segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Maria papuda

Nas tarefas simples do dia a dia me lembro das pessoas que me ensinaram a fazer coisas. 

Estava rastelando a grama e me lembrei da Murícia. Tinha o rosto encarquilhado, velha, muito magra, sempre de vestido surrado e limpo. Silenciosa, apenas acenava como a cabeça quando alguém lhe dizia  algo. Não tinha resposta, opinião, só um sorriso vago. Tinha sempre um pito no canto da boca. Era encarregada por lavar toda a roupa da casa da minha avó paterna. Lençóis brancos atravessados pelos varais, depois de quarados e passados num água de anil cujo azul me dava um profundo sossego. Também era a responsável por varrer o quintal com uma vassoura de galhos secos que ela mesma fazia. Varria o caminho de silêncios. Era impecável.

Minha avó morava numa chácara que com o crescimento urbano, foi parar dentro da cidade. Tinha vaca de leite, pássaros presos, soltos, pomar. Era no fundo desse pomar onde morava Murícia. Uma casa limpa onde os alumínios brilhavam feito espelho pendurados em cima da pia. Minha mãe não gostava que fôssemos lá. Morava com um irmão e um primo (também velhos) que vendiam laranja e mandioca pela cidade e uma irmã, Maria Papuda. Tinha olhos arregalados, magra de doer, um único canino  preto que pendia pra fora da boca, fanha com um papo imenso que lhe pesava no pescoço. Tinha dias que estava atacada, gritava, nunca saía do perímetro da casa, cercada com umas tábuas velhas e dalí berrava com meus primos que chegavam por perto portãozinho. Fui fazendo amizade, entrava na casa, tomava café bem docinho e até comecei a entender  o que a Maria falava. Era uma figura assustadora mas se  tratada com respeito ficava dócil, acho até que me protegia. Tinha sido apaixonada pelo meu pai quando era moça, falava do moço bonito. Quando eu ia embora, ela ia comigo até o portãozinho onde existia um enorme pé de jatobá. Ali nos despedíamos e ela perguntava num dialeto quase ininteligível se eu voltava amanhã.

Parte da chácara virou um loteamento e esses dias dei com o pé de jatobá, ainda lá, na porta de uma casa  que em nada lembra a casa da Murícia. Parei e fiquei olhando, tive a impressão de ter visto a Maria Papuda me acenando na janelinha da cozinha. Fiquei feliz por não terem cortado a árvore, como se algo daqueles tempos ainda estivesse por ali.

Era para contar da Murícia que varria o caminho e lavava as roupas, da sua resignada sofrência e dos  silêncios que sabia fazer, mas hoje quem me apareceu foi a Maria, que enquanto terminava de escrever veio caindo uma chuvinha doce, mansa, cheia de amor. Acendi um paieiro pra ouvir melhor esses silêncios que não soube contar.

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