Procuramos estórias para entender as nossas. Eu me lembrava daquela casa, da sua posição em relação ao sol, do alpendre lá do alto de onde as visitas eram recebidas e despedidas. Da alegria com que éramos recebidos pelas pessoas que eram antigas e passavam tempo demais no campo. Tinha tentando encontrá-la por conta própria mas as plantações de cana roubam o relevo, mudam caminhos e fazem a gente desistir diante da monotuidade verde.
Quem construiu a casa cujas iniciais estão gravadas em seu frontão desde 1928, chegou muito antes disso faminto e sem um tostão no bolso desembarcado pelo Porto de Santos. Casou-se oficialmente com uma das cinco irmãs de minha avó materna e extraoficialmente... bem, não é possível ter estatísticas de coisas desoficiosas.
Uma das cunhadas enviuvou com penca de filhos e terras. Ele, naquele tempo já se fazia homem de dinheiro e experiência, entendeu por bem de direito amparar a cunhada enviuvada. Cuido-lhe bem. Dois anos depois sem marido ou vizinho, Tia Olivia se apresenta grávida. Aperta daqui e dali, a barriga crescida não teve jeito de esconder. Era exigência da família saber de quem era a criança. Nasceu lindo e sem saúde, que deveria de ser tristeza, morreu aos treze, o filho do cunhado, Tio Júlio, o espanhol faminto do Porto de Santos. Tia Olivia, a viúva grávida, permaneceu longos anos sem palavra de família, isolada por todos e principalmente pelas irmãs, sem notícia de parentes, exceto pelo meu pai, seu sobrinho, que moleque galopava sem freios ou medos por aquelas terras sem fim. Até que com dezoito anos já se sentindo um pouco homem teve coragem de perguntar à mãe se não achava que já estava na hora de visitar a tia com sina de mulher perdida. Lá se foram os dois, meu pai mocinho e minha avó Mariana.
Alguns anos depois, meu pai já bem mais crescido queria fazer negócio grande mas sabia que a gente tem que pedir pra àquele que na gente confia. Foi então ter com o Tio Júlio, no casarão da fazenda onde nunca deixou o casamento oficial com a tia Dita, onde continuou sendo o pai impoluto de outros dez filhos, com nenhuma mácula que lhe manchasse o terno bem passado à ferro de brasas. Quando meu pai lhe pediu a soma, o espanhol tigarreou de susto, perguntou o que ia fazer com tanto "dinero" . Precisava ter certeza que o destino não seria a mesa de jogo ou a cama de mulheres. Emprestou-lhe pois. Meu pai saiu de lá com a soma no bolso, um sonho na cabeça e o agradecimento que precisamos ter na vida quando sabemos que alguém em nós confia.
Queria ver a casa, não por essas estórias, mas porque a lembrava linda, crescida em cima de um muro de pedras, com tulha fresca no porão e o alpendre suspenso de onde podia-se ver longe, olhar na direção do caminho que me levaria para São Paulo, lugar onde sem mesmo saber eu já havia escolhido para viver minhas estórias e amiúde revisitar outras.
A casa está abandonada, quem comprou as terras nem olhou para ela, preferiu construir casa nova, cheia de blindex ao lado. A casa de dez quartos permanece com todos as janelas azuis fechadas ao lado de quatro modestas jabuticabeiras repletas de doçuras de onde roubei os frutos dessas memórias.






