Pelo retrovisor, a cidade ia perdendo o foco, ficando cada vez mais para trás. Luzes se apagavam devagar, como um adeus de fininho.
Distantes, trêmulas.
À frente, o escuro se desfazia aos poucos, como quem vai embora sem fazer barulho. A aurora escorre. E o que vejo não são apenas luzes: são presságios, arrepios, a beleza inquieta de não saber o que me espera.
A madrugada me encontra acordada.
Perco o sono por causa das viagens… ou viajo porque nunca aprendi a dormir.
Saio de casa no silêncio que antecede os pássaros.
Dirijo sozinha, através daquilo que deixou de ser noite, mas ainda não se fez dia.
A estrada me acolhe com o colo frio da noite.
E então vem o dia:
lento, macio, tateando atrás das montanhas, escorrendo pelo vidro embaçado do carro.
Minhas mãos, geladas, seguram o volante como se fosse a única âncora num mundo que se dissolve aos poucos.
Eu sigo para o dia que nasce diante de mim, e um milagre acontece: somos ambos desconhecidos.