sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Seu Manuel das garnizé

De cabeça baixa segurando um cajado roliço na mão procurava alguma coisa na beira da estrada. Vi aquela figura com roupa em ordem de roça, o clássico embornal mineiro, não deixava dúvidas que era um local. Parei o carro ao seu lado e perguntei: tá procurando o quê? Nada não, só oiando. E o senhor tá indo pra onde? Vou descer até o Corgo. Quer carona? Ave Maria si quero. Subiu no carro e vou puxando conversa devagar, no ritmo da estrada, que com a chuvarada da semana parecia uma cobertura de bolo de chocolate deslizante. Subi hoje cedo. A pé, pergunto eu. Foi. Tava cansado de ficar em casa, a fia num queria que eu vinhesse mas precisa ver minha roça, tratar das galinhas. Senhor vende? Vendo não, é garnizé. Uai? E não é boa pra comer? Se conseguir pegar é. As bicha avoa igual passarinho, bota ovo no meio do mato, também não dá pra pegar. E o senhor vem sempre a pé aqui pra cima? Treis vez na semana. Tô lá embaixo porque fiz cirurgia nas vista e a fia num qué que eu suba pra roça, eu falei eu vô, mais fica sussegada que num vô fazê arte. Vai contando da viuvez, do tempo que fazia manutenção de estrada, desentupia bueiros, cuidadava dos dois lados da estrada, não deixava essa mataiada do que jeito que tá hoje. Chovia, fazia frio, naquele tempo ninguém tinha casaco. A gente vestia um saco de estopa. Moiava sim, mas a estopa esquenta o corpo da gente, dava até calor. Hoje, relampejô o povo vai pra casa. Eu não, ficava lá firme no serviço, quanto mais chovia mais sabia que a estrada precisava de mim. Conta da infância quando subia a cavalo na Pedra de São Domingos, do tempo que todo mundo por ali plantava e se reunia em roda da igreja pra rolar fumo. Sim, trançar fumo de corda. Hoje os pessoal num planta mais nada, acha que não compensa, vai comprar tudo na cidade. E o senhor mora sozinho lá na roça. Sozinho não, eu e Deus. Que tá sempre comigo e fez a senhora aparecer pra me trazer pra baixo.

Deixo-o no seu destino. Qué chegá? Desce pra armocá? Agradeço e sigo para São Paulo, num outro mundo, num outro lugar. Aquela natureza de montanhas verdes caminham dentro de mim, uma viagem que demora a sair do meu corpo, lembranças do mato, da beleza, da natureza que muitas vezes quer coisas diferentes daquelas que suponho crer e querer. Começo a intuir que ela sabe mais sobre meu destino do que minhas vãs ideias jamais suspeitaram.

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