terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Baile

Falamos de baile, você disse canteiro, minha dislexia auditiva entendeu "carteiro". Me lembrei de cartas e bailes, bailes e cartas, acordei pensando em você.

Era tempo de primeiros amores. Silenciosos, ocultados, timidamente pueris. O salão com  piso em parquet lustrado, arandelas laterias com luzes coloridas, mesas com toalhas brancas, vestido longo, novo, perfume, penteado, salto e orquestra.

Sabia que você já tinha chegado na cidade porque tinha ouvido dizer (e eu fazia de conta que não tinha ouvido...) ou, porque, você já tinha "afundado" passando de carro pela  rua da casa da minha avó, onde nós, as meninas, ficávamos sentadas nas muretas da varanda, esperando por esse momento.

Te via de longe, te perdia de vista. Você sorrindo pelo salão, conversando com um e outro. Disfarçava. De repente nossos olhos se cruzavam e tornavam a baixar num desvio rápido de quem não quer ser visto olhando o que interessa. A espera era longa, longuíssima. Já sabia que teria que esperar pelo primeiro intervalo, segundo intervalo,  para só então ver você se aproximando, eu tinha vontade de sair correndo, cavar um buraco no chão, minhas pernas começavam  amolecer, as mãos gelando, a boca secando.  E você chegando cada vez mais perto, me tirando para dançar. Primeiros nossos olhos se encontravam, você era o primeiro a sorrir, segurava na minha mão e ia me levando mais para o centro do salão. Nunca me lembrei da música que tocavam. Me atrapalhava com os passos. Você me fazia rir para que minha timidez fosse sendo vencida aos poucos, sem nunca ter chegado ao fim completamente. Não me lembro nunca de ter pousado meu rosto no teu ombro como via as outras meninas fazerem. Sempre mantivemos um distância regular obrigatória entre nossos corpos, determinada pelo meu pai, de dois palmos de distância. Dali para frente já sabia que dançaríamos juntos até que o baile acabasse, que no dia seguinte já era o dia de você ir embora de novo. Então começariam a chegar as cartas.

Procurava notícias suas na caixinha do correio. Era a primeira coisa que fazia quando chegava do colégio. Sábado era uma tristeza, não tinha carteiro. Reconhecia de longe a sua letra, muito mais bonita que os meus garranchos, guardo de memória até hoje o seu endereço. Lia e relia a carta procurando entonações, um lapso, um vírgula, um porém desapercebido, alguma reticência que pudesse dar algum novo sentido a tua escrita. Imaginava a tua casa, onde você teria sentado para me escrever, em que horas... Decorava cada letra, lia escondida no banheiro, trancada no quarto, embaixo da parreira, do coqueiro, na lavanderia. E te respondia. Milhares de rascunhos minuciosamente picados eram lançados no lixo. Até que viesse uma nova resposta e tudo começava de novo. Não falávamos de nós, dos bailes, nada. Éramos absolutamente impessoais, falávamos de amenidades  (essa palavra aprendi com você). Não sei quanto tempo durou isso mas sei que tinha um bom maço de cartas, atados por um laço de cetim,  fui precisando de uma caixa cada vez maior para guardá-las. Nós fomos crescendo, mudando de jeito,  deixando de ir aos bailes. Deixando de mandar cartas.

Quando me mudei para São Paulo, voltamos a nos encontrar, fomos amigos de verdade, nunca conhecemos o gosto do beijo um do outro. Nunca falamos de nós e daqueles tempos. Eu continuava guardando as suas cartas. Você sabia que eu adorava dirigir, então, sempre arrumava um pretexto para me botar no volante, acho que gostava de passear comigo pela cidade, enquanto eu dirigia o carrão do seu pai.  Eu já estava me tornando uma moça bastante opinativa, discutíamos politicamente. Eu te acusava de ser reacionário, você caia na risada enquanto tentava me convencer com argumentos (pouco convincentes) porém inteligentes de aluno do ITA.

No dia da queda do muro de Berlim você me telefonou  avisando para que eu ligasse a televisão. Você viajou, me mandou um postal de longe. Nossas vidas foram tomando outros rumos.

Quando pensei em me casar, achei que não seria de bom tom continuar guardando as suas cartas, juntei-as de uma só vez, botei-as fora. Joguei junto a fita que as uniam desfazendo o laço.










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