quinta-feira, 20 de março de 2014

Ela me contou

Tem lugar que a gente chega, sem saber que estava indo e fica querendo um dia retornar. Ela tava lá.  Vestido meio puído, ralhando com a neta que tomava conta do bisneto, que a outra neta tinha largado para trás,  porque foi se perder na vida. Era meio fim de tarde, o sol já se pondo, um chão de terra batida, umas casinhas pobres  em cima de um gramado verde. Uma igrejinha, uma cruz meio torta. "Tu vai perder esse menino!!!" O menino tava com um caroço grande no pescoço,  um resfriado que não curava, o remédio que tinha para ele já tinha sido dado, mas tava precisando mesmo ir no doutor, lá na cidade.


Ela vinha empurrando uma carriola, contava com quase oitenta anos mas ainda tinha o que existe de melhor na vida: brilho nos olhos.  Tinha ido buscar mamão na horta, umas verduras e umas ervas. Tinha um jeito  reto de me olhar, daquele jeito que não dá para contar nenhuma mentira. Era conhecida por ali e todo mundo que precisava se curar de alguma coisa tomava as garrafadas da Dona Flora. Eu só não tomei, porque, para o mal que vinha sofrendo, não tinha remédio.

Deixou a carriola arriar no chão de terra batida, botou a mão na cintura, secou com as costas da mão a testa e começou a falar. Tinha perdido as contas, mas até quando contou tinha feito mais de 280 partos. Todo mundo que nascia por ali, tinha passado por suas mãos. O ofício aprendeu foi sozinha, quer dizer... foi mesmo por precisão. Era moça nova, nem nunca tinha conhecido homem. Naquele tempo ninguém ficava dando trela pra filho, não tinha coisa de conversar e explicar as coisas. O pai tinha já sumido de casa fazia uns dois anos. Tinha ficado a mãe,  com sete filhos que se criavam tudo por ali mesmo. Um dia, sem aviso sem nada, sem nem saber as coisas de homem e mulher, a mãe começou a passar muito mal. Ela já mocinha, criada de um jeito ridículo,  viu a mãe naquele estado, sem saber o que fazer e sem ter para  quem pedir socorro,  foi até a cozinha botar água pra ferver. Mãe tinha pedido. Quando voltou pra trás,  entrou no quarto e viu a mãe quase desfalecida com uma criança também quase morta, parecendo que tava se sufocando. Naquele exato instante teve todos os mistérios da vida revelados. As crianças nasciam assim. Tomada de espanto e surpresa, tendo que lidar com próprias  constatações, a única idéia que lhe veio  à mente, como um raio, é que precisava salvar mãe e filha. No caso irmã.  Pensou em Deus ergueu os braços, não para o céu,  mas na altura dos ombros, estendeu as duas mãos e assim pediu: "Deus, me usa!". Foi aprendendo o que Deus lhe falava nos ouvidos. Socorreu primeiro a criança, tirando da garganta uma pelota que estava entalada, depois começou massagear-lhe  o corpo todinho até que perdesse aquela cor escura e adquirisse um tom mais claro. Quando percebeu que já tinha  lhe voltado a vida, enrolou a pobre nuns trapos que achou por ali mesmo. Era vez de socorrer a própria mãe, que meio desfalecida pedia para ser deixada pra lá,  tinha vergonha de continuar vivendo. Deus não pensava assim.

Aquela cidade miúda de gente e de tamanho, lá nos cafundós dos Judas queria mesmo saber quem era o pai da criança.  Disso nunca se soube. Flora passou a ser chamada toda vez que alguém tinha precisão de nascer por aquelas bandas. E depois quando cresciam,  continuavam, vez por outra, precisando dos suas garrafadas.

Essa estória, ela me contou lá nos confins de Goiás,  a frase e o gesto de Dona Flora me vêem sempre à memória,  naquelas horas em que os acontecimentos pedem uma solução imediata e a gente não tem como decidir: "Deus,  me use!"

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