quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Segredos de família

Procuramos estórias para entender as nossas. Eu me lembrava daquela casa, da sua posição em relação ao sol, do alpendre lá do alto de onde as visitas eram recebidas e despedidas. Da alegria com que éramos recebidos pelas pessoas que eram antigas e passavam tempo demais no campo. Tinha tentando encontrá-la por conta própria mas as plantações de cana roubam o relevo, mudam caminhos e fazem a gente desistir diante da monotuidade verde.

Quem construiu a casa cujas iniciais estão gravadas em seu frontão desde 1928, chegou muito antes disso faminto e sem um tostão no bolso desembarcado pelo Porto de Santos. Casou-se oficialmente com uma das cinco irmãs de minha avó materna e extraoficialmente... bem, não é possível ter estatísticas de coisas desoficiosas.

Uma das cunhadas enviuvou com penca de filhos e terras. Ele, naquele tempo já se fazia homem de dinheiro e experiência, entendeu por bem de direito amparar a cunhada enviuvada. Cuido-lhe bem. Dois anos depois sem marido ou vizinho, Tia Olivia se apresenta grávida. Aperta daqui e dali, a barriga crescida não teve jeito de esconder. Era exigência da família saber de quem era a criança. Nasceu lindo e sem saúde, que deveria de ser tristeza, morreu aos treze, o filho do cunhado, Tio Júlio, o espanhol faminto do Porto de Santos. Tia Olivia, a viúva grávida, permaneceu longos anos sem palavra de família, isolada por todos e principalmente pelas irmãs, sem notícia de parentes, exceto pelo meu pai, seu sobrinho, que  moleque galopava sem freios ou medos por aquelas terras sem fim. Até que com dezoito anos já se sentindo um pouco homem teve coragem de perguntar à mãe se não achava que já estava na hora de visitar a tia com sina de mulher perdida. Lá se foram os dois, meu pai mocinho e minha avó Mariana. 

Alguns anos depois, meu pai já bem mais crescido queria fazer negócio grande mas sabia que a gente tem que pedir pra àquele que na gente confia. Foi então ter com o Tio Júlio, no casarão da fazenda onde nunca deixou o casamento oficial com a tia Dita, onde continuou sendo o pai impoluto de outros dez filhos, com nenhuma mácula que lhe manchasse o terno bem passado à ferro de brasas. Quando meu pai lhe pediu a soma, o espanhol tigarreou de susto, perguntou o que ia fazer com tanto "dinero" . Precisava ter  certeza que o destino não seria a mesa de jogo ou a cama de mulheres. Emprestou-lhe pois. Meu pai saiu de lá com a soma no bolso, um sonho na cabeça e o agradecimento que precisamos ter na vida quando sabemos que alguém em nós confia.

Queria ver a casa, não por essas estórias, mas porque a lembrava linda, crescida em cima de um muro de pedras, com tulha fresca no porão e o alpendre suspenso de onde podia-se ver longe, olhar na direção do caminho que me levaria para São Paulo, lugar onde sem mesmo saber eu já havia escolhido para viver  minhas estórias e amiúde revisitar outras. 

A casa está abandonada, quem comprou as terras nem olhou para ela, preferiu construir casa nova, cheia de blindex ao lado.  A casa de dez quartos permanece com todos as janelas azuis fechadas ao lado de quatro modestas jabuticabeiras repletas de doçuras de onde roubei os frutos dessas memórias.




sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

INFINITA MORADA

Moro nos pássaros que invadem seu quintal procurando a alegria deles nas crianças

moro no vento enlouquecido de paixão saltando de árvore em árvore, de asa em asa

Eu moro no coração que vai atrás tentando agarrar suas rédeas, galopar nos seus lombos

 moro na pena que se soltou da águia para brincar de cocar na floresta

moro no cipó que arrebentou na mata

moro na poça d água que quer virar chuva

moro na chuva que quer virar flores

Eu moro no orgulho de Deus pelas costas dos negros, suas danças, seus sabores, seus louvores

moro nas naus, nas caravelas, nos mastros. nas velas, moro no vento que me leva na calmaria dos seus oceanos até o cais dos seus encantos.

Eu moro no gozo violento dos vulcões, nos confins distantes derretendo tudo a sua volta criando ilhas e montes

eu moro nas copas das palmeiras, na raiz dos carvalhos, nos ramos das oliveiras

moro no espaço que o colibri paira no ar

moro na flor que quer beijar

eu moro nos castiçais, nos vendavais, na pureza dos animais, nos sinos das catedrais, na manhãs dominicais

moro nos sobreviventes que matam sua sede nos espelhos das nascentes

moro nas pedras embaixo do lençol que desliza transparente

eu moro na gota de sangue do espinho que protege seu amor

eu moro nos altos dos cumes onde o mato pensa que conquistou o mundo

moro na abelha sonhando com o mais puro mel de sabores desconhecidos

eu moro na baga de trigo nos campos de ouro amarelo quase sol

moro na folha umedecida pelo amor da madrugada, no amor que nasce ao meio dia, arde a meia noite amanhece de olhos inchados de vergonha do sol

eu moro na espessura da sombra no arame enferrujado que ameaça a pele na culpa do amago de fel , no se esconder do inseto 

moro nas esquinas encruzilhadas, nos becos, nas estradas, eu moro

Moro na sede do buracos negros, no espirro do sol, na vaidade quasares, na tontura dos furações, moro nas constelações, nas estações, nos corações

eu moro num campo sem dono que tem um rio

moro num quintal com um jardim sem casa, moro nos braços cansados, nos dedos rudes do caboclo que afaga a viola

eu moro nos tambores da fanfarra, na guitarras, na vara do berinbau de vansconcelos violoncelos

moro no cavalo que empresta sua crina pro violino

moro no retinir dos sinos, moro nos paralelepípedos satisfeitos com as caminhadas

moro no desejo da virgem

moro no dente que nasce para morder o peito da mãe

moro no zelo da madre que conhece o amor, moro na miopia dos olhos sem nexo que procuram a menina, o menino no espirito sem sexo

eu moro na areia do deserto que reza ao vento pra se lambida pelo mar

moro na tristeza do alcorão pelos que não entenderam seu sermão

moro na dança das canetas dos poetas que se embriagam com lágrimas

moro no sabor do peixe do pescador cansado, moro no pão que envelheceu para encontrar a fome

eu moro nas lembranças dos riscos das paredes do cárceres

moro no miserável que encontrou um lugar pra por seu coração mas não tem onde encostar sua cabeça

moro em muitas moradas, agradeço ao pai com orações, moro, eu moro na criança abandonada que se encolhe em ventre se abraçando dentro de si, tentando entender porque não pode amar

moro no homem que perdeu o medo de si mesmo e anda descalço na chuva beijando os raios estremecendo com os trovões atravessando a névoa para chegar nos dias de sol

moro no homem que explodiu em 7 bilhões de pedaços e se juntando entendeu que tudo era ele, era Deus

moro no bom dia do estranho, no abraço sincero, no olhar fraterno. moro no pedaço de papel escrito que o verbo se fez carne para que toda carne se faça verbo

moro na verdade sobrepondo outra verdade, criando outra verdade que pode ser um caminho novo

moro no tempo envelhecendo com o céu

moro ali, por ai, dentro de mim, sem fim...

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o homem que me entregou esses versos não tinha casa, morava provisoriamente em um abrigo masculino de São Paulo . Primeiro declamou de memória, num único fôlego, depois me entregou uma folha de papel com esse texto declarando ser de sua autoria. Projeto  #leituracura

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

 Em cada chegada novas distâncias

Navegares incertos.

Certezas provisórias: manutenção de todos os mistérios.

Cada vida como ponto de partida de uma estória.

A promessa, como semente.

Somos todos contemporâneos nas raízes de nossos abismos.

Eis a grande sedução da vida.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Servidão voluntária e café quente


Acostumar. Acostumar-se com as coisas pode ser uma das piores escolhas da sua vida. Acostumamos com o trânsito de São Paulo, gostamos de café quente mas nos acostumamos com relacionamentos mornos. Acostumamos com o excesso de oferta e a escassez escolhas. Acostumamos com a abundância e com as pessoas que passam fome. Acostumamos com as pessoas dormindo nas ruas e os shoppings centers, academias, hotéis e brinquedotecas criadas para cães. Acostumamos com uma vida sem sentido pois nos foi feito acreditar que a liberdade é para todos e a felicidade um produto comprável. Acostumamos a fazer coisas aprendidas sem serem apreendidas. Acostumamos a fazer caminhos psíquicos sem nos darmos conta de que nosso genuíno desejo geme todos os dias por debaixo de nossa pele. Acostumamos a nos acostumarmos, porque assim nos foi solicitado por vezes ostensivamente, por vezes de forma velada.

Como  nos acostumamos com a tirania? Essa é a pergunta central do texto "Discurso da Servidão Voluntária" de    Étienne de La Boétie.  Como nascem, se reproduzem e se perpetuam os tiranos? Me parece que essa pergunta torna-se necessária no momento em que nos encaminhamos para uma sociedade com desígnios crescentemente ostentatórios para governos de força. Esse texto de 1563 faz sentido nos dias de hoje tornando-o um clássico. Clássico para mim é tudo o que você pode ler e reler e descobrir com o passar dos anos, dos séculos, que ainda faz sentido.  Ou numa fala poético provocativa, um clássico é como estar acompanhando em um casamento de longa data com a mesma mulher que lhe parece interessante todos os dias. A leitura de um clássico é uma leitura sem acostumação, inquietante, perscrutatória. 

No texto La Boétie escreve que "a servidão voluntária é fruto antes de tudo de um hábito adquirido. Como os cavalos que mordem o freio e depois se acostumam com ele...a natureza se molda àquilo de que é nutrida".  Hoje seguramente diríamos com frases bem torneadas que a sociedade é moldada em seu fisiologismo por novas adjacência sociais disciplinadas por obediências secundárias atreladas ao paralelismo disciplinar não comunicativo. Nada de freios, cavalos, covardes ou imperadores romanos que o autor faz menção na sua retórica. Nisso a linguagem do texto também merece uma apreciação curiosa, fala sem rodeios linguísticos o que hoje já não pega tão bem depois que nos civilizamos tão adequadamente a pedido da era pós moderna. 

La Boétie descreve que o homem tem uma condição natural livre. A natureza livre do homem me parece uma quimera a ser perseguida. Somos livres no primeiro suspiro, a partir dali, suposto que nascemos com vida, deixamos de ser declarados natimortos pelo Direito. Dão-nos um nome, uma certidão de nascimento, uma carteira de identidade, um titulo de eleitor, um diploma, um atestado de sanidade mental e por último um de óbito. Somos naturalmente livres porém não somos existencialmente livres. O processo civilizatório é dolorido, incisivo, cortante. Porém, resta acima de tudo um direito não atrelado aos documentos lavrados ao longo da nosso existência. Esse direito é o direito de pensar. É esse o convite da literatura: nos fazer pensar sem conta nem juízo. Ser capaz de fazer releituras, inventar um ponto de vista discordante mesmo que esses juízos tenham como pano de fundo nossos aprendizados ancestrais. Não somos uma tábula rasa com inscrições autênticas, mas podemos imaginar que através do diálogo deixaremos de congratular tiramos, desconfiar de quem amamos ou confiar candidamente em quem nos engana. 

 "O hábito tem sobre nós poder maior que a natureza". Que complexidade me traz pensar que a tirania é fruto nascido manso da nossa voluntária servidão humana. Se despenso, logo não inexisto. 






                                                           

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 Essa quarentena fez de mim uma pessoa mais séria. Explico: sempre fui do gênero que coloca regras para não serem cumpridas, principalmente ao que se refere aos meus métodos de leitura. Propus-me a ler durante esse período, Santo Agostinho, mas não de qualquer jeito, de forma atabalhoada, com pressa. Dessa vez a leitura foi proposta com o freio de mão puxado. Tenho cumprido religiosamente a promessa. Escolhi para essa via sacra as priscas horas da manhã, quando sou povoada apenas pelo silêncio do nascimento do dia, impregnada de aurora, tendo um olho no texto, outro na montanhas, outro no fenômeno que mantém as vacas encarapitadas nas alturas.

Apenas um pequeno trecho por dia, com paradas obrigatórias, voltando sempre para não perder-me em minhas próprias idéias. Aqui o que interessa é ele (ou Ele...). 

Em alguns momentos lamentei meus livros que ficaram em São Paulo, para que me subsidiassem nesse afazer. Lembrei-me muito de Antônio Conselheiro, na sua saga ideológica religiosa. Também pensei em Freud, em práticas religiosas e atos obsessivos. Foi bom não tê-los comigo. Fico mais livre para pensar sozinha com as minhas bobagens. Fica de certa forma  mais coerente com a minha prática de leitura, não tenho pretensão de propor ensaios, não quero ser pesquisadora e tenho uma preguiça danada para a academia. Gosto imenso  de poder ser tosca intelectualmente para me dar mais liberdade criativa onde  minhas crenças sem eira e nem beira pululam à vontade. Fico mais alegre sem engessamentos de qualquer ordem: política, social, religiosa, intelectual etc e tal.

Paro no ponto do homem como imagem e semelhança de Deus. Nessa proposição alguém pecou por excesso de pretensão ou ingenuidade. Ou homem está pretensioso ou Deus é ingênuo. Não é possível que Deus tenha nos criado circunscrevendo num corpo humano a sua mesma bondade e compaixão.

Vejo as notícias sobre a explosão no Líbano. 250 mil pessoas sem casas para morar. A justiça elaborada pelos homens, com tantas regras, artigos, incisos e parágrafos únicos nunca produziu tanta injustiça. Toneladas de material explosivo armazenado de forma inadequada, aguardando desde 2013 um destino indeterminado pelos trâmites judiciais. Muitas vidas se foram.

O homem investido da bondade humana é a única espécie que produz excedente e gera a fome. Inventa mil peripécias para o sexo e não sabe mais como é fazer amor. Kama Sutra nenhuma vai te garantir um amor verdadeiro. Aqui me lembro de Bergson sobre o que nos traz felicidade e o que nos traz alegria.

Em nome de Deus e da proteção à família elege-se um genocida, que por ausência de piedade e de políticas públicas comemora o êxito de proteger famílias matando pessoas.

Percebo que estou em erro. Não posso encontrar Deus através do homem. É preciso, ao menos nessa manhã, compreender Deus através de si mesmo. Olho para essa manhã esplendorosa, não encontro explicação para meu êxtase, essa beleza que leva ao encontro do divino, que me proporciona todos os encontros universais, tantos os bons e memoráveis como aqueles que desejo esquecer. Não há a menor possibilidade de apagar a crença indelével que sou tão humana e perdida como o resto da humanidade. Uma parte de mim clama por sutilezas, outra parte de mim convive com essa insustentável leveza de não ser.

Vou seguir lendo e me confundindo. Deixem-me em paz com minha escolha retórica. Prefiro as dúvidas que as todas as certezas absolutas. Deus será sempre algo que está em mim, não no lugar onde desejaram que eu acreditasse que Ele pudesse estar. Me lembro agora de Ariano Suassuna que disse algo parecido com: gostaria de acreditar em Deus como uma criança. Mas creio Nele como um adulto, com hesitações e medos.  

terça-feira, 28 de julho de 2020

Eu me lembro das mulheres. Das mulheres num tempo onde eu era criança. Sábado era o dia de compras na cidade. Famílias inteiras, carroças, carroções, charretes. Vinham arrumadas com os recursos que tinham em casa. Se nada houvesse, ao menos a roupa era limpa, o cabelo escovado.
Eu sentada na escada de pedra do armazém de meu avô materno apreciava o movimento, o trago que os homens pediam, o cheiro que vertiam. As mulheres com seus peitos fartos amamentavam seus bebês redondos. Meu avô arrastava os chinelos, ajeitava os óculos de armação preta, pesadíssimos, que lhe causavam uma cova impressionante no nariz e escondiam a doçura de seus olhos profundamente azuis.
O que era possível comprar era armazenado em sacos de panos brancos, seguiam todos, fartos das coisas da estrada.
Eu esperava o próximo sábado.
Hoje vou para cidade fazer compras, passo baton, perfume, me lembro delas e torço para que ainda entre na calça jeans.


sábado, 11 de julho de 2020

Existe um livro que gostei muito da leitura e tenho pensado nele por esses dias que passamos juntos de forma separada. "A Parte Obscura de Nós Mesmos: uma história dos perversos", de Elisabeth Roudinesco, uma intelectual francesa, historiadora e amiga da psicanálise. Por não ser propriamente psicanalista, sua escrita torna-se ainda mais interessante, conferindo a obra um caráter antropológico de nossa maldade humana. Não vou me alongar sobre o texto mas sobre a memória do que ele me trouxe.

Existia na minha cidade uma moça, na época em que éramos todas moças, uma jovem que acabara de perder o pai. Deixou para a família alguns palmos de terra, e sendo ela a mais velha entre todos os irmãos assumiu o negócio como se fazendeira fosse. Vestia-se de jeans, camisa xadrez, bota, cinto de fivela do tamanho de um pires e chapéu que obviamente lhe complementava os trajes. Tinha as unhas compridas pintadas de vermelho, o cabelo tinto de um louro incerto, com os olhos sempre pintados de lápis preto onde dava para perceber que a maquiagem do dia anterior não era completamente removida para novas pinturas, de forma que seus olhos eram sempre carregadamente borrados.

Na lida diária entre a cidade e o campo, Maria, que morava nas suas terras herdadas lhe confidenciou que havida apanhado do marido. A moça dos olhos borrados, pediu para o marido ofensor arrear os cavalos e acompanhá-la na invernada pra correr o gado. Quando chegou bem longe da casa, no meio do pasto, longe de qualquer testemunha, pediu para o Zé descer do cavalo e que fosse ver uma cerca caída. Ela de cima do cavalo, avançou sobre ele e até que ele se desse conta do que estava acontecendo tomou uma sova bem dada de reio, ao mesmo tempo em que moça cavaleira perguntava se ele ainda sentia vontade de bater em mulher. Depois da surra, voltaram para casa mudos, cada um montando seu cavalo e acredito que até Zé ainda esteja se comportando bem...

No nosso mundo supostamente civilizado o ingresso no mundo social é admitido aos que aprenderam a refrear seus instintos. Eu tanto quanto você vivo um processo dual entre o socialmente aceito, o disciplinarmente apreendido por força de recalques e nossos instintos mais primários. Não é admissível que faça justiça com as próprias mãos, agressões físicas não devem ser revidadas. Existem aparatos de inibição social dessas manifestações e para isso contamos com a religião ou com a delegacia de polícia.

Muito rudimentarmente falando,  o neurótico é o sujeito que passou pelo processo de castração, aquele que foi capaz de introjetar limites, etc etc. O perverso, também muito rudimentarmente falando, é aquele onde o processo de introjeção da lei, da castração, não foi bem sucedido. Resumo da ópera: o perverso é aquele que faz o que o neurótico "imagina". Daí então, somos dotados de algo não completamente "adormecido" pelos processos civilizatórios, educacionais (a não ser que você que está me lendo só tenha pensamentos e sonhos castos...).
Talvez esse trecho do livro de Roudinesco dimensione o que estou tentando explicar “os perversos são uma parte de nós mesmos, uma parte de nossa humanidade, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nossa própria negatividade, a parte obscura de nós mesmos". Ou seja o que distingue uma estrutura neurótica de uma perversa é a passagem ao ato. O neurótico nega, o perverso executa.

Com essa leitura de Roudinesco mais a estória da moça do cavalo tenho pensado recorridamente em algo que minha estrutura neurótica não permite executar. Ando com muita vontade de encontra-me com um certo chefe de governo de um lugar onde reconheço como uma pátria distante, aplicar-lhe no lombo uma surra, uma guasca daquelas bem dadas, até fazer o reio zunir no vento.
Como não farei a passagem ao ato, continuarei nesse meu processo de recalque.
Falar sobre essa condição humana, sem negação de nossos instintos cruéis pode representar um alívio da tensão provocada pelas tentativas de imaginarmos que somos seres dotados apenas de bondade e candura. Ninguém está a salvo da própria obscuridade, nosso lado sombra precisa mostrar-se de alguma forma, mesmo que seja simplesmente através da expressão verbal, da escrita, das manifestações artísticas, dos mecanismos sublimatórios para que não se tornem doenças de alma e de corpo.








terça-feira, 23 de junho de 2020

Carolina

Ouço as duas que conversam na cozinha, uma atualização do fim de semana que a outra passou fora. Falam numa língua que divulgo mas não posso dizer que compreendo profundamente. O menino-o cavalo-a cerca-o hospital. Percebo que é menos grave pois nenhuma chora.
Até o final da quarentena descubro todos os seus segredos.
Há muitos anos pedi que me fizesse um caderno com suas melhores receitas (e todos os truques!). Meses depois me chega o caderno, de espiral, simples, com a sua letrinha que aprendi a reconhecer nos bilhetes à professora. Cadê os truques? "- não tem". Estou descobrindo que a água deve ser morna, pingar só no cantinho da panela e mexer muito lentamente. A fritura fez fervura? Polvilha maisena na gordura para acalmar a espuma. Uma abobrinha inteira ralada misturada diretamente na massa da torta. Baunilha, nos doces, quase sempre. Bicarbonato na medida e no tempo certo para cristalizar o mamão verde. Cozinhar me parece com algo de criar filhos, um tempo e uma medida justa.
Passo pela sala, vejo flores que secaram, presente de aniversário passado da filha. Deixou secar de cabeça para baixo no escuro.
Penso em "Carolina", de Machado de Assis, uma beleza comovente que compartilho com meu pai.
Flores idas e vividas como os amores. Os que ficam para sempre.



quinta-feira, 4 de junho de 2020

Sepé Tiaraju

Eu sei rezar mas não quero. Talvez não queira por ter sido algo que aprendi sem ensinamento.
Amanheço no meio da natureza, sentindo cheiro de lenha, cantos de pássaros que passam dos primeiros cantos soturnos e graves da madrugada para a algazarra esfuziante da alvorada.
A terra nascente me enche de força ancestral esperando que ressurja um novo Sepé Tiaraju (líder Guarani) gritando ao amanhecer : "essa terra tem dono".
Começa por aqui uma chuvinha doce, alguém deve ter ouvido minhas preces, mesmo que eu não queira mais rezar.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Não posso respirar

Não posso respirar porque os cães ladram, tenho insônias e o dia está nublado.
Não posso respirar porque há desmandos na pátria e os que têm voz se calaram.
Não posso respirar por que o ar é denso, as estrelas esfriaram e morro com saudades.
Não posso respirar porque os lençóis estão emaranhados dos rebuliços por minhas noites em claro.
Não posso respirar porque a hipocrisia bate todos os dias na minha porta, entra pela sala e senta-se na minha cadeira favorita.
Não posso respirar porque as balas não perdidas têm colocado na minha boca um gosto amargo de abandono.
Não posso respirar porque tomar um sorvete na praça tornou-se de repente um ato suicida.
Não posso respirar porque meu coração não aceita um mundo sem explicações.
Não posso respirar porque a ignorância, o descaso e a indiferença proibiram por lei qualquer licença poética.
Não posso respirar porque o meio último suspiro seria para ouvir teus passos te trazendo de volta para casa.

sábado, 23 de maio de 2020

Mil e uma noites sem dormir



Se existisse narradora mais envolvente que Sherazade e tentasse me contar o que aconteceu naquele video, mesmo com toda a potência narrativa eu não teria capacidade de imaginar a escabrosidade dessa obra bufa e seus personagens envolvidos.

Comecemos pelo chefe do hospício. As pessoas falavam A ele respondia B. As pessoas falavam C ele respondia B. As pessoas falavam Z, ele continuava respondendo B. Completamente centrado em si mesmo sem a menor possibilidade de alteridade. Incapaz de enxergar o outro. Ele tem um Brasil que é dele, um Deus que é dele, um livre mercado que é dele, os armamentos e a família, tudo dele. Já vou chegar na caneta. Entre bosta, estrume e hemorróidas temos um presidente completamente retido na fase anal. Não vou explicar as fases infantis libidinais, não gosto de ficar no lugar da psicanalista chata que mete Freud em tudo. Somente para ilustrar, é na fase anal onde afloram as tendências ao sadismo, onde passa a existir a percepção da posse, do egoísmo, da agressividade. Essa fase libidinal é constitutiva e ficar retido nessa fase representa que não houve acesso a fase posterior, a fase fálica, onde há a resolução do Édipo (castração). Alguém duvida mesmo sem ser especialista em teoria psicanalítica que o comportamento do presidente faz total sintonia com os ditames da psicanálise? A caneta é minha, vou interferir sim nos ministérios, quem não tiver meus valores está no governo errado e me defendam talkey, tirem a cabeça da toca pra me defender; e tem mais, se o Antagonista falar bem de qualquer ministro meu, esse cara tá fora. O que significa o desejo de armar a população como forma de insubordinação às normas sanitárias que visam proteger o sujeito da morte na pandemia? O que significa um sujeito que foi expulso de uma corporação por não se submeter às normas? Significa que esse sujeito das hemorróidas, ficou retido na fase anal e foi incapaz de passar pelo Édipo, que é estruturante para instaurar o superego, aquele que nos diz o que é certo, errado, cumprir as leis, ter sentimentos altruístas, etc etc.

Passemos ao garoto de Chicago, aquele que fala com intimidade esculachada sobre a  Escola de Chicago ( os "caras" de Chicago), que alguns afirmam não ser uma escola mas um seita econômica. "Não vamos salvar as pequenas empresas, vamos salvar as grandes (companhias aéreas e bancos) e vamos provar pra todo mundo que ganhamos dinheiro com isso". A lógica da perversão. Na pandemia o economista querendo mostrar como faturar. Cadê a suas teorias de livre mercado? Quando precisa colocar recursos públicos para salvar grandes empresas seus dogmas chicagoenses deixam de existir? Quanto custará a operação de salvamento dessas empresas? Certamente muitas vezes mais do que foi dado na forma de abono para trabalhadores autônomos. O que ouço aqui na roca, é que tem muito vagabundo pegando os 600 reais para tomar cachaça no boteco. Isso é o que dá para ver com os olhos. O que não dá para ver com os olhos é o que toma, veste, viaja, mora e como vivem os homens de terno e gravata.

O que quer aproveitar o momento em que a imprensa está toda voltada para o Corona, para abrir a porteira é um assassino, que tem voz para dizer isso perante todos os demais ministros, sem o menor constrangimento, como se esse tipo de fala fosse algo absolutamente rotineiro de ser expresso numa voz pública.

A doida da aldeia, a que quer evitar todos os abortos do mundo, que defende fetos como única forma vital de existência desconhece que a pandemia representa igualmente um ceifar vida.

O ministro da educação, um arauto da dignidade, uma vítima desenxabida perdida num lamaçal do planalto, anunciado do seu impoluto lugar a vagabundice dos demais. Da lenda do "ninguém presta, só eu".

Por último, o próximo candidato a mito. Mudinho, caladinho, materializou naquele instante um vasto cabedal de provas. Nunca entendi como um magistrado que, mantém um sujeito preso (calma lá que não sou petista...), ajuda a eleger outro que pegou carona nos desígnios contra a corrupção, tenha eticamente aceito fazer parte desse governo torpe, brutal, armamentista, que já anunciava seus propósitos e fracassos antes mesmo da apuração das urnas. No ato de sua demissão, ele disse que iria "procurar emprego". Todos sabemos qual é a oferta de emprego para 2022. Tem algum santo nessa estória?

Mil e uma noites sem dormir.



 











domingo, 17 de maio de 2020

morrer

A gente morre
de fome
de doença
de dor
de felicidade
de rir.

A gente morre
de alegria
de raiva
de cansaço.

Mas a gente morre de verdade
é de saudade.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

amor para viver

Meu caro amigo em perdoe por favor se não escrevo "carx amigx". Sou antiga e não faço adesões as modernidades linguísticas nem para se simpática.
Sei que àqueles para quem escrevo escrevo não me lerão. Mesmo assim, se houvesse uma única chance de salvar a humanidade da ignorância, me lançaria ao mar nesse mesmo instante, mesmo não sabendo nadar.
Por algum tempo acreditei que a escolaridade pudesse nos salvar. Mas, foi chegar na universidade para perceber que ali conviviam em período de término da ditadura, cidadãos completamente alienados e reacionários. Portanto, dado ao meu engano primário em acreditar que a escolaridade pudesse fazer pessoas melhores, sucumbo hoje, nesse momento político/histórico, ao ver esses mesmos colegas defendendo as atrocidades de um governo macabro. Vejo também outros injuriando-se por estarmos nesse momento pandêmico discutindo política. Esses últimos são os alienados dos anos 80 e quero crer que essa ignorância mereça entendimento mas não perdão. É fundamental que entendamos a vida como um ato político. Tudo o que nos cerca refere-se a um ato de política. A pandemia que nos assola vem sendo tratada de forma política, com implicações de ações ou omissões  sanitárias e de implemento ou falta de políticas públicas. É preciso entender que uma canetada afeta milhares que pessoas ao mesmo tempo e que não falar de política nesse momento é permitir que milhares venham a engrossar as fileiras da morte dada nossa omissão alinhavada ao poder de quem detém a caneta na mão.
Ausentar-se de reflexões políticas nesse momento é alimentar o descaso com as vidas humanas que se perdem vertiginosamente todos os dias.
Os reacionários de meu tempo de universidade, vejo-os hoje aqui com a mesma postura. Continuam fiéis à sua militância de direita extrema, fazem  ironias contra o isolamento social de forma ostensiva ou velada, estando prontos a proclamarem um Brasil que é só deles, esquecendo-se que nós, outros, também somos brasileiros e temos tanto direito de amar nossa pátria quanto eles. Vejo também jovens recém saídos dos cueiros sem conhecimento da vida e da história  levantando bandeiras dessa mesma ignorância.
Se a escolaridade não nos salva da ignorância o que poderia então nos salvar? Tentando refletir sobre essa pergunta encontro uma resposta muito simples. Não adianta amar o seu pet, não adianta amar suas viagens, nem suas plantas ou livros. Não adianta amar a posição que você conquistou no mundo, seus status quo ou a sua namorada mais recente. É preciso amar em primeiríssimo lugar o ser humano. Interessar-se pelo humano. A ignorância somada à falta de amor humano liquidará a nossa existência na terra e aí não vai ter a menor importância de que lado você esteve. É preciso fazer essa escolha hoje, amanhã pode não resistir resistindo.
O que pode o desamor diante de tão frágil condição humana?
Sem amor ao humano sucumbiremos ao vírus.


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Pandemia

Há um susto nas coisas.
Tudo guardado, selado,  para não sei quando

Eterizado

Há tempos as quinquilharias restam abandonadas
Não visto colar, nem passo baton
Roupa surrada macia de tanta serventia

Passo saudade.

Não tem mais salto.
Guardo distâncias, inverto meus passos
Olho-me no espelho. Meu Deus, como envelheço.
E o tempo não passa.

Claudia Casimiro

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Alegria

Essa tarde morna e pardacenta me deu vontade de algo caribenho. Busquei por Gabriel Garcia Márquez na estante e me pego de novo sem conseguir ler "O outono do patriarca". Depois de tantas tentativas com essa obra, descubro finalmente porque não o consigo ler. G G Márquez adotou algo que também não gosto em Saramago. Parágrafos longuíssimos jorrados sem virgulas, pontos, dois pontos. É definitivo que preciso de pausas, necessito de intervalos onde palavras não se devorem mutuamente atendendo a uma livre associação do escritor; preciso que a leitura me tire da angústia e não me bote ainda mais em estado apocalíptico de ansiedade como o turbilhão que jorra da pena fizesse a escrita sem fôlego lançar-me a um estado de inquietude ainda mais flagrante que o possibilitado pela minha já atribulada alma. Fecho o livro mais uma vez, mas agora, ao menos tenho uma resposta para não ter desejos em continuar com essa leitura desacomodada.

Como a tarde continua frouxa e cinzenta, tendo desistido do "Patriarca", pego o que estava sendo usado como marcador do livro abandonado e me deparo  com a beleza tocante e terna de a "Conferência", de Henri Bergson. Finalmente encontrei o que me faltava antes que a chuva finalmente viesse acalmar os ânimos dessa tarde de verão. O que ele diz? Em primeiro lugar devo dizer que esse texto abomina a síntese. É preciso ter tempo para que cada parágrafo possa reverberar todo o esplendor do seu sentido. Fala de "alegria" coisa que parece antiga, palavra fora de moda pouco usada, principalmente porque o mundo passou a nos vender tanta "felicidade"  anunciada em capas dos mais vendidos nas bancadas na livrarias contemporâneas, que "alegria" não só caiu em desuso como ficou parecendo uma prima pobre, daquelas que servem o café mas que não são convidadas para sentarem-se à mesa.

Bergson começa diferenciando alegria de prazer. "prazer é apenas um artifício imaginado pela natureza para obter do vivo a conservação da vida; não indica a direção em que a vida se lançou. mas a alegria anuncia sempre que a vida triunfou, que ela ganhou terreno, que ela alcançou uma vitória: toda alegria verdadeira possui um acento triunfal". Seguindo essa esteira, onde há alegria, há criação e quanto mais profunda for a a criação, mais profunda será a alegria, aquele que está absolutamente certo de ter produzido uma obra viável e durável, não precisa de elogios ou ser coroado de glórias, porque sendo criador de algo duradouro experimenta uma glória divina. É da profundeza do humano, de sua natureza criativa que surge o novo, com os traços do que foi o passado e que sempre inspirará o futuro. A natureza criativa não se assemelha a perfeição, ao acabado, mas a algo que precisa se aproximar de suas origens para retornar ao mecanismo evolutivo entre nascer e renascer, como o fogo que está no centro da terra mas aparece no cume dos vulcões.

Nada do que concerne ao homem deveria estar indisponível para ele. Porque então, nos lançamos entre miríades e quimeras procurando a tão inalcançável formula da felicidade? Por vezes ensinamentos que nos parecem fora de alcance estão a um passo de serem descobertos, é preciso deixar que a criação faça sua parte, transformando aquele que cria em sua própria criação. Nós como formuladores responsáveis pelo destino de nosso destino.

Essa leitura aqueceu ainda mais a minha tarde quente, me deu vontade de cheiro de café, de casa com gosto de alegria





terça-feira, 21 de janeiro de 2020


Uma leitura em grupo “O Mujique Marei” de Dostoievski (1821-1881)

Em 1849, Dostoievski é preso por ter se engajado na luta da Juventude Democrática Russa contra o czar Nicolau I. Dizem que ao tempo da prisão ele sequer participava dessas reuniões... Foi condenado à morte. Quando caminhava para a execução, na antevéspera do Natal, recebe a notícia de que sua pena foi comutada para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Dá para imaginar que somente mentes sádicas deixariam um homem encaminhar-se para a morte enquanto guardam em suspense a notícia de comutação de sua pena.
Dos horrores do cárcere escreveu "Recordações da Casa dos Mortos".

Soren Kierkegaard considerava-o pai do existencialismo. O indivíduo como único responsável em dar significado à vida e vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar de todas as distrações, como o desespero, a ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio.

"Irmãos Karamazov" de sua autoria, foi considerado por Freud “o mais grandioso romance jamais escrito”.  Sua obra explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, a loucura, a culpa, ao homicídio. Inegável conhecedor dos subterrâneos da alma humana. Talvez por isso tenha impressionado tanto Freud, que em “Dostoievski e o Parricídio”, escreve: “Quatro facetas podem ser distinguidas na rica personalidade de Dostoievski: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador”.

Em "O Mujique Marei", o autor está preso na Sibéria e diante dos horrores do cárcere lança mão de uma memória de infância, para sobreviver diante da ignomínia humana. Essa lembrança infantil leva-o a rememorar um camponês russo (um mujique), rude, ignorante e selvagem, que num momento de terror foi capaz de lhe lançar ao mais profundo e radioso sentimento humano: a ternura, um afeto que somente os humildes de coração são capazes de produzir.

Durante a leitura coletiva, um dos aspectos que reteve minha atenção foi sensibilizar como essas memórias podem nos salvar, como podem representar um porto seguro, o apaziguamento no caos? Quando somos visitados por uma memória doce e ingênua da infância podemos nos socorrer diante de nossos campos de batalha, colocando em questionamento as razões pelas quais tanto guerreamos, restando outra pergunta: quem é verdadeiramente o nosso inimigo?

Se me socorro do que sou, é possível que consiga encontrar alguma resposta. O meu "eu apreendido", em algum momento de afeto, virá me ensinar que o meu maior inimigo talvez seja eu mesma.
O mundo de fora nada mais é do que "eu" com as minhas estórias e todos os meus fantasmas. A maneira que me é permitida ver o mundo talvez possa ser a única possibilidade de sobreviver todas as vezes que a vida me chamar para uma "sobrevida". É a lei da sobrevivência para os tempos de nossas grandes guerras, para que se tenha, ao menos, a possibilidade de fechar os olhos e sonhar novamente com um ato de ternura, de amor, de acolhimento.

A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.

*A leitura desse texto foi repetida em vários ambientes, com pessoas de diferentes classes sociais, diferentes ou nenhuma formação educacional formal. Numa das ocasiões em que o li num abrigo para moradores de rua em SP, havia um rapaz que me perguntava com insistência “como fazia para conseguir ter esse tipo de memória”. Essa pergunta sempre me inquietou.