quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Minha cara amiga

Ela escreve para desejar um bom ano e no final me pergunta se é tudo ilusão? Fico inquietada.  Alias já estava desde a última vez que reli  o Futuro de uma ilusão (1927) e O mal estar na cultura (1930), de Freud. 

Nesses ensaios Freud vai do social ao indivíduo (reciprocamente e vice versa) analisando e propondo questões várias sobre as influências da cultura em nossa formação psíquica, pontuando que a  religião  também é um  fenômeno cultural. Deixemos Freud de lado pois não gostaria de aborrecer minha amiga com questões tão intrincadas ou ser suprimida em minha liberdade de "iludir-me".

Querida, é tudo sim pura ilusão. Não tão pura assim pois não podemos deixar de supor que até mesmo nossas ilusões são firmadas, reafirmadas, cultivadas ou negadas por forças culturais  que nos permeiam sem que possamos dar conta dessa dimensão. Ou seja, nossas crenças ou ilusões já estão prontas pra nos receber sem que saibamos ainda como lidar com o vasto mundo que nos espera. Será por meio dessas "apresentações" que o mundo nos faz que moldaremos nossas virtuoses ou desvios vida a fora. 

Imagina você que tem uma autora escrevendo contos de fadas ao contrário. É preciso desde muito cedo contar histórias verdadeiras para as meninas. Nenhuma delas poderá mais acreditar em príncipes com cavalos brancos ou beijos que despertem de um sono eterno. Elas precisam saber desde os dois anos de idade que o mundo vai exigir delas competência, plano de carreira e saber lidar com divórcios para não serem enroladas juridicamente pelas espertezas das leis.

Outro dia estava deitada ao sol numa praça da cidade e comecei a ouvir o diálogo de uma mãe com um menino de uns cinco anos. Ele queria brincar de guerra, ter uma espada, matar o inimigo, a mãe dizendo que não. Que no mundo as pessoas são boazinhas e que não poderiam ser mortas por espadas, ela propõe outra brincadeira ao que o menino responde não querer mais brincar "de mundo chato". 

Outro dia estava assistindo um desenho animado na  TV Cultura. Tive muita vontade de chorar. Os diálogos engendrados pelas crianças era tão adulto e politicamente correto que me deu uma saudade louca daquele gato que vive querendo matar aquele rato anão que o tripudia, arrancando-o de sua atávica superioridade felina, obrigando-o a valer-se de suas sete vidas para sobreviver a um  rato pedante, esperto, ardiloso e vingativo.

A autora, a mãe e a televisão pretendem por vias diversas porém convergentes "desensinar" ou melhor negar qualquer condição de sermos humanos. A isenção de dor, da frustração, a negação da pulsão de morte coloca o humano no lugar inexistente do Olimpo. Não sendo deuses ou deusas teremos de dar conta do tamanho de nossa pequenez onde a não eternidade está posta nesse pacote. Tendo que lidar com o que somos dói de verdade. Como suportar esse aprendizado sem uma boa dose de ilusão?  Ou como não fazer das ilusões algo que nos infantilize no papel de adultos que temos o compromisso de nos tornarmos?

Minha amiga, eu não tenho essas respostas e receio não as ter caso você decida me fazer essa pergunta novamente em 2020.

O que acho sinceramente que cada um de nós procurar dar o seu jeito. Alguns trabalham incessantemente, outros gastam, outros viajam sem chegar a lugar algum, outros tantos vão para o shopping center, para farmácia, outros tem seus anjos e gurus particulares e assim vamos tocando.

Eu vou continuar te desejando que aquele príncipe encantado te apareça, que você tenha muitos dragões para matar com sua espada e que de vez em quando ligue a televisão para assistir Tom e Jerry.  No mais, se você foi criada como criança num mundo onde era possível "fazer de conta" certamente brincou com barro, construiu lagos na terra com uma latinha de massa de tomate enferrujada, foi feliz como proprietária de um rebanho de cavalos e vacas feitas com sabugo de milho, certamente encontrará nesses recursos as sementes para serem lançadas no ano novo.
Te desejo um ano com boas e surpreendentes ilusões, pois como diria o poeta a gente vai se amando, que sem esse carinho ninguém segura esse rojão.












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