segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ovo cozido


Quando subia rumo acima caminhando, me deparo com uma menina de caxuxa no cabelo, lancheira colorida nas costas,  de altura um pouco acima dos joelhos da mãe, que a observa a uma certa distância. A garota, sem se  preocupar com o horário da escolinha, tateia completamente absorta um muro de pedregulhos. Iniciava-se aí um dos grandes preceitos da vida: experimentação. Não vai demorar para que antes de terminar  o primeiro setênio, seja treinada para ver com os olhos. E assim aprendendo passará a vida como se estivesse a viver dentro de  numa loja de copos de cristais. Vendo com olhos, ouvirá bem mais tarde na vida,  com o sentido que ainda lhe restar, que é preciso ver com a alma.

Seguirá buscando, nesse mundo feito de dialética e autoajudismo que muito do que se sonha e se quer é absolutamente possível , principalmente se houver empenho e determinação em obedecer às  instruções dos manuais disponíveis.A literatura é vasta e as salas de analistas idem. E que construir   vidas e encontrar a felicidade pode ser obra de cinco minutos. Não te avisam que esse caminho tão promissor quanto realizável instantaneamente lhe causará arrependimentos nos cinco minutos seguintes ao que disse aquele  primeiro“sim”.

E antes que fizesse a primeira conversão à esquerda na reta final dessa subida, começo a pensar no filme que assisti ontem: “As mulheres do sexto andar”.

Um prédio parisiense nos anos sessenta. Num andar vive confortavelmente o dono do todo o edifício, que por herança de família herdou também a próspera carreira no mundo financeiro. Sua  mulher é francesa e elegante, fuma, toma chá com  as amigas enquanto joga cartas e sabe como organizar em casa recepções sociais bem coordenadas. Vivem a  vida que não lhes toca nem ao tato nem à alma.  No sexto andar, um time de empregadas domésticas espanholas ( as francesas estavam se recusando a fazer esse tipo de trabalho),  construindo uma união de solidárias operárias longe da pátria.

Para o senhor francês, o dia resumia-se em começar bem se o ovo poché que lhe fosse servido tivesse ficado ao fogo exatos três  minutos e meio. E então aparece Maria, a única das empregadas que conhece o tempo exato do cozimento de um ovo. Cena após cena, ele se deliciando com o seu ovo poché na medida correta. O tilintar do talher de prata quebrando a frágil casca.

Um dia, por ter repreendido injustamente Maria, o ovo servido deixa de ser poché e ele o come mesmo assim, entre um olhar lânguido sem protestos e silêncios.


Por outros motivos que não Maria, esse burguês apequenado pela família, é despejado de casa por sua elegante mulher francesa. Como na hora da saída chovia a cântaros, provavelmente  gotas de Dior e Van Cleef , decide por instalar-se no sexto andar, num dos cômodos que serve de depósito de tudo o que não se deseja mais na  casa.

Nesse novo andar conhece os dramas e alegrias das espanholas, percebe de novo a vida com a alma e tem vontade de lhe ver restituído o tato. Maria, que não era opulenta nem nada,  tinha uns belos grandes olhos expressivos, um sorriso que ia de um lado a outro do rosto e um coque preso no alto da cabeça. Nem foi  preciso que dançasse flamenco.  Trazia em si uma condição nativa: a coragem.


O filme termina bem sim, obrigada. E entre achar que procura-se por “Marias” ou procura-se por “Joãos”,  a grande arte seja talvez errar o ponto de cozimento de um  ovo. 


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