Até que não queria ir não. Tinha tomado uns três copos de garapa na estrada, juntando com o calor que faz aqui, estava me sentindo um trapo. Mas, companheira é companheira. Fomos de carro ate o sítio do Chico, onde partindo de lá começaríamos a nossa caminhada. Já saindo do asfalto e pegando a estrada de terra, meus ânimos mudaram. Andar por estrada de chão, para mim, é calmante para os nervos. A paisagem aqui está de um verde infinito, uma imensidão até onde os olhos acalçam e a cana permite.
O Chico está martelando alguma coisa em cima de uma mesa de serralheiro, ajudado por mais duas pessoas. Pára para nos cumprimentar e dar algumas orientações sobre o percurso. Sua irmã , Dalva, desisti do oficio e decidi nos acompanhar na caminhada de fim de tarde. No final, descobri que foi bastante necessário esse acompanhamento, pois era a única que conhecia a região.
Seguimos as cinco mulheres, sendo duas minhas irmãs. De saída, me falaram de uma árvore que e disputada a tapa na India: Nim. E para que serve? Sei lá, serve para matar todas as bactérias. Mas come o quê , esse gominho? Não, mastiga a folha. Não, mastiga o coquinho. Não, mastiga o galho. Resolvi não mastigar nada. Adoro esse tipo de cura, mas prefiro, na volta, perguntar ao Chico, que foi quem plantou as árvores.
São pouquíssimas as matas que restaram. Somente aqueles mínimos necessários conforme manda a lei. Num pedacinho que sobrou, sinto um bafo quente, úmido, onde ainda vivem os bugios, que fazem uma gritaria louca quando vai chover.
Vamos caminhando em direção ao Pau-d'alho, nome do lugar, dado pela imensa árvore, que macerada as folhas entre os dedos, te faz sentir dentro de uma contâiner de alho.
A Dalva entra de repente numa casa e diz que vai fazer umas perguntas para o seu Dito-Véio. Eu imaginei que fosse algum vidente local. Não. Ela só ia pedir umas informações sobre o percurso. Onde pode passar etc e tar, onde tem que virar às dereita e onde e preciso seguir reto. Essa vidência foi bem oportuna. Percebi que só na companhia daquelas três doidas, cada encruzilhada teria sido uma cilada.
A cada mata-burro, a Dalva começava a falar das vacas. De pequena, tinha tomado uma carreira de vaca e tinha se traumatizado. Pode passar onde tem vaca leiteira, vaca preta, Ghir. Mas não pode passar onde tem nelore. E dai fui sempre caminhando meio de pareia com a cerca, caso aparecesse algum boi branco, tentaria, não sei se com sucesso, pular para o outro lado.
Os nelores não pareceram. Só uns dois cachorros bem grandes, de uma matilha de quinze surgiram do nada, atrás da Vana que era a lanterninha das caminheiras, já cansada e como dor nos pés, tinha trocado o tênis por um par de chinelos com meias. De tão assustada nem gritou.
Muitas casas cheias de histórias abandonadas pelo caminho. A cana foi dando espaço para o plantio, nasceram até onde era a varanda, quando não derrubaram tudo. Onde se cultiva cana, não se precisa de gente. Só aprecem trazidos da cidade em época de corte. Pouco foram os que ficaram no seu pedaço de chão, seu gadinho, suas galinhas, sua horta e sua roça.
Uma primeira estrela nasce e mana-caetana pára para gravar com o celular o som da mata. Tantas são as vozes que as nossas não são mais ouvidas. Reverenciamos com o nosso silêncio. Vamos seguindo na escuridão, quando não dava mais para ver desenhos na nuvens, o por-do-sol com seus matizes de cinza, chumbo, púrpura, azul, ouro e fúcsia,
Estamos de volta na casa do Chico. Antiga, onde todos nasceram, com uma varanda enorme com muretas largas onde deito para alongar as costas e ver as estrelas que fazem par com a noite. Ao lado de cada janela, foi feita uma espia, janelinha de trinta por trinta, por onde a vó viúva e com nove filhos pequenos, espiava ladrão do lado de fora, metia a cartucheira pelo vão e abria fogo, se preciso.
Alguns metros, um puxadinho iluminado com uma luz leitosa, com um enorme poço redondo no centro. Ferramentas de uso diário metidas pelas frestas do telhado, numa organização de encher os olhos. Querem transformar o poço num espaço gourmet, diz o Chico fazendo biquinho. Ficamos ali, em volta do poço gourmet, vendo aquela maravilha das coisas que são arrumadas com a alma. Falando das ervas e temperos que crescem na horta ao lado, trocando receitas e mastigando umas folhas de menta para saciar a sede.
O por-do-sol, as conversas, as casas abandonadas cheias de histórias, as estrelas, o poço arrumado com alma, o Nim que esfreguei na minha gengiva, sei lá o quê ou tudo junto..... com o vento que batia no meu rosto, voltando com a janela aberta do carro, me levaram à primeira infância, onde ficam guardadas nossas memórias, onde moramos com a inteireza que não nos cabe na alma. E voltam, voltam sempre nas coisas que nos fazem felizes e são as mais sem explicações de nossas vidas. E nos damos conta, de que foi ali, que pela primeira vez, aprendemos a amar.
Nem tinha me dado conta de que já beirava dez da noite, só tinha almoçado e tomado aquela garapa da estrada. Estava com um sono da morte, aquele onde não é mais possível resistir e com uma fome que dava até enjoo.
A noite termina no Bar do Pedro, com cerveja gelada, sfira e minha irmã tendo que autografar um caderno da Tilibra, que foi capa há mais de trinta anos, para um fã fervoroso e apaixonado pelas coincidências da vida..... mas, essa e uma outra historia que conto algum outro dia.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
12 pontos
Atire o primeiro baton a mulher que nunca se fez essa pergunta diante do espelho: será que estou demais ou de menos?
Quando me fazem essa pergunta, sempre me lembro dos "doze pontos" para analisar o visual, sem medo de errar.
Muitas vezes as mulheres deixam de se produzir, dar uma bossa no visual por medo de errarem na dose. Algumas acabam caindo no indefectível branco e preto ( não é muito cara de uniforme?); no super básico - somente tons sóbrios e nada de acessórios ou então exageram nos tons, no tamanho das estampas, erram nos detalhes o que acaba comprometendo o conjunto da obra.
Tecidos leves e finos não combinam com sapatos grosseiros. Saltos rebuscados demais, na linha que só o estilista que criou compreende e gosta, não costuma ficar bem com nada. Não confunda dia com noite e muito cuidado com o que for usar no trabalho. Alcinhas finas, transparências, rendas, saltos altíssimos não caem bem no mundo corporativo. E muito, muito cuidado mesmo, com as estampas de bichos e répteis.
O melhor é ter em mente que: gosto não se discute mas estética sim.
Na hora de marcar a barra da calça, use um sapato baixo na prova e peça para que cubra totalmente o calcanhar. Dessa forma, mesmo sendo usada com salto, vai dar certo no comprimento.
A regrinha dos doze pontos pode ajudar e até mesmo tornar mais divertido o ato de arrumar-se. Vamos lá.
Cada item conta um ponto, ou dois ou vários dependendo de como está sendo usando e da "dimensão" de cada objeto. Por exemplo, maquiagem discreta vale 01 ponto
maquiagem para noite ou mais ousada com cores ou baton de cor berrante vale 02 pontos
unha feita com esmalte claro = 01 ponto
unha feita com esmalte escuro ou coloridos demais (amarelo, azul) = 02 pontos
cinto básico = 01 ponto
cinto com rebites, largos, fivelas grandes, pedras =02 pontos
blusa lisa = 01 ponto
blusa estampada = 02 pontos
o mesmo vale para calças, saias.
brinco pequeno = 01 ponto
brinco grande = 02 pontos
colar pequeno = 01 ponto
colar grande = 02 pontos
sapato baixo = 01 ponto
sapato de salto - 02 pontos
cabelo preso = 01 ponto
cabelos volumosos = 02 pontos
pulseira pequena = 01 ponto
pulseia grande, com brilhos e pedras = 02 pontos
bolsa = 01 ponto
bolsa grande demais, colorida, com ferragens = 02 pontos
Fivelas no cabelo também contam um ponto.
Estampas com bichos, répteis e outros que tais sempre contam 03 pontos ( no mínimo).
Meias coloridas ou estampadas: 02 pontos
Botas = 02 pontos ( no mínimo). Botas com fivelas e acessórios podem comprometer ou dependendo da idade deixar a mulher com cara de mamãe Harley Davidson. Se precisar escolher entre uma bota preta e uma chocolate, fique com a segunda opção. Muito mais fácil de compor um visual e vai com tons que o preto deixaria carregado demais.
Óculos de grau ou sol (básicos) também valem a partir de um ponto.
Como tudo na vida, vale o bom senso na hora de atribuir os pontos para a somatória. Tudo que tiver mais brilho, mais cor ou for mais chamativo merece uma pontuação acima de dois.
É bom lembrar que, perfume cada uma usa para si. Deve ser usufruido somente pelas pessoas que terão o privilégio de chegar mais perto de você e nunca, NUNCA, usá-lo como se fosse aromatização de ambiente. Passe sempre de menos.
Vá para a frente do espelho e conte seus pontos. Com menos de 12 pontos, você está muito básica; com mais de 12 pontos, começe a tirar alguns acessórios ou substituí-los; com doze pontos você está com tudo em cima. Além do seu bem estar, que é o mais importante, certamente será notada. E para o bem.
Conhecer as caracterísicas do próprio corpo, ajuda a escolher o que te favorece. Mostre discretamente o belo e engane o que não te valoriza. Não se prenda em tendências, elas passam rapidamente, você não!
Fique linda.
Claudia Casimiro
Quando me fazem essa pergunta, sempre me lembro dos "doze pontos" para analisar o visual, sem medo de errar.
Muitas vezes as mulheres deixam de se produzir, dar uma bossa no visual por medo de errarem na dose. Algumas acabam caindo no indefectível branco e preto ( não é muito cara de uniforme?); no super básico - somente tons sóbrios e nada de acessórios ou então exageram nos tons, no tamanho das estampas, erram nos detalhes o que acaba comprometendo o conjunto da obra.
Tecidos leves e finos não combinam com sapatos grosseiros. Saltos rebuscados demais, na linha que só o estilista que criou compreende e gosta, não costuma ficar bem com nada. Não confunda dia com noite e muito cuidado com o que for usar no trabalho. Alcinhas finas, transparências, rendas, saltos altíssimos não caem bem no mundo corporativo. E muito, muito cuidado mesmo, com as estampas de bichos e répteis.
O melhor é ter em mente que: gosto não se discute mas estética sim.
Na hora de marcar a barra da calça, use um sapato baixo na prova e peça para que cubra totalmente o calcanhar. Dessa forma, mesmo sendo usada com salto, vai dar certo no comprimento.
A regrinha dos doze pontos pode ajudar e até mesmo tornar mais divertido o ato de arrumar-se. Vamos lá.
Cada item conta um ponto, ou dois ou vários dependendo de como está sendo usando e da "dimensão" de cada objeto. Por exemplo, maquiagem discreta vale 01 ponto
maquiagem para noite ou mais ousada com cores ou baton de cor berrante vale 02 pontos
unha feita com esmalte claro = 01 ponto
unha feita com esmalte escuro ou coloridos demais (amarelo, azul) = 02 pontos
cinto básico = 01 ponto
cinto com rebites, largos, fivelas grandes, pedras =02 pontos
blusa lisa = 01 ponto
blusa estampada = 02 pontos
o mesmo vale para calças, saias.
brinco pequeno = 01 ponto
brinco grande = 02 pontos
colar pequeno = 01 ponto
colar grande = 02 pontos
sapato baixo = 01 ponto
sapato de salto - 02 pontos
cabelo preso = 01 ponto
cabelos volumosos = 02 pontos
pulseira pequena = 01 ponto
pulseia grande, com brilhos e pedras = 02 pontos
bolsa = 01 ponto
bolsa grande demais, colorida, com ferragens = 02 pontos
Fivelas no cabelo também contam um ponto.
Estampas com bichos, répteis e outros que tais sempre contam 03 pontos ( no mínimo).
Meias coloridas ou estampadas: 02 pontos
Botas = 02 pontos ( no mínimo). Botas com fivelas e acessórios podem comprometer ou dependendo da idade deixar a mulher com cara de mamãe Harley Davidson. Se precisar escolher entre uma bota preta e uma chocolate, fique com a segunda opção. Muito mais fácil de compor um visual e vai com tons que o preto deixaria carregado demais.
Óculos de grau ou sol (básicos) também valem a partir de um ponto.
Como tudo na vida, vale o bom senso na hora de atribuir os pontos para a somatória. Tudo que tiver mais brilho, mais cor ou for mais chamativo merece uma pontuação acima de dois.
É bom lembrar que, perfume cada uma usa para si. Deve ser usufruido somente pelas pessoas que terão o privilégio de chegar mais perto de você e nunca, NUNCA, usá-lo como se fosse aromatização de ambiente. Passe sempre de menos.
Vá para a frente do espelho e conte seus pontos. Com menos de 12 pontos, você está muito básica; com mais de 12 pontos, começe a tirar alguns acessórios ou substituí-los; com doze pontos você está com tudo em cima. Além do seu bem estar, que é o mais importante, certamente será notada. E para o bem.
Conhecer as caracterísicas do próprio corpo, ajuda a escolher o que te favorece. Mostre discretamente o belo e engane o que não te valoriza. Não se prenda em tendências, elas passam rapidamente, você não!
Fique linda.
Claudia Casimiro
domingo, 15 de dezembro de 2013
Quando cheguei por aqui.
Comecei a ler por pura timidez. Eu, menina caipira do interior, precisa de assunto para falar com os meninos. E queria ir mais longe do meu mundo interior do meu interior.
No primeiro quesito, ainda continuo emudecendo diante de alguns homens. No segundo, bem....acabei vindo morar em São Paulo. Não sem antes terminar a faculdade. Era de lei.
Nem ousava dizer das minhas pretensões à Dom Plinion. Comecei falando que gostaria de ser Promotora de Justiça. Bingo!! Ele mesmo me trouxe para Capital, para continuar estudando e fui morar num pensionato misto na Rua Bahia.
Eu, com o meu ouvido de menina caipira nascida no interior, ouvia os sons dos carros na Avenida Pacaembú, e para mim, isso parecia o barulho do mar. Era assim que pegava no sono, sonhando com todas coisas em que ainda acreditava.
Que encontro feliz!! Eu, subindo a Angélica e meu amigo Álvaro descendo. Nos preparávamos juntos para os concursos públicos. Eu querendo comer no macrô do fim da rua, ele querendo comer carne no Sujinho. Acho que pelo menos uma vez consegui convencê-lo. Foi marchando atrás de mim - me lembro da sua cara até hoje - e por fim, recomendou que eu parasse logo de comer aquelas comidas esquisitas, que podia até contribuir para me deixar saudável, mas que não me livraria de ser atropelada na Avenida Paulista. Inobstante nossas diferenças alimentares, continuamos estudando juntos. Mal conseguia decorar um mísero inciso, ele me vinha com parágrafo único, primeiro, segundo, terceiro...uma indigesta sopa jurídica. Ainda existia a posição dos Juízes , a do Supremo Tribunal. Nunca os preclaros doutores chegavam a um combinado. Leis complementares, suplementares e o escambau do Nicolau. Era muito entendimento para meu desentendimento. Não dava para isso. Meu amigo foi longe.... virou “dotô”.
Acabei arranjando um emprego em um escritório especializado em Direito Autoral. Ganhava menos que a copeira, mas era tão feliz!
Uma tarde atendi o telefone. Era o Chico. “Chico de onde meu senhor?” “Chico Buarque.” Desliguei o telefone e até hoje não consigo me lembrar do recado que ele deixou.
A primeira contestação que me pediram para redigir era um divórcio litigioso daqueles bem cabeludos. A mulher acusando o marido de tarado e pornográfico por conta dos contos eróticos que lia e pela volumosa coleção de revistas de mulheres peladas. Puxei a argumentação que predileções literárias diferentes não justificavam a separação de um casal. Talvez tenha dito também, que se Da. Maria tivesse se colocado na posição da companheira que jurou ser, tivesse acompanhado o tarado, digo marido, nas leituras dos contos, é provável que o casamento tivesse seguido apimentadamente em frente...Meu chefe, que era um chato de galochas, me chamou na sala e fui pronta para tomar um pito daqueles. Me devolveu os rascunhos, com a minha letra engarranchada e ordenou que D. Isabel datilografasse tudo como estava e trouxesse de volta para que ele assinasse.
Eram aqueles tempos na Cristiano Vianna, Marga. Você recém separada, acabei fazendo seu divórcio enquanto se lamentava não o fim da relação, mas do bendito joguinho de xícaras com desenho de moranguinho que ele não quis te devolver. Nunca o perdoei por isso.
Não tinha um único dia em que você não voltasse da porta, com a sua bolsa pendurada no ombro, sentava comigo na cozinha para me contar alguma história e tomar um café. Já que estava sempre atrasada mesmo!! Atrasada, atrasada e meia. E ficava dando giro com as palavras, com a sua voz longa e tão cheia de loopings, como uma montanha russa. Quando me contou que seu traje de noiva incluiu um par de óculos de sol, senti que nossa amizade selava-se irremediavelmente....
Quando decidiu ir para a Espanha, atrás de mais algum sonho, carregando duas malas recheadas com roupas da Portinhola, pagas em suaves prestações com os meus cheques, que sua mãe me depositava mês a mês, deixou comigo seus copos de cristal. Eu e a Mônica fizemos muito bom uso deles. Principalmente daqueles mais fininhos e compridos para wodka. Você me escrevia cartas com frequência, que me deixavam rindo antes mesmo de abrir os envelopes. Não sei como arranjava tempo para uma vida tão cheia de histórias hilárias.
Era uma vida miojo, Chablis e Gallery. O perfume da moda era Poison, doce e forte pra dedéu......E fui, fui, fui.... não sei bem onde cheguei. Só sei que me apaixonei irremediavelmente pelo livros.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Bullying
Em frente à minha casa tinha uma árvore de tronco lisinho, que dava umas flores rosas bem miudinhas. Muito comum nas calçadas do interior. Para mim, e até hoje não sei seu nome, chamava-se Pé-de-Ouvido. Isso porque a vizinha, com quatro filhos, todo o santo dia pegava uma varinha dessa árvore e saia gritando atrás das crianças: "vem cá que vou te dar um pé-de-ouvido.
Minha mãe não. Mulher séria que nunca fala alto. Tem um tom de voz bonito, que se mantém firme até hoje do outro lado da linha, sem revelar a sua idade.
Foi com essa mesma voz que atravessamos nossas tragédias em família.
Eu, por outro lado devo ter nascido com um temperamento bem temperado, conheci bem os seus silêncios e suas chinelas. Assim, sem falar alto, nem sair correndo atrás de mim. E sabe-se lá Deus, o que teria sido de mim se não fosse a firmeza dos seus nãos.
Naquele tempo a gente sofria bullying pra tudo o que era banda. De professor, de primos, dos irmãos mais velhos, dos tios e até do padre. Até da professora de catecismo quando não conseguíamos decorar os benditos mandamentos.
Éramos obrigados a resolver nossas coisas de crianças, como crianças. Sem interferência de adulto e sem levar desaforo para casa. E se não soubesse se defender das ameças de terceiros, sofria bullying até dos próprios pais.
Nunca nos ocorreu carregar uma arma para escola, matar colegas ou atirar em professores com se vê rotineiramente nos EUA e isoladamente por aqui.
O que causa estarrecimento, além das mortes é claro é ver a mídia anunciando : "o garoto sofria bullying". Como se isso pudesse amenizar esses atos anômalos.
Sei que o raciocínio parece primário, mas gostava mais quando pai era pai, mãe era mãe e filho era filho.
Tenho um amigo coordenador de uma das escolas mais modernas e mais caras de São Paulo que tem uma colocação interessante. Quando os pais são chamados ao colégio e chegam lá com o discurso pronto em defesa dos próprios filhos, alegando que são seus amigos, ele diz: "então tá, agora eu preciso falar com o pai da criança...." É fato que muitos pais já devem ter deixado que seus filhos continuassem clientes desse estabelecimento. E nem sei se esse meu amigo continua tendo o seu emprego...
É bem sabido que hoje, o grande drama das escolas é conseguir que os pais se alinhem com as decisões contrárias aos seus filhos. Desejam que o lema onde cliente tem sempre razão seja respeitado também nesse contexto.
Não estou pregando a nostalgia e nem sugerindo que os pais desçam a púa nos filhos. Sabemos que existe uma palavra bem mais eficaz e em desuso: NÃO! Simplesmente: não! Economiza em discurso e as vezes é só o que eles precisam ouvir.
Não dizer não aos nossos filhos não os pouparão de todos aqueles que terão que ouvir vida a fora. O que vale à pena pensar, é até que ponto nossa candura vem criando uma geração de pequenos tiranos, desabituados às contrariedades de uma vida em sociedade, levando ao ato mais extremo e menos necessário: tirar a vida de alguém.
Minha mãe não. Mulher séria que nunca fala alto. Tem um tom de voz bonito, que se mantém firme até hoje do outro lado da linha, sem revelar a sua idade.
Foi com essa mesma voz que atravessamos nossas tragédias em família.
Eu, por outro lado devo ter nascido com um temperamento bem temperado, conheci bem os seus silêncios e suas chinelas. Assim, sem falar alto, nem sair correndo atrás de mim. E sabe-se lá Deus, o que teria sido de mim se não fosse a firmeza dos seus nãos.
Naquele tempo a gente sofria bullying pra tudo o que era banda. De professor, de primos, dos irmãos mais velhos, dos tios e até do padre. Até da professora de catecismo quando não conseguíamos decorar os benditos mandamentos.
Éramos obrigados a resolver nossas coisas de crianças, como crianças. Sem interferência de adulto e sem levar desaforo para casa. E se não soubesse se defender das ameças de terceiros, sofria bullying até dos próprios pais.
Nunca nos ocorreu carregar uma arma para escola, matar colegas ou atirar em professores com se vê rotineiramente nos EUA e isoladamente por aqui.
O que causa estarrecimento, além das mortes é claro é ver a mídia anunciando : "o garoto sofria bullying". Como se isso pudesse amenizar esses atos anômalos.
Sei que o raciocínio parece primário, mas gostava mais quando pai era pai, mãe era mãe e filho era filho.
Tenho um amigo coordenador de uma das escolas mais modernas e mais caras de São Paulo que tem uma colocação interessante. Quando os pais são chamados ao colégio e chegam lá com o discurso pronto em defesa dos próprios filhos, alegando que são seus amigos, ele diz: "então tá, agora eu preciso falar com o pai da criança...." É fato que muitos pais já devem ter deixado que seus filhos continuassem clientes desse estabelecimento. E nem sei se esse meu amigo continua tendo o seu emprego...
É bem sabido que hoje, o grande drama das escolas é conseguir que os pais se alinhem com as decisões contrárias aos seus filhos. Desejam que o lema onde cliente tem sempre razão seja respeitado também nesse contexto.
Não estou pregando a nostalgia e nem sugerindo que os pais desçam a púa nos filhos. Sabemos que existe uma palavra bem mais eficaz e em desuso: NÃO! Simplesmente: não! Economiza em discurso e as vezes é só o que eles precisam ouvir.
Não dizer não aos nossos filhos não os pouparão de todos aqueles que terão que ouvir vida a fora. O que vale à pena pensar, é até que ponto nossa candura vem criando uma geração de pequenos tiranos, desabituados às contrariedades de uma vida em sociedade, levando ao ato mais extremo e menos necessário: tirar a vida de alguém.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Verdinha
Sempre quis bicicleta. Eles queriam que eu quisesse Suzy.
Nem sei com aprendi a pedalar. Só sei que foi direto, sem rodinha. Precisava pegar a bicicleta do meu irmão, que nem era para meu tamanho, escondida. Era verde com duas listrinhas bem fininhas brancas. Depois que ele ganhou uma Monarck azul, com banco mostarda, completa, com para-barro de franjinha e rabeira, a verdinha acabou ficando para mim. Inutilmente. Não dava para dar uma volta completa no quarteirão, sem rachar o cano, literalmente, entre a barra central e o guidon. Acabei virando sócia do serralheiro e tendo que vender todo o estoque de garrafas vazias da casa, para pagar os consertos.
Quando tive autonomia para ecolher meus próprios brinquedos, continuei gostando de bicicleta.
Acordar bem cedo com a cidade quase em silêncio. Dia amanhecendo e lá eu vou feliz da vida por não estar de ressaca, encontrando um monte de gente voltando das baladas. Um outro universo. Dá pra ver um monte de coisas escondidas das pessoas que andam de carro. Tem perfume pelas ruas. Cheiro de eucalípto, jasmim, dama da noite, amoreiras, mangueiras e centenas de pés de pitanga. Coisa boa é passar pela feira: cheiro de uva, banana, abacaxi, coentro. Ainda bem que a barraca de peixe é a última. Vou misturando peixe com coentro, cebola roxa, fazendo ceviche, pensando em vinho branco gelado, me lembrando de um por-do-sol e das boas companhias que essa vida tem me proporcionado.
Domingo sempre tem gente cheirosa andando pelas calçadas. Banho fresco, sabonete e shampoo.
Vou pedalando e a Nina Simome tentando me convencer that "people lie". Vou pedalando e teimando que pode ser que não...
Vou descendo, na esquina tem uma fadinha de mãos dadas com a babá. Fico olhando aquela estrelinha na ponta da varinha e imaginado quando é que meu desejo vai se realizar. E começa a Rosemary Clooney " a day in the life of a fool".
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Arsenal da Esperança
O Museu da Hospedaria dos Imigrantes está desativado. Achei uma pena isso. Mesmo quando não existia internet fui até lá a procura de registros dos meus antepassados. Estavam lá. Imigrantes pobres que vieram para trabalhar nas lavouras de café do interior de São Paulo. Nutri por aquele lugar uma certa gratidão, por funcionar como um primeiro abrigo àqueles que se aventuravam além mar, sonhando com uma vida nova. Mesmo que dura e incerta.
Hoje voltei a este local para conhecer o projeto Arsenal. Acolhem trabalhadores de rua para passar a noite. São mil e duzentos leitos, destinados ao público masculino. No primeira noite de acolhida, recebem uma muda de roupas, sabonete e shampoo. Após isso nada mais é doado.
Latinhas de alumínio viram moeda interna local. Cada latinha vale uma moeda e cada coisa tem o seu preço. Para lavar um kilo de roupa na lavandeira, por exemplo, custa 30 latinhas. Para comprar roupas no bazar, também precisa ter latinhas. Tem, também, padaria e biblioteca.
Tudo alí é mega. Por isso os visitantes são convidados a botar a mão na massa. Dobrar 500 toalhas de banho ou 1.000 lençois na lavanderia. Enrolar 250 facas com 250 garfos em gardanapos. Separar 10 sacos de cinquenta litros com roupas doadas. E onde mais for necessária sua ajuda.
As garotas que nos acompanhavam tiveram a idéia de imprimir 1.200 mensagens e colocaram embaixo de cada um dos 1.200 travesseiros. Tenho certeza de que muitos não saberão ler o que está escrito. E ficarão como eu, pensando: o que estaria escrito naquela tirinha de papel? Não importa.
O que importa é a delicadeza que algumas almas conseguem criar. A coragem de outras em realizar. E a de muitas, que sonham com uma noite dormida em um lugar abrigado.
Hoje voltei a este local para conhecer o projeto Arsenal. Acolhem trabalhadores de rua para passar a noite. São mil e duzentos leitos, destinados ao público masculino. No primeira noite de acolhida, recebem uma muda de roupas, sabonete e shampoo. Após isso nada mais é doado.
Latinhas de alumínio viram moeda interna local. Cada latinha vale uma moeda e cada coisa tem o seu preço. Para lavar um kilo de roupa na lavandeira, por exemplo, custa 30 latinhas. Para comprar roupas no bazar, também precisa ter latinhas. Tem, também, padaria e biblioteca.
Tudo alí é mega. Por isso os visitantes são convidados a botar a mão na massa. Dobrar 500 toalhas de banho ou 1.000 lençois na lavanderia. Enrolar 250 facas com 250 garfos em gardanapos. Separar 10 sacos de cinquenta litros com roupas doadas. E onde mais for necessária sua ajuda.
As garotas que nos acompanhavam tiveram a idéia de imprimir 1.200 mensagens e colocaram embaixo de cada um dos 1.200 travesseiros. Tenho certeza de que muitos não saberão ler o que está escrito. E ficarão como eu, pensando: o que estaria escrito naquela tirinha de papel? Não importa.
O que importa é a delicadeza que algumas almas conseguem criar. A coragem de outras em realizar. E a de muitas, que sonham com uma noite dormida em um lugar abrigado.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Juntando as letras.
Letras que formam palavras, viram frases, são parágrafos. Páginas que
viram estórias. Estórias lidas e repetidas, misturadas às nossas, contam uma
nova vida.
Cheiro de livraria, livro novo. Ler é curativo. Biblioteca
tem remédio pra tudo: dor de cotovelo, pé quebrado, saudade, mal olhado, amor
contrariado, unha encravada, sarampo, febre, coqueluche e vazio da alma.
Saboreie, sorva, marine, decante. Encante-se. Pular de estória em estória é como pular de amor em amor. Bom é viver um de cada vez.
Ler demais também intoxica. Ministre doses homeopáticas. Suspire entre os
capítulos, tome um café, saia para passear.
Alguém escreveu, que o homem que não tem música em si mesmo,
nem se emociona com a trança doce dos sons, é propenso à intriga, à fraude, à
traição.
Vinícius, prefere
dizer que não se deve nunca confiar em um sujeito que não seja um bom bebedor
de whisky.
Arrisco pensar que podemos começar a confiar em alguém que
goste de livros. É preciso, no entanto, estar alerta ao poder de sedução das
palavras bem articuladas, da estética bem construída, do vazio do próprio e da
reprodução do alheio.
Olhe as pessoas à partir das estórias que trazem. Conheça o que leram e o que grifaram.
Encontre nos livros a beleza de continuar entendendo sua
própria trajetória. Acredite: a estória real, será sempre a sua. Pode inventar
o gênero que quiser. Seja brevemente dramática, sutilmente romântica e
longamente poética.
Vou terminando, diz pra Catarina que estou bem e qualquer dia
apareço para tomar um whisky e ouvir música.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Dia da Ave
Era Dia da Ave, eu estava no meu primeiro ano de escola. Era preciso fazer um cartaz, numa cartolina branca, com o desenho de um pássaro, que ficaria exposto nos corredores do Colégio.
Eu nunca soube desenhar uma linha reta que fosse. Precisei pedir ajuda para minha irmã, dois anos mais velha. Ela sim, sempre teve mãos de fada. Era um primor de menina. A inspetora da escola, que era uma cobra, a chamava de "Menina de Ouro".
A Menina de Ouro fez meu cartaz, com aqueles traços ainda infantis. Ficou pendurado nas paredes dos corredores por alguns dias. O que eu não sabia é que haveria uma premiação. O que eu não sabia é que no dia da premiação, com aquele pátio lotado, com toda a escola presente, professores e agregados, a diretora iria fazer um anúncio. "Chamamos para subir ao palco, para receber o diploma de melhor cartaz do Dia da Ave, porque entendemos que foi o único que não teve mão de gato: Claudia Alves Casimiro"
Eu era uma criança tímida, dessas de empacar. Ainda me suspendi apoiada nas pontas dos pés para ver se enxergava a Menina de Ouro, para que ao menos com os seus olhos pudesse me acudir.... Não a encontrei. Caminhei trôpega para o palco, devo ter abaixado a cabeça e ter ficado olhando para a minha saia com uma prega na frente e para o meu sapato preto vulcabrás, dois dedos maiores que meus pés, com algodão na ponta, para durar mais um ano.
Acho que teve muitos aplausos. Eu não escutei nada. Queria ir logo para casa, contar para minha mãe que naquele dia eu tinha morta de vergonha, conhecido mais um novo sentimento: o constrangimento. Antes de aceitar aquele rolinho preso com uma fitinha azul de cetim, pensei em contar a verdade. Minha voz não saiu.
Terminada a aula, cheguei em casa com meu Diploma do Dia da Ave. Desesperada para encontrar minha mãe e ver se ela, pelo menos ela, que era adulta poderia dar um jeito nas coisas.
Minha mãe, minha úncia fonte de esperança contra a vergonha que sentia, não me salvou. Peguei o rolinho amarrado com a fitinha azul e dei para Menina de Ouro.
Para elas acho que esse epísódio não teve qualquer importância. Mainha, sei lá por que cargas d'água, talvez para perpetuar minha agonia, guardou o dito cujo do diploma, dentro do cofre de casa, num cantinho junto aos bilhetinhos que lhe dávamos em datas comemorativas. Esses sim verdadeiras preciosidades.
Não sei se o diploma amarrado na fitinha azul ainda está guardado no mesmo lugar, ou se eu algum dia, mediante algum descuido de manhia o surrupiei de lá as escondidas, enquanto ela procurava algo mais importante dentro do cofre, para poder picá-lo para bem longe das minhas vistas. Só me lembro que bem no centro do papel, tinha um vistoso sabiá colorido.
Receio que com o passar do tempo, o vistoso sabiá tenha sumido do centro da folha de papel, e que muito provavelmente, tenha vindo morar dentro de mim, me tornando a pessoa em que fui me transformando com o passar de todos esses anos.
Preciso falar com mainha.....
Legendando: "mão de gato", significa algo que um adulto faz em detrimento à uma atribuição que deveria ser de execução exclusiva de uma criança.
Eu nunca soube desenhar uma linha reta que fosse. Precisei pedir ajuda para minha irmã, dois anos mais velha. Ela sim, sempre teve mãos de fada. Era um primor de menina. A inspetora da escola, que era uma cobra, a chamava de "Menina de Ouro".
A Menina de Ouro fez meu cartaz, com aqueles traços ainda infantis. Ficou pendurado nas paredes dos corredores por alguns dias. O que eu não sabia é que haveria uma premiação. O que eu não sabia é que no dia da premiação, com aquele pátio lotado, com toda a escola presente, professores e agregados, a diretora iria fazer um anúncio. "Chamamos para subir ao palco, para receber o diploma de melhor cartaz do Dia da Ave, porque entendemos que foi o único que não teve mão de gato: Claudia Alves Casimiro"
Eu era uma criança tímida, dessas de empacar. Ainda me suspendi apoiada nas pontas dos pés para ver se enxergava a Menina de Ouro, para que ao menos com os seus olhos pudesse me acudir.... Não a encontrei. Caminhei trôpega para o palco, devo ter abaixado a cabeça e ter ficado olhando para a minha saia com uma prega na frente e para o meu sapato preto vulcabrás, dois dedos maiores que meus pés, com algodão na ponta, para durar mais um ano.
Acho que teve muitos aplausos. Eu não escutei nada. Queria ir logo para casa, contar para minha mãe que naquele dia eu tinha morta de vergonha, conhecido mais um novo sentimento: o constrangimento. Antes de aceitar aquele rolinho preso com uma fitinha azul de cetim, pensei em contar a verdade. Minha voz não saiu.
Terminada a aula, cheguei em casa com meu Diploma do Dia da Ave. Desesperada para encontrar minha mãe e ver se ela, pelo menos ela, que era adulta poderia dar um jeito nas coisas.
Minha mãe, minha úncia fonte de esperança contra a vergonha que sentia, não me salvou. Peguei o rolinho amarrado com a fitinha azul e dei para Menina de Ouro.
Para elas acho que esse epísódio não teve qualquer importância. Mainha, sei lá por que cargas d'água, talvez para perpetuar minha agonia, guardou o dito cujo do diploma, dentro do cofre de casa, num cantinho junto aos bilhetinhos que lhe dávamos em datas comemorativas. Esses sim verdadeiras preciosidades.
Não sei se o diploma amarrado na fitinha azul ainda está guardado no mesmo lugar, ou se eu algum dia, mediante algum descuido de manhia o surrupiei de lá as escondidas, enquanto ela procurava algo mais importante dentro do cofre, para poder picá-lo para bem longe das minhas vistas. Só me lembro que bem no centro do papel, tinha um vistoso sabiá colorido.
Receio que com o passar do tempo, o vistoso sabiá tenha sumido do centro da folha de papel, e que muito provavelmente, tenha vindo morar dentro de mim, me tornando a pessoa em que fui me transformando com o passar de todos esses anos.
Preciso falar com mainha.....
Legendando: "mão de gato", significa algo que um adulto faz em detrimento à uma atribuição que deveria ser de execução exclusiva de uma criança.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Ela com panelas
Ontem tirei a tarde para visitar uma amiga que não via há tempos. Fomos efusivas, como convém às mulheres que não se encontram há algum tempo. Seguimos do portão direto para a cozinha. Minha amiga estava entretida com panelas, numa cozinhação que não tinha fim. Enquanto picava cebolas me contava das maravilhas que vinha descobrindo através da filosofia, e que se sentia muito mais curada do que todos os anos de terapia e de todos os comprimidos que já tinha tomado.
Falava da mãe. Do pai, com mais de oitenta anos que estava recém casado. "Há esperanças! Bradava com a faca empunhada para o alto. "Há esperanças!!!!" Contava dos irmãos. Dos amores passados, futuros e pretéritos. Das reminiscências e das reincidências. E do desastre que podem ser essas duas coisas. Independente da ordem em que aconteçam. Do trabalho, da manicure, da nova cor do cabelo.Do desequilíbrio da balança comercial, frente à constante oscilação do dólar.
Acessava o Google para me confirmar que cabochá não engorda. Calorias mensuradas dão mais credibilidade aos fatos. E fatos mensurados não engordam.
Perdida entre caçarolas e colheres de pau, mexia um molho branco, que meu- pai-do-céu, não havia meio de engrossar. Eu da minha parte, estava quase sugerindo que acrescentasse mais uma três colheres fartas de maizena, juntasse um vidro de leite de coco e partisse logo para um manjar. Não dava. Ela já tinha postado sal e pimenta à gosto...
Quase uma hora depois, bate as mãos assustadas no avental de plástico: meu Deus!!!! cadê o cachorro??!!!! O pobre já estava louco e rouco de tanto latir da rua. A Vila Madalena toda já sabia disso, menos nós que estávamos tentando dar o ponto na vida enquanto o molho não engrossava. Coitadinho do Teichú.
Falava da mãe. Do pai, com mais de oitenta anos que estava recém casado. "Há esperanças! Bradava com a faca empunhada para o alto. "Há esperanças!!!!" Contava dos irmãos. Dos amores passados, futuros e pretéritos. Das reminiscências e das reincidências. E do desastre que podem ser essas duas coisas. Independente da ordem em que aconteçam. Do trabalho, da manicure, da nova cor do cabelo.Do desequilíbrio da balança comercial, frente à constante oscilação do dólar.
Acessava o Google para me confirmar que cabochá não engorda. Calorias mensuradas dão mais credibilidade aos fatos. E fatos mensurados não engordam.
Perdida entre caçarolas e colheres de pau, mexia um molho branco, que meu- pai-do-céu, não havia meio de engrossar. Eu da minha parte, estava quase sugerindo que acrescentasse mais uma três colheres fartas de maizena, juntasse um vidro de leite de coco e partisse logo para um manjar. Não dava. Ela já tinha postado sal e pimenta à gosto...
Quase uma hora depois, bate as mãos assustadas no avental de plástico: meu Deus!!!! cadê o cachorro??!!!! O pobre já estava louco e rouco de tanto latir da rua. A Vila Madalena toda já sabia disso, menos nós que estávamos tentando dar o ponto na vida enquanto o molho não engrossava. Coitadinho do Teichú.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
République
Entra uma moça arrastando uma mala. Com uma mão segura um microfone, com a outra acaricia os cachos sonolentos da filha, enroscada nas suas
pernas.
Do que pensei ser uma mala, surge a batida ritmada de um amplificador.
Uma voz doce e suave, com olhos de sonho, enchem o vagão do trem de "Quizás".
Antes de dormir, recordei-me dessa cena. Uma mulher em defesa de dois amores: a música comprando o pão que a filha comeria mais tarde. Quizás, Quizás, Quizás. Estación de République, Paris
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Yazinha
Nasceu Mariana. Virou Yayá. Se chamou vó Yá.
Sua ajudante da vida toda, por mais de cinquenta anos, passou a ser conhecida por Yazinha. Nascida como Durvalina.
Minha avó morava em uma chácara, que foi sendo abraçada pela cidade. Yazinha era a faz tudo. Ajudava em todas as lidas da casa. Depois de muita pedição, com promessas de que não contaríamos para ninguém, nos dava o leite tirado na hora com um pouquinho de conhaque, pra esquentar naqueles dias frios de sair fumaça da boca. Tinha também uns pitos escondidos nas frestas do curral, que a gente pegava escondido para dar uns tragos de fumo de corda. Era também a psicóloga da família, sempre colocando panos frios naquela família que fervia na quentura. Era boa de apartar briga de moleque e de esconder as coisas erradas que aprontávamos. O que não podia !MESMO! era judiar das "criação".
Magra,magra, magra, com as mão calejadas e cabelo sarará, escrevia-me cartas quando fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Na minha volta, tive que contar tim por tim como era andar de avião. Virei aos seus olhos uma extra terrestre quando me pedia para mostrar como era falar em inglês. Quando mudamos para Baurú, nos mandava cartas dando notícias de tudo e pedindo as nossas. Acho que ainda tenho nos meus guardados essas preciosidades. Aqueles envelopes com as bordas listradinhas de verde e amarelo, com umas letrinhas todas tortas, escritas de noite, com tanto carinho, depois de uma dia de trabalho duro.
No pomar tinha jabuticabeiras do mato e sabará, pé de manga borbon, coquinho e rosa, jaqueira, pé de jambo, pitangueira, abacateiro, goiabeiras e jatobá. Por um caminho sinuoso, impecavelmente varrido todos os dias com uma vassoura feita de galhos, chegava-se a casa da Murícia. Ali vivia ela, Maria Papuda, Antenor e o Dito. Um quarteto de solteiros. Para mim já eram todos muito velhos, encarquilhados de rugas e olhos sofridos.
Ir na casa da Murícia era um dos inúmeros itens da lista de proibições do meu pai. Maria tinha fama de louca e meu pai com certeza tinha medo de algum surto psicodélico.
Feia, magra de doer e dar medo com um papo no pescoço, um único dente canino, brava feito uma onça, falava aos berros. Foi preciso treino para começar a entender o que ela queria dizer. Eu adorava ir naquela casa proibida. Tinha um fogão à lenha, uma maquininha de costura manual, elas usavam um ferro de brasas para passar roupas e descascavam um monte de laranjas para mim. Adorava ver aquelas panelas alumiando de areadas penduradas em cima da pia. Com a frequência das minhas visitas, Maria passou a sorrir quando eu aparecia no portão. Da minha parte, confesso que nunca deixei de ter uma pontinha de medo dela.
Murícia era a pessoa responsável por varrer o caminho do pomar e cuidava da lavação de toda a roupa da casa. Aprendi com ela o que é um quarador, e a botar anil na água para enxaguar as roupas brancas, lavadas com sabão de cinzas que ela mesma fazia. Sinto até hoje do cheiro dos lençois secados no sol. Depois, era preciso muito cuidado para tirá-los daquele varal de arame farpado....
Viver é muito engraçado. Quando penso nessas histórias tenho dúvidas se fui eu quem viveu tudo aquilo. Olho ao meu redor, na minha casa em Minas, percebo a reprodução de vários desses objetos da minha infância. Embora tenha escolhido viver em outros mundos é para aquele mundinho onde volto sempre que preciso de mim.
Sua ajudante da vida toda, por mais de cinquenta anos, passou a ser conhecida por Yazinha. Nascida como Durvalina.
Minha avó morava em uma chácara, que foi sendo abraçada pela cidade. Yazinha era a faz tudo. Ajudava em todas as lidas da casa. Depois de muita pedição, com promessas de que não contaríamos para ninguém, nos dava o leite tirado na hora com um pouquinho de conhaque, pra esquentar naqueles dias frios de sair fumaça da boca. Tinha também uns pitos escondidos nas frestas do curral, que a gente pegava escondido para dar uns tragos de fumo de corda. Era também a psicóloga da família, sempre colocando panos frios naquela família que fervia na quentura. Era boa de apartar briga de moleque e de esconder as coisas erradas que aprontávamos. O que não podia !MESMO! era judiar das "criação".
Magra,magra, magra, com as mão calejadas e cabelo sarará, escrevia-me cartas quando fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Na minha volta, tive que contar tim por tim como era andar de avião. Virei aos seus olhos uma extra terrestre quando me pedia para mostrar como era falar em inglês. Quando mudamos para Baurú, nos mandava cartas dando notícias de tudo e pedindo as nossas. Acho que ainda tenho nos meus guardados essas preciosidades. Aqueles envelopes com as bordas listradinhas de verde e amarelo, com umas letrinhas todas tortas, escritas de noite, com tanto carinho, depois de uma dia de trabalho duro.
No pomar tinha jabuticabeiras do mato e sabará, pé de manga borbon, coquinho e rosa, jaqueira, pé de jambo, pitangueira, abacateiro, goiabeiras e jatobá. Por um caminho sinuoso, impecavelmente varrido todos os dias com uma vassoura feita de galhos, chegava-se a casa da Murícia. Ali vivia ela, Maria Papuda, Antenor e o Dito. Um quarteto de solteiros. Para mim já eram todos muito velhos, encarquilhados de rugas e olhos sofridos.
Ir na casa da Murícia era um dos inúmeros itens da lista de proibições do meu pai. Maria tinha fama de louca e meu pai com certeza tinha medo de algum surto psicodélico.
Feia, magra de doer e dar medo com um papo no pescoço, um único dente canino, brava feito uma onça, falava aos berros. Foi preciso treino para começar a entender o que ela queria dizer. Eu adorava ir naquela casa proibida. Tinha um fogão à lenha, uma maquininha de costura manual, elas usavam um ferro de brasas para passar roupas e descascavam um monte de laranjas para mim. Adorava ver aquelas panelas alumiando de areadas penduradas em cima da pia. Com a frequência das minhas visitas, Maria passou a sorrir quando eu aparecia no portão. Da minha parte, confesso que nunca deixei de ter uma pontinha de medo dela.
Murícia era a pessoa responsável por varrer o caminho do pomar e cuidava da lavação de toda a roupa da casa. Aprendi com ela o que é um quarador, e a botar anil na água para enxaguar as roupas brancas, lavadas com sabão de cinzas que ela mesma fazia. Sinto até hoje do cheiro dos lençois secados no sol. Depois, era preciso muito cuidado para tirá-los daquele varal de arame farpado....
Viver é muito engraçado. Quando penso nessas histórias tenho dúvidas se fui eu quem viveu tudo aquilo. Olho ao meu redor, na minha casa em Minas, percebo a reprodução de vários desses objetos da minha infância. Embora tenha escolhido viver em outros mundos é para aquele mundinho onde volto sempre que preciso de mim.
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