Essa tarde morna e pardacenta me deu vontade de algo caribenho. Busquei por Gabriel Garcia Márquez na estante e me pego de novo sem conseguir ler "O outono do patriarca". Depois de tantas tentativas com essa obra, descubro finalmente porque não o consigo ler. G G Márquez adotou algo que também não gosto em Saramago. Parágrafos longuíssimos jorrados sem virgulas, pontos, dois pontos. É definitivo que preciso de pausas, necessito de intervalos onde palavras não se devorem mutuamente atendendo a uma livre associação do escritor; preciso que a leitura me tire da angústia e não me bote ainda mais em estado apocalíptico de ansiedade como o turbilhão que jorra da pena fizesse a escrita sem fôlego lançar-me a um estado de inquietude ainda mais flagrante que o possibilitado pela minha já atribulada alma. Fecho o livro mais uma vez, mas agora, ao menos tenho uma resposta para não ter desejos em continuar com essa leitura desacomodada.
Como a tarde continua frouxa e cinzenta, tendo desistido do "Patriarca", pego o que estava sendo usado como marcador do livro abandonado e me deparo com a beleza tocante e terna de a "Conferência", de Henri Bergson. Finalmente encontrei o que me faltava antes que a chuva finalmente viesse acalmar os ânimos dessa tarde de verão. O que ele diz? Em primeiro lugar devo dizer que esse texto abomina a síntese. É preciso ter tempo para que cada parágrafo possa reverberar todo o esplendor do seu sentido. Fala de "alegria" coisa que parece antiga, palavra fora de moda pouco usada, principalmente porque o mundo passou a nos vender tanta "felicidade" anunciada em capas dos mais vendidos nas bancadas na livrarias contemporâneas, que "alegria" não só caiu em desuso como ficou parecendo uma prima pobre, daquelas que servem o café mas que não são convidadas para sentarem-se à mesa.
Bergson começa diferenciando alegria de prazer. "prazer é apenas um artifício imaginado pela natureza para obter do vivo a conservação da vida; não indica a direção em que a vida se lançou. mas a alegria anuncia sempre que a vida triunfou, que ela ganhou terreno, que ela alcançou uma vitória: toda alegria verdadeira possui um acento triunfal". Seguindo essa esteira, onde há alegria, há criação e quanto mais profunda for a a criação, mais profunda será a alegria, aquele que está absolutamente certo de ter produzido uma obra viável e durável, não precisa de elogios ou ser coroado de glórias, porque sendo criador de algo duradouro experimenta uma glória divina. É da profundeza do humano, de sua natureza criativa que surge o novo, com os traços do que foi o passado e que sempre inspirará o futuro. A natureza criativa não se assemelha a perfeição, ao acabado, mas a algo que precisa se aproximar de suas origens para retornar ao mecanismo evolutivo entre nascer e renascer, como o fogo que está no centro da terra mas aparece no cume dos vulcões.
Nada do que concerne ao homem deveria estar indisponível para ele. Porque então, nos lançamos entre miríades e quimeras procurando a tão inalcançável formula da felicidade? Por vezes ensinamentos que nos parecem fora de alcance estão a um passo de serem descobertos, é preciso deixar que a criação faça sua parte, transformando aquele que cria em sua própria criação. Nós como formuladores responsáveis pelo destino de nosso destino.
Essa leitura aqueceu ainda mais a minha tarde quente, me deu vontade de cheiro de café, de casa com gosto de alegria

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