terça-feira, 23 de junho de 2020

Carolina

Ouço as duas que conversam na cozinha, uma atualização do fim de semana que a outra passou fora. Falam numa língua que divulgo mas não posso dizer que compreendo profundamente. O menino-o cavalo-a cerca-o hospital. Percebo que é menos grave pois nenhuma chora.
Até o final da quarentena descubro todos os seus segredos.
Há muitos anos pedi que me fizesse um caderno com suas melhores receitas (e todos os truques!). Meses depois me chega o caderno, de espiral, simples, com a sua letrinha que aprendi a reconhecer nos bilhetes à professora. Cadê os truques? "- não tem". Estou descobrindo que a água deve ser morna, pingar só no cantinho da panela e mexer muito lentamente. A fritura fez fervura? Polvilha maisena na gordura para acalmar a espuma. Uma abobrinha inteira ralada misturada diretamente na massa da torta. Baunilha, nos doces, quase sempre. Bicarbonato na medida e no tempo certo para cristalizar o mamão verde. Cozinhar me parece com algo de criar filhos, um tempo e uma medida justa.
Passo pela sala, vejo flores que secaram, presente de aniversário passado da filha. Deixou secar de cabeça para baixo no escuro.
Penso em "Carolina", de Machado de Assis, uma beleza comovente que compartilho com meu pai.
Flores idas e vividas como os amores. Os que ficam para sempre.



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