Deixei todas as portas abertas e dormi solta e longamente. Despejei-me em sonhos, adoro quando tenho noites assim, por serem raras. Freud nos diz que todo sonho é a realização de um desejo. Realizei vários.
A última coisa que tinha lido antes de adormecer foi a carta de Fernando Pessoa ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro (1935). Nessa carta Fernando Pessoa explica seu "manicômio" interno ao dizer como foram criados seus heterônimos: "A origem de meus heterônimos é o fundo traço de histeria existente em mim... a origem mental de meus heterônimos está em minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação..." Acho que adormeci pensando nessa relação entre a criação literária e a despersonalização; a histeria como o primeiro objeto de estudo de Freud rumo aos primeiros passos do que conhecemos hoje como psicanálise.
Se Pessoa era ou não histérico interessa menos do que o fato de como soube valer-se de um sintoma para elaborar uma obra literária, colocando essa criação no lugar de sua angústia. Quantos outros seguiram o mesmo intento: Mario de Sá Carneiro? Virginia Woolf? Hemingway? A ideia não é fazer uma relação obituária de escritores suicidas. Interessa perceber como os mecanismos para a criação de uma obra possam estar de tal forma tentando driblar uma condição psíquica.
Ao dormir com todas as portas abertas, deixar que o ar circulasse sem amarras o mesmo foi feito com os meus sonhos (e com os seus também acontece o mesmo). É no momento que sonhamos quando realizamos um desprendimento de censura, deslocamos fatos, situações e pessoas, usamos nossos restos diurnos para permear nossos sonhos dando a possibilidade de colocá-los no lugar de uma realidade "não realizada", ao contrário do que acontece quando estamos em vigília . Daí serem os sonhos a realização de um desejo, quando nosso inconsciente fica de certa forma "solto" deixando que sonhemos livremente, sem preocupação com a criação de um pleonasmo.
E quem usufrui do que lê, que fenômenos estariam aí envolvidos psiquicamente, possibilitando essa despersonalização de que falou Pessoa? Eu poderia citar vários sem preocupação em ser conclusiva em minhas observações. Podemos pensar em sublimação, em levantamento de recalque? O que tem me interessado acima de tudo é perceber que a leitura pode conduzir-nos a um "não lugar". Muitas vezes esse 'não lugar' são lugares onde "recusamos estar" mas que "desejamos estar". Para continuar essa conversa é preciso dizer que nosso desejo é sempre inconsciente e talvez por isso a arte nos ajude tanto a usufruir do complexo mundo desconhecido de nossos afetos.
Melhor do que tentar explicar é abrir espaço para uma disponibilidade interna que nos conceda a liberdade de sonhar, possibilitando encantar-se como forma de continuar existindo.

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