terça-feira, 13 de outubro de 2015

HER


Imagine uma voz levemente doce, que parece estar sempre sorrindo quando fala com você, tem senso de humor (dos bons!), mesclado com pitadas de sensualidade. Essa voz que fala com você todos os dias, sabe tudo sobre as suas preferências alimentares, sociais e profissionais. Resolve as questões que entulham sua caixa de mensagens, a sua vida pessoal, despacha assuntos deixados ao sabor do acaso e por fim, mesmos sendo um sistema operacional inteligentíssimo, consegue o inusitado no dias de hoje: te emocionar.

Ele, que está do outro lado da tela, um pacato escritor de vida solitária, é o usuário desse sistema operacional. Tem uma vida relativamente organizada, sem sobressaltos ou emoções como convêm às vidas estruturadas pós modernidade. Com o passar dos dias, vai se estabelecendo um certo nível de intimidade pessoal, com a necessidade de falar com Samantha, cada vez com mais frequência (e o tom começa a apimentar-se...), num deleite estonteante dessa voz que é de Scarlett Johansson.

Mesmo sendo ela um sistema operacional dotado de inteligência artificial e mesmo sendo ele um escritor habituado a criação de um mundo ficcional o inevitável aconteceu: apaixonaram-se.

Não vou contar a história porque o filme merece ser visto. Deixo para que confiram.

O que me chama a atenção mais e mais, não é negar ou reafirmar os erros, riscos ou ineficiência das relações puramente virtuais. Não há como negar o mundo que estamos vivendo. O problema não está em eximir-se ou negar-se a essa nova modalidade de vivência. A questão é não perceber e se deixar levar pela enorme e insofismável capacidade do ser humano de fantasiar. Deixando de fantasiar talvez desista, também, modo 'continuum' de viver. Não posso crer que as donzelas ou donzelos de priscas eras não fossem também vitimados dessa capacidade ilusória, seja na insinuação de um tornozelo que despontava por debaixo de uma saia longa, fosse na espera de uma carta através de um mensageiro ou da visita de um pombo correio.

Fantasiar é tão humano como frustrar-se. E aí cada um ingere as doses que melhor lhes convenham. Saber lidar com essas contingências talvez seja a razão de nossos percalços, deambulações e buscas.

Só de brincadeira outro dia, resolvemos usar o "Siri" a mulher da Apple que sabe de tudo e responde todas as questões, tal qual a Samantha do filme "HER". A filha de minha amiga perguntou para Siri como a sua mãe poderia arrumar um namorado. Veio lá uma porção de links para sites de relacionamento. Eu, um pouco mais preocupada com as questões da engenharia doméstica perguntei para Siri quem poderia arrumar a cozinha aqui em casa, obviamente, ela me mandou uma lista com endereços de lojas onde se vendem máquinas de lavar louça...

C' est la vie!



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