Ouço as duas que conversam na cozinha, uma atualização do fim de semana que a outra passou fora. Falam numa língua que divulgo mas não posso dizer que compreendo profundamente. O menino-o cavalo-a cerca-o hospital. Percebo que é menos grave pois nenhuma chora.
Até o final da quarentena descubro todos os seus segredos.
Há muitos anos pedi que me fizesse um caderno com suas melhores receitas (e todos os truques!). Meses depois me chega o caderno, de espiral, simples, com a sua letrinha que aprendi a reconhecer nos bilhetes à professora. Cadê os truques? "- não tem". Estou descobrindo que a água deve ser morna, pingar só no cantinho da panela e mexer muito lentamente. A fritura fez fervura? Polvilha maisena na gordura para acalmar a espuma. Uma abobrinha inteira ralada misturada diretamente na massa da torta. Baunilha, nos doces, quase sempre. Bicarbonato na medida e no tempo certo para cristalizar o mamão verde. Cozinhar me parece com algo de criar filhos, um tempo e uma medida justa.
Passo pela sala, vejo flores que secaram, presente de aniversário passado da filha. Deixou secar de cabeça para baixo no escuro.
Penso em "Carolina", de Machado de Assis, uma beleza comovente que compartilho com meu pai.
Flores idas e vividas como os amores. Os que ficam para sempre.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
terça-feira, 23 de junho de 2020
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Sepé Tiaraju
Eu sei rezar mas não quero. Talvez não queira por ter sido algo que aprendi sem ensinamento.
Amanheço no meio da natureza, sentindo cheiro de lenha, cantos de pássaros que passam dos primeiros cantos soturnos e graves da madrugada para a algazarra esfuziante da alvorada.
A terra nascente me enche de força ancestral esperando que ressurja um novo Sepé Tiaraju (líder Guarani) gritando ao amanhecer : "essa terra tem dono".
Começa por aqui uma chuvinha doce, alguém deve ter ouvido minhas preces, mesmo que eu não queira mais rezar.
Amanheço no meio da natureza, sentindo cheiro de lenha, cantos de pássaros que passam dos primeiros cantos soturnos e graves da madrugada para a algazarra esfuziante da alvorada.
A terra nascente me enche de força ancestral esperando que ressurja um novo Sepé Tiaraju (líder Guarani) gritando ao amanhecer : "essa terra tem dono".
Começa por aqui uma chuvinha doce, alguém deve ter ouvido minhas preces, mesmo que eu não queira mais rezar.
quarta-feira, 3 de junho de 2020
Não posso respirar
Não posso respirar porque os cães ladram, tenho insônias e o dia está nublado.
Não posso respirar porque há desmandos na pátria e os que têm voz se calaram.
Não posso respirar por que o ar é denso, as estrelas esfriaram e morro com saudades.
Não posso respirar porque os lençóis estão emaranhados dos rebuliços por minhas noites em claro.
Não posso respirar porque a hipocrisia bate todos os dias na minha porta, entra pela sala e senta-se na minha cadeira favorita.
Não posso respirar porque as balas não perdidas têm colocado na minha boca um gosto amargo de abandono.
Não posso respirar porque tomar um sorvete na praça tornou-se de repente um ato suicida.
Não posso respirar porque meu coração não aceita um mundo sem explicações.
Não posso respirar porque a ignorância, o descaso e a indiferença proibiram por lei qualquer licença poética.
Não posso respirar porque o meio último suspiro seria para ouvir teus passos te trazendo de volta para casa.
Não posso respirar porque há desmandos na pátria e os que têm voz se calaram.
Não posso respirar por que o ar é denso, as estrelas esfriaram e morro com saudades.
Não posso respirar porque os lençóis estão emaranhados dos rebuliços por minhas noites em claro.
Não posso respirar porque a hipocrisia bate todos os dias na minha porta, entra pela sala e senta-se na minha cadeira favorita.
Não posso respirar porque as balas não perdidas têm colocado na minha boca um gosto amargo de abandono.
Não posso respirar porque tomar um sorvete na praça tornou-se de repente um ato suicida.
Não posso respirar porque meu coração não aceita um mundo sem explicações.
Não posso respirar porque a ignorância, o descaso e a indiferença proibiram por lei qualquer licença poética.
Não posso respirar porque o meio último suspiro seria para ouvir teus passos te trazendo de volta para casa.
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