sábado, 15 de março de 2014

Livros porque sim

Num dia azul de sábado,  lá fui eu. Imaginei fazer uma visitinha rápida mas me perdi em encantos.

É preciso estar atenta para que ninguém passe por cima de você com um skate. O melhor é refugiar-se rapidamente no melhor abrigo que pode existir no mundo.  Entre pufes, estantes, mesas, centenas de computadores, uma maioria jovem se reúne jogando xadrez. Pequenos grupos tentam juntar pedaços de seus entendimentos com algo maior. Tem muita luz natural e gente roncando no sofá. É fato que a grande maioria, indiscutivelmente, está aqui para usar durante duas horas gratuitas o acesso à  internet. O atendente que me dá essa informação permanece um pouco desolado com o fato das pessoas se interessarem tão pouco pelos livros...

Estou onde funcionou o Pavilhão Nove do antigo Presidio do Carandiru,  hoje transformado na Biblioteca São Paulo. Do outro lado do imenso pátio, conservou-se dois pavilhões onde funciona uma escola pública de dança,  música e arte. Essa biblioteca ganhou prêmio de acessibilidade contando com equipamentos que possibilitam a leitura por tetraplégicos, através de sofisticados sensores. Portadores de baixa visão ou cegos contam com   a tecnologia capaz de verter qualquer livro ou revista em áudio, produzindo essa maravilha de colocarem estórias onde o mundo se encheu de escuros.

Trocar um presidio por um espaço público voltado à cultura, sem dúvida alguma pode representar um grande avanço,  mas isso não significa que outras penitenciárias deixaram de ser edificadas. O Brasil tem hoje mais de meio milhão de presos, desse contingente sete por cento  são mulheres ( em doze anos esse numero aumentou duzentos e cinquenta e seis por cento!). A população carceraria aumentou mais de trinta por cento em cinco anos, a grande maioria está a espera de um julgamento, os atrasos da justiça ajudam a engrossar cada vez mais esse caldo e os que contam, com bons advogados, aguardam  a prescrição de seus atos, esperando do lado de fora.  Temos também mais de vinte mil adolescentes em casas de custódias. Ocupamos a desonrosa posição de quarto lugar no ranking de países com mais presos. Esses números superam em quarenta e três por cento a capacidade de abrigo. Portanto temos aí um cadeirão cozinhando em fogo alto.

Outro dia,  lia um artigo como técnicos norte americanos conseguiram fazer um projeção sobre o número de celas necessárias para os próximos quinze anos. Lá a inciativa privada administra esse tipo de estabelecimento, um mercado com alto poder demanda, pois lá como cá existem muitos presos. Chegaram ao número que vinham procurando partindo do pressuposto de uma  porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler adequadamente.

É certo que todas as questões passem por vários outros  tipos de análises, confrontações de dados, observações comportamentais mormente quando falamos desse enorme e curioso ser que é o indivíduo.  Não proporia que as portas das prisões fossem abertas e colocassem todos os infratores diante de um livro, imaginado que essa pudesse ser a solução de um problema tão grande.  Não seria tão inconsequente assim. O que proponho é a leitura como hábito prazeroso,  maneira de descobrir outros mundos, somar pontos de vistas. Um diálogo de estórias construídas diante do que temos de melhor:  nossa própria existência.  Alimentar nossos caminhos com prosa e verso.

Saindo da biblioteca vou caminhando pelo Parque da Juventude, onde parte dos muros ainda permanecem erguidos como um componente da história,  um pavilhão de celas permanece inacabado, árvores voltaram a crescer em volta, jovens andam de skate, jogam bola, livres para escreverem as suas próprias estórias.

Encontro um casal, voltando do trabalho que desempenham com felicidade e risos, tentando levar um pouco de graça para lugares públicos degradados dessa nossa imensa cidade. E assim voltamos todos para casa, eles acreditando na alegria e eu confiando que onde existirem livros os muros poderão ser mais baixos.



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