhos estudando em São Paulo ou parentes vivendo aqui, passavam em constante estado de angústia. As notícias, por questões óbvias, chegavam truncadas como uma brincadeira de telefone sem fio. Muitos se calavam, outros cochichavam que fulano tinha desaparecido. Muitos sabiam que investigações mais apuradas junto a autoridades competentes,  poderia implicar no seu próprio desaparecimento.  O silêncio foi sendo usado como  um mecanismo para salvar a própria pele.

Lembro na casa de meus avós paternos de uma mesa grande reservada para os adultos e outra separada na varanda para as crianças.  Meu interesse era por esse mundo adulto. Sempre dava um jeito de espichar as orelhas para saber do que falavam. Embora meu avô tivesse sido um homem apaixonado por política durante seus 97 anos de existência,  tendo participado ativamente da vida pública da cidade, nessa época de incio dos anos 70,  não me lembro de sequer mencionarem temas relacionados à política em  reuniões de família. Bem ao contrário. Certa vez ouvi um dos adultos dizendo que não se devia falar de politica em público.  No dia seguinte quis saber com a minha mãe o que isso significava. Ela simplesmente respondeu que quem falava sobre politica acaba desaparecendo.  Me deixando com muitas dúvidas passou a cuidar de algum afazer de ordem prática em benefício do lar.

Bom, tive a oportunidade de  viver em dois mundos completamente distintos. Um que era da casa de meus a avós paternos e outro que era o lar dos meus avós maternos. Nesse segundo mundo meus tios ouviam Chico,  tinham uns discos clandestinos de música de protesto que por razões se sobrevivência também acabaram tomando um chá de sumiço.  Tinha a minha tia, minha alter ego, estudante de letras da USP, moradora do CRUSP, embora não militante,  trazia as notícias nas entrelinhas sobre o mundo da Capital, que tanto e sempre me fascinou.

Um dia a ouço contando para minha mãe ( que nunca entendeu nem se interessou por política) sobre a invasão do CRUSP,  sobre as companheiras moradoras que tinham sumido,   uma delas grávida  teve a barriga toda queimada com ponta de cigarro... Meu ouvidos de criança não suportavam ouvir aquilo. Foi ai que passei a odiá-los  e a temê-los também.  Queimavam livros esses malditos,  censuravam músicas,  peças de teatro, sumiam com pessoas,  que apareciam depois enforcadas num ato "suicida" nas celas. Fechavam jornais, desapareciam com jornalista, estudantes aos montes ou qualquer outra pessoa que sismassem não agirem nas botas do sistema.

Logo seríamos  um País que vai pra frente, 80 milhões em ação salve a seleção! Generais, culto à Bandeira, Hino Nacional aprendido na ponta da régua, desfile de Sete de Setembro com autoridades se equilibrando em palanques improvisados.

Ao som desse ufanismo nacionalista pessoas continuavam sumindo porões a fora, sofrendo lavagem cerebral. Torturas foram covardemente negadas por anos a fio. Arbitrariedades,  supressão do Estado de Direito, AI-5, fechamento do Congresso Nacional. Exílio. TFP e o escambau do Nicolau.

Muito do que se passou naquela época de ditadura ainda não foi elucidado ou dimensionado. Acredito que existam alguns números oficiosos que nunca serão confrontados com os verdadeiros números.  Creio também  que muitas famílias já desistiram ou ainda continuam sem respostas pelos atos cometidos por essa suposta "ordem" , essa mesma "ordem" a que alguns cidadãos veem nesse momento reivindicar sua restauração.

Deveríamos todos ter vergonha desse momento negro da nossa pátria.  Não desculpar aos mais jovens que estão militando em favor de causas que desconhecem mas,  que teriam por obrigação conhecer através da  história, mesmo que registrada de forma truncada. Aos mais velhos que estão reerguendo essa bandeira desfraldada e gasta merecem nosso repúdio absoluto, não encontro outra palavra para defini-los senão aqueles mesmos reacionários dos anos anos 70. Os que não viram nada, não souberam de nada, preferindo o auto engano como instrumento e meio de vida.

Nossa democracia sequer a chegou a ser consolidada. Vivemos ainda em meio à arbitrariedades consentidas, desmandos e casuísmos. Vejo isso todas as vezes em que precisei me reportar à um serviço público, mormente àqueles aos quais a nação evoca à si o dever de prover.

É nosso dever não deixar que essa história seja esquecida para que não corra o risco de ser repetida.   Até porque,  babaca é o que não falta nesse mundo!





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