terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Dia de plantar

Hoje trabalhei ferozmente no jardim. Arrancar matos com as próprias mãos é um delírio. Saem fáceis como as coisas difíceis.

Deixo o celular despertar para não me alienar entre plantios e meus atendimentos online.

Planto, replanto, capino.

Esse modus operandi me coloca em contato com minhas memórias infantis, presentes e futuras.

Faço pedidos silenciosos para que a terra receba as sementes depositadas.

Me perco entre conluios e preces para que a terra tenha a costumeira generosidade de as acolher com calma e boa vontade, dando as flores e frutos necessários.

O próspero caroço de abacate recebeu um lugar de honra na sombra relativa das Araucárias. Recolhi galhos de Hortênsias fincando-os fielmente ao longo da estrada, que um dia alguém os verão floridos. Espalhei mudas de citronela (da qual tomei inúmeros chás pensado que fosse cidreira...). Plantei as mudas das ervas medicinais que ganhei de Dona Carminha, para quem precisar se curar de males do estômago ou circulatórios.

Termino a noite, il faut, com um paieiro a me acompanhar em uma chuva de reluzentes vagalumes intermitentes.



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A ideia de apagamento

Quando me perguntam "vai passar?" Respondo: não. "Quanto tempo vai durar?" Não sei. Não tem receita de bolo. "Vou ficar assim para o resto da vida, então?" Não. 

O tempo é um lenitivo, não nos tira nada, apenas transforma. Você vai sobreviver porque algo em você deve garantir a pulsão de vida. É da ordem de ser natural, querer viver mesmo que em alguns momentos você não deseje nada além da morte. Por maior que seja a dor, a catástrofe, as perguntas sem respostas, as noites mal dormidas, algo em você vai determinar que você tente sobreviver.

Na nossa sociedade o luto transformou-se em algo que não pode ser vivido. A ordem é esquecer. E rápido. Nada de lamúrias intermináveis, nada de ficar lembrando de quem se foi. Enterra, doa as roupas, corre para o advogado para cuidar da papelada. Aliás, não corra atrás de um advogado, ele virá tocar a sua campainha se houverem bens a serem partilhados.

A verdade que ninguém te conta é que você vai sofrer, e muito. Mas tem algo ainda pior do que a dor de uma perda. O pior é o luto não elaborado.  Passar pelo processo de elaboração é um caminho de idas e vindas, acertos e descompassos, altos e baixos, dor e muita saudade. Como não temos representação da morte, a nossa reação em consolar o outro passa por clichês respeitosos de pouca eficácia. A minha vivência de morte é que muitas vezes o melhor é ficar calada. Estar ao lado, dar um abraço talvez seja o tudo o que nos cabe para ajudar quem sofre.

A morte se fez presente na minha vida antes que completasse 22 anos. Primeiro, meu irmão, depois meu noivo. Com a diferença de 10 meses entre uma e outra morte. Ambas violentas, um assassinado o outro acidentado. Não havia com quem compartilhar essas perdas. Minha família sofria, cada um a sua maneira. Quando meu noivo morreu, senti-me ainda mais solitária. Não podia contar com os braços dos meus pais, eles tinham perdido um filho, não era justo que eu sofresse ainda mais que eles. Foram lutos de elaboração muito difíceis. Meu pai fechou-se. Nunca mais entrou na sala onde o corpo foi velado, manteve seu quarto arrumado como se ele pudesse algum dia voltar, recolheu as fotos pela casa, nunca mais lhe foi possível pronunciar o seu nome. Minha mãe, ao contrário, pudemos falar muitas e muitas vezes sobre o ocorrido. Nunca a vi chorando, exceto no momento em que veio ao meu encontro, eu, chegando de Ribeirão Preto, onde estudava na época, fui mandada buscar sem entender nada do que tinha acontecido. Nos abraçamos e choramos sem saber como seriam nossos dias dali para diante. Com o passar dos tempos pudemos conversar, a sós, muitas vezes, incrivelmente ela me disse numa ocasião que havia perdoado a pessoa que fez aquilo. Nunca fui capaz de tamanha grandeza e acho que não serei enquanto me for concedido viver. 

Naquela época, ninguém falava em terapia pós luto. Quem aparecia eram os parentes, os vizinhos, o Padre. Amigas que eu esperava que aparecessem nunca vieram em contrapartida pessoas que jamais pensei, apareceram para apoiar, abraçar. Minha família enlutada foi emocionalmente foi incapaz de me olhar nos olhos quando a segunda morte aconteceu. Foram momentos de muita solidão, desespero e dor. Voltei para a faculdade, arrumei dois estágios, só chorava quando entrava embaixo do chuveiro, era o único momento em que conseguia entrar em contato com a  minha dor. Passei mais de trinta anos esperando que ele voltasse. Ele voltava, nos meus sonhos que tenho até hoje, onde permanece vivo, não envelheceu, naturalmente, continua sendo o amor da minha vida.

Meu irmão, da mesma forma, nunca morreu nos meus sonhos, está igualzinho, sempre pergunto onde ele esteve esses anos todos, porque foi embora e porque nos deixou sofrer tanto se continuava vivo.

Como diz Freud, todo sonho é a realização de um desejo. Quando sonho, o meu desejo de vida para eles reaparece, aparece, e me escapa assim que abro os olhos, desejando sempre de maneira impossível voltar a sonhar.

Em "Luto e Melancolia" Freud traça um panorama de diferenciação entre essas dores e da importância de poder elaborar um luto para que ele não se torne sintoma. Nesse texto, encontramos essa definição de luto: “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. Para algumas pessoas, esse luto ocupa o lugar de melancolia, ao que Freud suspeitou que essas pessoas possuíam uma disposição patológica, ao trocar o luto pela melancolia. O luto não deve ser considerado uma condição patológica ou submetê-lo a um tratamento médico. O luto pressupõe ser superado num determinado lapso de tempo, o que seria inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência sobre o seu curso.

A nossa sociedade impõe um modelo contrário ao preconizado por Freud. O "lapso de tempo" é algo que não existe na sociedade imediatista, pasteurizada, que nos arranca qualquer possibilidade de sofrimento. A demanda é que o tempo seja dominado por nossas vontades, passe sem ser percebido, de preferencia que voe e não deixe sinal de seu rastro. A dor de um luto não é autorizada ser vivida. Há, ainda, uma forte recomendação para que seja medicalizada. Medicalização da vida e da morte. O sofrimento, a perda,  a dor vistos como algo da ordem do abominável numa sociedade que prima pelo bem estar e qualidade suprema de vida. Com a vida tão super avaliada não é difícil entender que a morte seja abolida, adquirindo um status de algo inexistente, como se pudéssemos de alguma forma nos arrancarmos de nossas estórias a sua passagem. É a ideia de apagamento. Como num jogo onde os dados são lançados sendo possível determinar quais casas iremos pular. Clinicamente "pular casas" representa um retrocesso em que algum momento de sua estória isso precisará aparecer. Tentar não sofrer agora, vai apenas parcelar o seu sofrimento para o futuro, como se fosse uma dívida no banco, daquelas que nunca terminam, as quais são impossíveis de serem quitadas. Dívidas roladas representam sintomas futuros. Ou na explicação de Ferenczi, um trauma é tudo aquilo diante do que não transitamos, um congelamento de um acontecimento do qual não conseguimos falar, uma cristalização. 

Desejar não sofrer pode até ser uma reminiscência de nossa ideia de paraíso, uma lacuna de como tentamos lidar com a realidade bruta e fria que nos assusta. A vida, a morte, tanto quanto o futuro são incontroláveis, nos cabe apenas agregá-los como contingentes de nossas estórias e que não façamos tentativas vãs de "apagamentos". É preciso aprender a dizer de nossa vida (também!) a partir da morte. Alijá-la dos nossos processos afetivos não vai ajudar a passar a dor de forma meteórica. Contar nossas estórias é uma maneira de revivê-las com a possibilidade de "transitar" como diz Ferenczi. 

Nunca antes na história desse pais tivemos tantas famílias enlutadas simultaneamente. Todos nos temos parentes, amigos, conhecidos vivendo a perda de alguém. 

Escrevo para amenizar as minhas reminiscências, para entender os lutos de tantos nesse momento. Mais proximamente, escrevo para Isa, Carmem, Cecilia, Val, a mulheres mais próximas de mim que estão nesse momento lutando com o "luto".

"A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Gabriel Garcia Márquez 



sábado, 17 de julho de 2021

O começo de tudo

O Rio São Lourenço, Ribeirão dos Porcos, a tapera construída na beira do rio pelos bisavós, a choça coberta de folhas de coqueiros, pau a pique. As noites sem luz, o açude sendo construído, o caminhão caído dentro. O pai embarreado. As casas de tábuas, as muitas famílias, a escolinha... A professora que morava na nossa casa para ensinar os filhos dos colonos.

Os cafezais sendo cortados, as pessoas indo embora. Eu, indo embora.

O menino surdo porque pulou com o corpo quente na água fria no dia de verão. O Gumercindo que não adiantava sentir frio porque não tinha roupa para vestir. A Isabelona que criava os frangos cagando pela casa, dormindo empoleirados no quentinho do fogão a lenha.

O Chico Compadre que teve tantos filhos que perdeu as contas, foi dando tudo em batismo e acabou virando compadre de meio mundo.

Os dias de matanças, de capar boi, o dia das pamonhas, retrós de linha, palha costurada, conversas de mulheres, as divisões. Eu, indo embora.

A égua Brigitte (Bardot) do meu irmão, a boneca que andava e falava, da minha irmã, a invernada, o arroz plantado no banhado.

O enorme buraco onde  queimava o lixo. Eu, indo embora.

O pomar que meus pais plantaram quando se casaram, com o casamento que durou muito, restou o pé de sapoti e o grande tamarineiro.

As festas de São João, aniversário do meu avó, o povo chegando, o frio de rachar mamona, o pau de sebo o dinheiro preso nas alturas, o mastro de santo, o fósforo de cor colorindo a noite de inocências das crianças. Eu, indo embora.

O tempo de cada flor, cada fruta. O tempo de cada nascimento, de cada morte.

Os que se foram e os que ficaram, para ver, olhar e cuidar desses campos. Eu voltando.







quarta-feira, 5 de maio de 2021

A primeira de outras

Quando a tocou pela primeira vez, sentiu nas pontas daqueles dedos toda a ancestralidade

Era como se todos os amores vividos a tocassem, de uma só vez e na forma única de um novo acontecimento 







quinta-feira, 8 de abril de 2021

Fim do mundo

Mudei os vasos de lugar, os que estavam muito desprotegidos vieram para dentro. A arruda já dona do pedaço, vigorosa, foi transplantada para fora. As plantas são como os filhos: crescem e precisam estar prontos para sair de casa.

Era 1967 e eu andava preocupada com as questões de vida e morte. Com cinco anos meu existencialismo já dava sinais preocupantes. Não poderia falar disso com a minha mãe. Já tinha experimentado com ela a zombaria das minhas inquietações, no dia em que entrei esbaforida em casa para lhe falar da minha última descoberta: as nuvens andavam. Ela me olhou com aquela cara de quem tem mais o que fazer e entre um risinho irônico só me respondeu: "só hoje você percebeu isso?" Minha confiança materna ficou profundamente abalada. Passei a não suportar ironias.

Meu pai era uma figura errante pela casa. Sempre correndo, apressado, inquieto. Nunca sabíamos onde ele estava ou quando voltaria. Gostava de dizer que sua casa era debaixo das abas do seu chapéu. Isso nunca foi uma preocupação. Minha mãe sabia manter as coisas ordenadas dessa forma, não nos faltava nada, então a conta fechava. Suas aparições eram tão instáveis quanto seu humor. Quando de bem com vida cantava, declamava poesia, lia aqueles livrinhos de bang bang, esquentava aquele ossinho do peito de frango (que até hoje ninguém faz um frango caipira melhor que minha mãe!), para fazermos uma aposta. Quando estava de mal humor todo mundo procurava um serviço e tentava manter-se ocupado bem longe de suas vistas. Aprendi a lavar louça que foi uma beleza!

A sala de visitas eram um lugar pouco permitido para as crianças, normalmente ficava com a porta fechada, era li onde ficava a televisão que só era ligada depois dos jantar. Ao lado tinha um escritório, onde ficava o telefone e alguns outros móveis. A casa era configurada dessa maneira pois um médico havia morado ali, portanto o que chamávamos de escritório tinha servido ao antigo morador como consultório. 

Meu pai estava na sala aquele dia. Devia ter ido falar no telefone ou algo assim. Encontrei com ele na curva. "Pai, tô com medo porque o mundo vai acabar". Ele estava meio apressado mas sentou numa poltrona, me colocou nos seus joelhos e começou a falar que tinha tido uma longa conversa com Deus. Que Deus havia prometido à ele, que se caso o mundo fosse acabar, nós seríamos os primeiros a serem avisados. Que eu não me preocupasse, que ele já havia falado com um homem que tinha uma balsa no Rio Tietê e combinado que se o mundo fosse acabar, o homem nos levaria pelo rio, com todos as nossas coisas, nosso cachorro Fiel e as pessoas da família. Ninguém ficaria para trás e quando o mundo acabasse de acabar, estaríamos salvos para começar tudo de novo. Naquele momento renasci, através da confiança depositada nas palavras do meu pai e tendo a certeza de que ele era muito corajoso, não havia nada mais o que temer. Aconcheguei-me no abraço dos seus braços fortes e voltei a acreditar na vida.

Muitas e muitas vezes a vida quase acabou. Mas, tive a sorte de ter aquele momento comigo. Foi a  partir dali, naquela crença infantil depositada no pai, que algo em mim se constituiu de tal forma que pude sobreviver a cada vez que o mundo ruiu aos meus pés ou dentro de mim.

Os tempos andam difíceis. A esperança, uma visita incerta.  Gostaria de poder desejar que todos tivessem tido a mesma oportunidade que tive: um pai em quem confiar.


quinta-feira, 25 de março de 2021

Por que tanto silêncio?

Os últimos tempos têm me levado a pensar de forma recorrente numa carta de 1932 trocada entre Einstein e Freud onde o primeiro pergunta ao segundo: "Por que a Guerra"? Einstein declara que apenas consegue ter uma visão "administrativa" dos motivos que levam à guerra, queria saber, então, de Freud quais os mecanismos psicológicos envolvidos num conflito dessa ordem. Einstein fala na "extravagante" e "cruel" forma de conflito armado humano propondo pensar em uma maneira de evitar seus horrores. Termina a carta dizendo que o problema é "agravante" e "urgente" clamando à Freud, que diante de suas mais recentes descobertas possa apresentar caminhos para um frutífero acordo de paz mundial.

Um ponto importante sobre os argumentos de Einstein é que não obstante os avanços conquistados pela ciência as tentativas de paz têm resultado em "lamentável fracasso".

A resposta de Freud é bastante mais longa do que a pergunta de Einstein, vale a pena a leitura onde na introdução de sua resposta podemos identificar um Freud que gostaria de acreditar em coisas diferentes de suas descobertas. Em síntese: o homem não é bom. Para Freud, direito e violência não são antíteses mas uma é derivada da outra. Os conflitos entre os animais é resolvido pela violência e não temos motivos para  excluir o homem do reino animal. A horda humana com mais força muscular resolve qualquer conflito de interesses. Freud na sua usual digressão vai chegar na pulsão morte. Somos bichos ruins, como na música dos Titãs, bichos escrotos.

Mas por que tanto silêncio? Estamos com mais de 300 mil mortos pela pandemia. O Senado silenciou, a Câmara silenciou, os intelectuais silenciaram, os ex presidentes* silenciaram, artistas silenciaram, a santa igreja e os tribunais se calaram. Somente no final de semana quando superamos 3.000 mortes dias surge uma carta de economistas, banqueiros, empresários e demais dignos representantes da única sociedade formal brasileira (a que conta) endereçada àquele que foi o único que não calou-se diante da pandemia. Aquele que marcado pela vileza humana desmentiu, desdenhou, zombou, satanizou, profanou a vida e a morte. Essa espécie satânica da raça humana que traz no seu DNA as piores e indeléveis inscrições genéticas para matar vem de forma ostensiva armando a população, entregando poderes para seus aliados (clubes de tiros, por exemplo autorizados a expedirem posse de arma). Suas ameaças pela força armada  não é e nunca foi velada. Garantiu aumento de salários aos militares em plena pandemia, aumentou o orçamento do exercito, está em curso mudança de lei que autoriza policial matar além das periferias brasileiras. 

Em algum momento da sua literatura Freud acreditou que a ciência, a educação (não no sentindo dos mecanismos de castração civilizatória) pudessem tornar o homem melhor. A aposta na salvação através dos processos educacionais foi bem intencionada mas não tem se revelado como verdade quando submetida à luz da realidade.

Estamos no curso certo de muitas incertezas. Somos um pais eivado pela corrupção, pela impenitência das penas aos que podem pagar e pela crueza do destino onde o Estado se faz de morto. Vivemos sonâmbulos numa terra estranha.

O embate entre a ciência e a sua negação nunca foi tão explicitado. Quero ainda crer que somos a maioria que acredita no bem, porém, diante dessa espectral e funesta realidade não dá para romantizar. O pior do ser humano tem aparecido não somente na fala mas na passagem ao ato. A autoridade máxima de nossa nação tem autorizado que seus iguais se revelem. Embora seja uma parcela menor da população, essa parcela, ao contrário de nós, não se cala. 

O maior genocídio da história foi marcado pelo silêncio. Não era hora de já termos aprendido a falar?


* alguém dirá: "o Lula falou". Falou sim, quando já estávamos com 250mil mortos e quando lhe foi "autorizado" subir mais uma vez no palanque.

** Em 1938 Freud foi obrigado a deixar a Áustria, seus livros foram queimados em praça pública.









domingo, 28 de fevereiro de 2021

sobre o amor

Existe um conto (Amor) de Raquel de Queiroz que li algumas vezes nas rodas de leitura e gostava muito da conversa que ele gerava (as vezes, gestava). Nesse conto Raquel de Queiroz está ouvindo um programa de radio, uma enquete sobre amor e se dá conta que ninguém entende nada sobre o assunto, assim é que, resolve por conta própria sair perguntando. Pergunta para o solteirão que se considera convicto e quase irresistível, para a moça recém casada já desfeita de suas ilusões matrimoniais, para o padre, para o homem de família, para a jovem solteira que tem o filho sozinha na maternidade.

Pelas conversas geradas depreendi que o amor é acima um ponto de vista permeado pelas experiências que nos foram dadas viver. Tantos as que nos possibilitamos quantos àquelas impossibilitadas.  A experiência de amor precisar voltar no tempo, voltar no tempo para a primeira vez em que fomos colocados em contato humano. O aconchego dos braços maternos (leia-se aqui materno em todas as novas conformações familiares). A constituição do amor em nós é tão primária quanto sentir o primeiro gole cálido de leite. Amor que entra pela boca, nos alimenta buscando sobreviver. Não equivocável que quando amamos mais tarde queremos o abraço, a boca. Passamos em fração de segundos em nosso contato com o outro sobre esse espectral refúgio de afetos, um arcabouço tão complexo quando difícil de narrar. Veja como os apaixonados assumem a linguagem do thutchuca, a linguagem tatibitate, com exigências primárias de serem alimentados, nutridos e acompanhados.

Acho que Raquel de Queiroz amava o rádio. Eu também. Me dou conta nessa infinita pandemia que o rádio tem sido para mim um companheiro que me alimenta, abriga e nutre contra as incertezas do mundo posto lá fora. Enquanto pensava sobre o amor apareceu Frank Sinatra, under my skin. O amor tem isso: precisa permear nossa pele, fazer contato para não permanecer no ideário de Aristófanes de Platão, aquela idealização da metade da laranja que não se completa pois traz em si somente o idealizado. Na sequencia vem Janeci para dizer que o melhor da vida é de graça. Essa ideia de amor de graça é muito boa porque tira o estigma sofredor romântico de que amor tem que ser sofrido, interrompido. Se é de graça, amor não pode ser caro (carregado de sofrimento), nem barato (eivado de banalidades). Amor de graça é o amor que nos faz melhor enquanto seres humanos, aquele que nos permite ser melhores do que jamais conseguimos ser, e que, quando termina, a gente tem saudade da pessoa que fomos. Amor bom é onde nossas confusões se ajeitam bem com as confusões do outro. Ou seja, amor bom é amor onde as neuroses se combinam... e se encontram... Melhor falar sobre isso com seu analista...

"Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidade. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que é principalmente, são duas pessoas nesse mundo". Raquel de Queiroz - Amor

E você, como tem vivido essa experiência?




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Maria papuda

Nas tarefas simples do dia a dia me lembro das pessoas que me ensinaram a fazer coisas. 

Estava rastelando a grama e me lembrei da Murícia. Tinha o rosto encarquilhado, velha, muito magra, sempre de vestido surrado e limpo. Silenciosa, apenas acenava como a cabeça quando alguém lhe dizia  algo. Não tinha resposta, opinião, só um sorriso vago. Tinha sempre um pito no canto da boca. Era encarregada por lavar toda a roupa da casa da minha avó paterna. Lençóis brancos atravessados pelos varais, depois de quarados e passados num água de anil cujo azul me dava um profundo sossego. Também era a responsável por varrer o quintal com uma vassoura de galhos secos que ela mesma fazia. Varria o caminho de silêncios. Era impecável.

Minha avó morava numa chácara que com o crescimento urbano, foi parar dentro da cidade. Tinha vaca de leite, pássaros presos, soltos, pomar. Era no fundo desse pomar onde morava Murícia. Uma casa limpa onde os alumínios brilhavam feito espelho pendurados em cima da pia. Minha mãe não gostava que fôssemos lá. Morava com um irmão e um primo (também velhos) que vendiam laranja e mandioca pela cidade e uma irmã, Maria Papuda. Tinha olhos arregalados, magra de doer, um único canino  preto que pendia pra fora da boca, fanha com um papo imenso que lhe pesava no pescoço. Tinha dias que estava atacada, gritava, nunca saía do perímetro da casa, cercada com umas tábuas velhas e dalí berrava com meus primos que chegavam por perto portãozinho. Fui fazendo amizade, entrava na casa, tomava café bem docinho e até comecei a entender  o que a Maria falava. Era uma figura assustadora mas se  tratada com respeito ficava dócil, acho até que me protegia. Tinha sido apaixonada pelo meu pai quando era moça, falava do moço bonito. Quando eu ia embora, ela ia comigo até o portãozinho onde existia um enorme pé de jatobá. Ali nos despedíamos e ela perguntava num dialeto quase ininteligível se eu voltava amanhã.

Parte da chácara virou um loteamento e esses dias dei com o pé de jatobá, ainda lá, na porta de uma casa  que em nada lembra a casa da Murícia. Parei e fiquei olhando, tive a impressão de ter visto a Maria Papuda me acenando na janelinha da cozinha. Fiquei feliz por não terem cortado a árvore, como se algo daqueles tempos ainda estivesse por ali.

Era para contar da Murícia que varria o caminho e lavava as roupas, da sua resignada sofrência e dos  silêncios que sabia fazer, mas hoje quem me apareceu foi a Maria, que enquanto terminava de escrever veio caindo uma chuvinha doce, mansa, cheia de amor. Acendi um paieiro pra ouvir melhor esses silêncios que não soube contar.

domingo, 24 de janeiro de 2021

O homem guardando o menino

Nesses dias de longas esperas percorro com meus olhos a casa. A estante sempre com o aguardo silencioso dos meus livros, alguns objetos que me são caros, premindo lembranças de coisas, pessoas, pensamentos, viagens e encontros.

Chego até um canto, onde João resolveu chamar de "seu canto", uma poltrona forrada de veludo preto, uma estante com seus seus livros e uma foto que lhe dei de presente quando dos seus 21 anos.

Por que presenteamos? Já tinha namorado essa foto há um tempão. Gosto de contraluz, como gosto de coisas que são contrárias. Alguma coisa nunca é ela mesma se não for ao mesmo tempo o seu contrário. 

Esse homem enorme, que guarda a porta da casa com uma cartucheira, o filho engatinhando para a luz com a guarda do pai que fixa um olhar no fotógrafo e está no meio entre a proibição e a autorização. Vigia e cede ao mesmo tempo mas é pai. Acho que entendo agora porque gostei tanto dessa foto: a função paterna, aquele que interdita e ao mesmo tempo constitui. Talvez presentear esteja ligado com o nosso amor, aquilo que queremos para nós mas oferecemos para o outro.