Em frente à minha casa tinha uma árvore de tronco lisinho, que dava umas flores rosas bem miudinhas. Muito comum nas calçadas do interior. Para mim, e até hoje não sei seu nome, chamava-se Pé-de-Ouvido. Isso porque a vizinha, com quatro filhos, todo o santo dia pegava uma varinha dessa árvore e saia gritando atrás das crianças: "vem cá que vou te dar um pé-de-ouvido.
Minha mãe não. Mulher séria que nunca fala alto. Tem um tom de voz bonito, que se mantém firme até hoje do outro lado da linha, sem revelar a sua idade.
Foi com essa mesma voz que atravessamos nossas tragédias em família.
Eu, por outro lado devo ter nascido com um temperamento bem temperado, conheci bem os seus silêncios e suas chinelas. Assim, sem falar alto, nem sair correndo atrás de mim. E sabe-se lá Deus, o que teria sido de mim se não fosse a firmeza dos seus nãos.
Naquele tempo a gente sofria bullying pra tudo o que era banda. De professor, de primos, dos irmãos mais velhos, dos tios e até do padre. Até da professora de catecismo quando não conseguíamos decorar os benditos mandamentos.
Éramos obrigados a resolver nossas coisas de crianças, como crianças. Sem interferência de adulto e sem levar desaforo para casa. E se não soubesse se defender das ameças de terceiros, sofria bullying até dos próprios pais.
Nunca nos ocorreu carregar uma arma para escola, matar colegas ou atirar em professores com se vê rotineiramente nos EUA e isoladamente por aqui.
O que causa estarrecimento, além das mortes é claro é ver a mídia anunciando : "o garoto sofria bullying". Como se isso pudesse amenizar esses atos anômalos.
Sei que o raciocínio parece primário, mas gostava mais quando pai era pai, mãe era mãe e filho era filho.
Tenho um amigo coordenador de uma das escolas mais modernas e mais caras de São Paulo que tem uma colocação interessante. Quando os pais são chamados ao colégio e chegam lá com o discurso pronto em defesa dos próprios filhos, alegando que são seus amigos, ele diz: "então tá, agora eu preciso falar com o pai da criança...." É fato que muitos pais já devem ter deixado que seus filhos continuassem clientes desse estabelecimento. E nem sei se esse meu amigo continua tendo o seu emprego...
É bem sabido que hoje, o grande drama das escolas é conseguir que os pais se alinhem com as decisões contrárias aos seus filhos. Desejam que o lema onde cliente tem sempre razão seja respeitado também nesse contexto.
Não estou pregando a nostalgia e nem sugerindo que os pais desçam a púa nos filhos. Sabemos que existe uma palavra bem mais eficaz e em desuso: NÃO! Simplesmente: não! Economiza em discurso e as vezes é só o que eles precisam ouvir.
Não dizer não aos nossos filhos não os pouparão de todos aqueles que terão que ouvir vida a fora. O que vale à pena pensar, é até que ponto nossa candura vem criando uma geração de pequenos tiranos, desabituados às contrariedades de uma vida em sociedade, levando ao ato mais extremo e menos necessário: tirar a vida de alguém.
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