Mundo conceitual. Diante de tantas possibilidades, diante de tudo de muito, fica difícil escolher. Não bastasse um mundo que tem muito de tudo, quanto você pensa que encontrou o que precisava, acaba caindo numa dúvida atroz e cruel diante das possibilidades, variedades e multiplicidades.
Outro dia entrei para tomar um cafezinho. Café, sabe o que é. A atendente não se deu por satisfeita com a meu simples desejo por um café. Disparou um arsenal de possibilidades e combinações ( aromatizado, coado, prensado, a vácuo, decantado, com ou sem cafeína, diversos tipos de grãos...). A cada momento que imagina estar chegado perto do fechamento de pedido surgiam novas variantes. Ela começou num tom professoral a me dar uma aula sobre as diversas formas de preparo do dito cujo, fui me desligando da conversa e quase esqueci que tinha entrado ali somente para tomar um café.
Entrei numa padaria. Vieram na porta me buscar e sorridentemente me perguntaram se eu conhecia o conceito da casa. Eu só queria um pão. A coisa se repetiu. Antes que pudesse acessar o pão nosso de cada dia precisei ouvir uma missa sobre a casa, o pão, o fermento que era do tempo de Cristo. O pão não era nada de mais, meio igual, parecido, como os outros que já conheço...
Outra coisa que nunca funcionou para mim foi loja de departamentos. Dessas imensas que vendem de barco até dedal de costura. Vários andares, sobe para cá, desce para lá. Não consigo escolher nada. Saio em pânico e me sentindo levemente incapacitada para o consumo como é necessário ser para viver num mundo que te oferece muito de tudo.
O que dizem por ai, é que hoje em dia não basta consumir, você precisa viver uma "experiência" de consumo e para que isso aconteça... haja discurso para dourar a pílula!
E cardápio de restaurante então...!! É bom sentar com tempo e sem fome para se divertir lendo tudo o que está escrito.É tanta invencionice descritiva que aguça muito mais a falta de paciência do que as papilas gustativas.
Num mundo que tem tanto de tudo é preciso que cada coisa tenha seu "conceito" e que exista alguém por trás escrevendo esse conceito e outra na sua frente (com o texto muito bem decorado!) para te explicar o conceito que as coisas tem.
Foi notícia nessa semana, a faxineira que entrou na galeria e limpou toda "obra de arte conceitual", que era constituída de bitucas de cigarros, garrafas vazias, que lhe lembraram um fim de festa. Foi metendo a vassoura e limpando tudo porque na hora da faxina não tinha ninguém para lhe explicar que aquele monte de lixo é coisa que gente bacana gosta de ver e de achar que está vivenciando uma expressão artística. E muito provavelmente a galeria deveria ser muito bem "conceituada" para abrigar obra tão "conceituada" de tão "conceituado" artista plástico.
Nessas de conceito, outro dia comprei um livro conceitual. O escritor é deficiente fisico e suas obras também vêm com alguma deficiência ( meu livro não tem capa, aparece toda a costura e colagem da lombada). Legal, gostei disso. Só que o livro minha gente (!!!), li de fio a pavio, e nunca nenhum livro me intrigou tanto: eu não entendi um dedo da história que ele pretendeu contar...
Me senti igualzinha a faxineira da galeria de arte.
E de conceito em conceito parace que está tudo meio desconcertado. A gente consume e descarta sem nenhum princípio de prazer e menos ainda de satisfação. É preciso inventar todos os dias novos conceitos para um mundo que tem sede, mas, que não sabe mais onde encontrar água.
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