Uma leitura em grupo “O Mujique
Marei” de Dostoievski (1821-1881)
Em 1849, Dostoievski é preso por
ter se engajado na luta da Juventude Democrática Russa contra o czar Nicolau I.
Dizem que ao tempo da prisão ele sequer participava dessas reuniões... Foi
condenado à morte. Quando caminhava para a execução, na antevéspera do Natal, recebe
a notícia de que sua pena foi comutada para 4 anos de trabalhos forçados na
Sibéria. Dá para imaginar que somente mentes sádicas deixariam um homem encaminhar-se
para a morte enquanto guardam em suspense a notícia de comutação de sua pena.
Dos horrores do cárcere escreveu
"Recordações da Casa dos Mortos".
Soren Kierkegaard considerava-o pai
do existencialismo. O indivíduo como único responsável em dar significado à
vida e vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar de todas as distrações,
como o desespero, a ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio.
"Irmãos Karamazov" de sua
autoria, foi considerado por Freud “o mais grandioso romance jamais escrito”. Sua obra explora a autodestruição, a
humilhação e o assassinato além de analisar estados patológicos que levam ao
suicídio, a loucura, a culpa, ao homicídio. Inegável conhecedor dos
subterrâneos da alma humana. Talvez por isso tenha impressionado tanto Freud,
que em “Dostoievski e o Parricídio”, escreve: “Quatro facetas podem ser
distinguidas na rica personalidade de Dostoievski: o artista criador, o
neurótico, o moralista e o pecador”.
Em "O Mujique Marei", o
autor está preso na Sibéria e diante dos horrores do cárcere lança mão de uma
memória de infância, para sobreviver diante da ignomínia humana. Essa lembrança
infantil leva-o a rememorar um camponês russo (um mujique), rude, ignorante e
selvagem, que num momento de terror foi capaz de lhe lançar ao mais profundo e
radioso sentimento humano: a ternura, um afeto que somente os humildes de
coração são capazes de produzir.
Durante a leitura coletiva, um dos
aspectos que reteve minha atenção foi sensibilizar como essas memórias podem
nos salvar, como podem representar um porto seguro, o apaziguamento no caos?
Quando somos visitados por uma memória doce e ingênua da infância podemos nos
socorrer diante de nossos campos de batalha, colocando em questionamento as
razões pelas quais tanto guerreamos, restando outra pergunta: quem é
verdadeiramente o nosso inimigo?
Se me socorro do que sou, é
possível que consiga encontrar alguma resposta. O meu "eu
apreendido", em algum momento de afeto, virá me ensinar que o meu maior
inimigo talvez seja eu mesma.
O mundo de fora nada mais é do que
"eu" com as minhas estórias e todos os meus fantasmas. A maneira que me
é permitida ver o mundo talvez possa ser a única possibilidade de sobreviver
todas as vezes que a vida me chamar para uma "sobrevida". É a lei da
sobrevivência para os tempos de nossas grandes guerras, para que se tenha, ao
menos, a possibilidade de fechar os olhos e sonhar novamente com um ato de
ternura, de amor, de acolhimento.
A vida só pode ser compreendida,
olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.
*A leitura desse texto foi repetida
em vários ambientes, com pessoas de diferentes classes sociais, diferentes ou
nenhuma formação educacional formal. Numa das ocasiões em que o li num abrigo
para moradores de rua em SP, havia um rapaz que me perguntava com insistência “como
fazia para conseguir ter esse tipo de memória”. Essa pergunta sempre me inquietou.

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