terça-feira, 24 de novembro de 2015

O pastor me chamou pela televisão

Ela disse que gosta de coxinha da jaca. Diante de tal exotismo não arrisquei perguntar se tal iguaria seria coisa doce ou salgada. Depois me disse que falava como os animais, que levava o maior lero com eles.
Enquanto enchia uns galões d'água, pude verificar a veracidade dessa afirmação. Apareceu o cavalo e ela começou: "E aí cara, tudo bem? Hein? Veio me dar bom dia? Conta aí, como estão as minas... já sei: não quer me contar, né? Hummmmm..." e foi...

Quem já passou por uma separação sabe da dureza desse luto. E ela estava assim. Chorava muito, não conseguia mais cuidar das casa, das crianças. Uma amiga resolveu levá-la para o Centro Espirita. Quando o médium lhe perguntou o que estava acontecendo, ela se agarrou com ele, com a cabeça no seu ombro se debulhou em lágrimas, explodindo em soluços incontroláveis, encharcando  toda a manga do traje branco, deixou o homem ensopado. Ele percebeu que era muito sério,  recomendou um longo tratamento. Muitas voltas até o Centro, uma rosa vermelha que deveria ficar na sua cabeceira durante uma semana e depois trazê-la de volta ao Centro. Foi fazendo o indicado, no sétimo dia ouviu um estrondo na sala, o gato havia alcançado uma lembrança do ex casamento que estava guardada dentro de um armário, que caiu por cima da rosa e se despedaçou no aguaceiro com tudo o mais que já estava despedaçado.

Continuou indo ao Centro mesmo sem aparente melhora de seu estado de espirito.

Continuava em casa no circuito cama, pijama e lágrimas até que o controle remoto da televisão despencou pelo chão, mudou de canal sozinho e ela começou ouvir vozes. "Ei você que está ai, sofrendo, chorando, que terminou um casamento, eu preciso falar com você".  Ainda de quatro no chão com o controle da mão ficou olhando para tela. E ele continuava " Hoje vou estar em Barueri". E pensou: se pelo menos fosse em Alphaville... "No km 20 da Castelo Branco" . Do lado de casa...  Ela foi se arrumando, desgrenhando  o cabelo, se levantando do chão, vestiu roupa e foi para a Igreja.

Um tanto de gente, aquela coisa forte, fervendo, parecendo o Rock in Rio, aquele uuuuuuuuuuuuuuu, e o Centro Espirita ficou parecendo água com açúcar diante do pulso daquela energia. Fechou os olhos, começou a orar, se entregou. Quando abriu os olhos um circulo imenso se fazia ao seu redor, tomou um susto e pensou: "agora chegou a hora do dinheiro, se eu soubesse que ia ter tanta gente teria passado no caixa eletrônico".

Foi para casa. No jardim da casa encontrou a irmã socióloga preocupada e  atéia, que lhe perguntou por onde ela andava: " Eu nem te conto... fui no culto". Como assimmmmmm!!!!?? "O Pastor me chamou pela televisão".

Desde aquele dia ela nunca mais chorou. Continua gostando de coxinha de jaca, falando com o cavalo, com as pedras do caminho, com as águas da cachoeira e acho que, também,  está começando a curtir um amor novo...

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