terça-feira, 1 de julho de 2014

Caderno I love you.

Nem sabia que era poeta. Me mandaram para a escola sem jardim da infância  sem nada, assim direto. Não tinha a menor ideia do que era uma sala de aula nem como me comportar em uma. Por uma escadaria passava-se por debaixo de um arco onde se lia ( depois que aprendi, é claro!) com letras em alto relevo: Grupo Escolar "Olavo Bilac".

Me punha calada. Muda. Não me lembro de ter feito uma única amizade naquele primeiro ano. Quando tocava o sino para o recreio o que para todos era motivo de festa e gritaria para mim era  suplício. Sem companhia procurava pela minha irmã mais velha que já sendo enturmada mal queria saber de uma pirralha como eu. Restava-me minha lancheira beje com desenhos de coqueiros marrons e pespontos no mesmo tom que cheguei na decorar quantos eram : vinte e dois.

O pátio era separado por um galpão ao meio. De um lado ficavam as meninas, do outro os meninos. Assim desejava a moral vigente à época. As meninas mais animadinhas lançavam bilhetes embrulhados em pedras por cima do telhado do galpão. Aprendi que escola não era tão somente o lugar de aprender o bê-a-bá como poderia ser, também, o lugar de se tomar pedrada na cabeça.

Quando o sino tocava de novo avisando o fim das aulas era um alívio. Eu iria para casa para voltar a ser quem eu era. Estaria livre por algumas horas da grande ameaça que a escola representava para mim.

Entre um lápis caido no chão, um pedido de borracha emprestada, um olhar de canto de olho e nada além do que esses pequenos gestos, eu me apaixonei.  Começava então o que se tornou repetitivo na minha vida: um rosário de amores platônicos que trataria de guardá-los a sete chaves, tão bem disfarçados que nem nunca o objeto dos meus sonhos saberia das intenções que rondavam o meu coração. Ninguém saberia, nem desconfiaria.  Jamais e muito menos ele!

Para salvar-me daquela prisão que era a escola, haveria um interregno das férias de julho. Em compensação ficaria todo esse tempo sem ver o meu amor. Noves fora fui aprendendo,  mesmo sem nunca ter conseguido aprender matemática, que não se pode ter tudo na vida.

Em véspera de viagem eu já nem dormia. Era um misto de de felicidade e inquietação para encontrar aquela família de tios, risadas, doces furtados do armazém do meu avô,  uma profusão de gente falando todos ao mesmo tempo em volta da mesa. Dessa vez,  iriamos com um motorista de taxi que morava em frente de casa, num Ford beje da cor da minha lancheira. Impecável.  Tinha persianas no vidro traseiro e um bichinho de pelúcia completando a decoração. Minha mãe ia no banco da frente com a caçulinha no colo e atrás entre cotoveladas e picuinhas as quatro crianças, sem direito a paradas no Graal... Felizmente ele dirigia bem devagar e não passei tão mal quanto passava com meu pai ao volante, correndo feito um louco por aquelas estradas de terra  poeirentas. Isso melhorava bastante a qualidade dos meus enjoos. A ponte sobre o Rio Tietê era de madeira, com a velocidade do carro as tábuas iam se batendo umas nas outras, eu me sentia andando sob teclas soltas de um de piano com toda aquela bateção. Era o pedaço da estrada que eu ficava pedindo para não chegar nunca e quando chegava pedia para passar logo. Rezava encolhida, com a cabeça entre o joelhos a fim de minimizar o horror de despencar  água abaixo sem nunca ter aprendido a nadar.

Curva vai curva vem resolvi folhear o meu caderno. Sequer tinha guardado-o na mala. A ansiedade para mostrá-lo logo para a minha avó era tanta que o levava no colo.  No meu roteiro eu saltaria do carro mal ele estacionasse e correria ao encontro dela para mostrar os progressos que vinha fazendo naquele meu primeiro ano. Só que o vidro do carro estava aberto. 'Seu Grejo', um santo homem,  parou o carro na estrada e foi procurá-lo pela poeira e pelo mato. Para minha angústia não o encontrou. Aquelas férias foram terríveis. Ficava pensando no que diria para a professora sobre o sumiço do meu caderno, ela me mandaria para a diretoria e sabe-se lá Deus se minha atividade estudantil não estaria encerrada com esse episódio. Por mais ameaçadora que fosse a escola eu queria continuar aprendendo.  No meu devaneio infantil me via sendo expulsa da escola e me tornando a vergonha da família. Se vivesse nesse mundo bem analisado e ritalinizado de hoje, uma terapia me salvaria (será?).

Passadas as férias voltamos para casa e eis que surge no portão o chofer de praça com uma coisa na mãos. Era o meu caderno. Manchado, poeirento e sem capa mas ainda assim era o meu caderno voador que ele pacientemente tinha parado na viagem de volta para resgatar.

Mainha teve a ideia de alisar as  folhas com o ferro de passar roupa, trocou a capa e me devolveu sem não antes me passar mais um sermão do tipo que eu aprendesse a lição e, que nunca mais segurasse um caderno com o vidro do carro aberto.

O meu drama ainda continuava sendo como justificar aquele caderno amarrotado.

No retorno às aulas marchei com o meu vulcabrás um número maior que os meus pés,  para que ainda servissem no ano seguinte. Ela sequer me perguntou qualquer coisa sobre o caderno. E isso não me serviu de lição para que aprendesse que as coisas com que mais me preocupei na vida sequer chegaram a acontecer.

Uns dias depois, a professora diz que tem algo a comunicar. Aquele menino bonitinho, de pele clarinha, cabelo bem escuro,  repartido ao lado como se tivesse sido traçado com uma régua, estava se despedindo de todos porque estava mudando de cidade. Ainda bem que estava sentada, meus joelhos teriam me traído. Mas, de uma coisa tenho certeza ( e por favor não me tirem as ilusões), ele parou no vão da porta, deu uma olhadinha na minha direção e acenou se despedindo, antes de sumir definitivamente pelo corredor levado pela  inspetora de classe. Assim seguiu Silvio Eduardo.

Ora( direis) ouvir estrelas!Certo perdestes o senso!E eu vos direi, no entantoque, para ouví-lasmuitas vezes despertoE abro as janelas, pálido de espanto
E conversamos toda a noite,enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,Cintila.E, ao vir o sol, saudoso e em prantoInda as procuro no céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!Que conversas com elas?Que sentindo tem o que dizem,quando estão contigo?"
e eu vos direi:"Amais para entendê-las!Pois só quem ama pode ter ouvidoCapaz de ouvir e entender estrelas.Olavo Bilac (Ouvir Estrelas)




Nenhum comentário:

Postar um comentário