
Poucas coisas me dão tanto sossego quanto dirigir por uma estrada de terra. Voltava já com o dia escuro, silenciosa seguia pensando em todas aos lugares onde já tinha "morado", vivido ou passado em ausências.
Parei para ver um jardim que me floria aos olhos, num vilarejo com poucas casas como tantos que existem em Minas. Ela me convidou para entrar, acredito na sinceridade desses convites, já aprendei a não recusar e tampouco tinha motivos, tamanha a acolhida que sinto nessas simplicidades.
Sentada na beira do fogão à lenha, foi enrolando um paeiro e começou a falar Dona Joana.
Contou a vida todinha de Nalva, a filha que pegou para criar. O Padrinho era viúvo e louco para casar de novo e tinha a Doidinha. Diziam que se ela casasse e tivesse filho sarava. Teve cinco e só piorou.
Era uma correria danada pra médico, pra lá e pra cá, tudo não dava jeito. Carregando a menina pra tudo que era canto sem nem saber cuidar direito da criança, se nem mesmo jeito de si sabia dar. Um dia, Dona Joana pediu para que deixassem a menina com ela, para que a mãe pudesse se consultar melhor com o Doutor. No dia seguinte o Padrinho apareceu no portão e falou que fosse buscar a menina. Tava dada.
Foi mesma coisa que tivesse nascido menino Jesus aqui em casa! Tudo que era vizinho vinha trazer alguma coisa. Toda hora gente batendo no portão trazendo cueiro, mamadeira, pano de forrar. Era um ratinho, a boca tava forrada como se fosse um chumaço branco de algodão de tanto sapinho! Não sabia cuidar daquilo, meus meninos nunca tiveram. Mandaram passar cinza de brasa com limão, achei que aquilo não tava certo. Depois me mandaram um vidrinho com um negócio roxo dentro, fui passando, dali três dias já mamava que era uma beleza. Com três meses já era uma gracinha.
Precisava formar um grupo de crianças para ter escola no lugar e Nalva com cinco anos entrou para engrossar o time. Mesmo não tendo idade foi passando de ano que foi uma coisa, um atrás do outro! Tinha que fazer umas letras bem grandes no caderno da distância do polegar até o indicador. Era quase cega de tanto "carmante" que a mãe tinha tomado.
Até que apareceu uma professora nova e falou que a menina estrovava os outros. Ahhh... mas ela voltou chorando pra casa, como que ia ficar em casa sem leitura? Ia ficar que nem nóis, uns tontos que só sabe cavocar buraco na terra?
A pessoa pra dar certo na vida tem que morar no que faz!
Eu fui lá firme falar com a professora. Não é que que uns tempos depois apareceu um escola para deficiente em Itajubá?! É longe sim! Mas meu marido ponhava ela na condução, ela ia e voltava todo dia. Quando terminou o colégio falou que ia continuar em frente. Dona Joana achou que era hora de aquietar mas Nalva foi estudar Turismo Rural. Morando em pensão comendo arroz, feijão e tomate to-do san-to dia.
Quando se formou achou que sem enxergar não ia dar para trabalhar com isso. Foi fazer um curso de massagem e hoje que faz massagem com ela, diz que é muito melhor do que com uma pessoa que enxerga.Nesse fim de tarde, passando pelo seu jardim florido acho que "morei" um pouquinho na sua casa, no café quente e docinho que me ofereceu, nas bolachinhas feitas pela senhora, enquanto via sua sombra contra à luz, pitando na beira do fogão, me dizendo do seu amor pela menina.
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