terça-feira, 21 de janeiro de 2020


Uma leitura em grupo “O Mujique Marei” de Dostoievski (1821-1881)

Em 1849, Dostoievski é preso por ter se engajado na luta da Juventude Democrática Russa contra o czar Nicolau I. Dizem que ao tempo da prisão ele sequer participava dessas reuniões... Foi condenado à morte. Quando caminhava para a execução, na antevéspera do Natal, recebe a notícia de que sua pena foi comutada para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Dá para imaginar que somente mentes sádicas deixariam um homem encaminhar-se para a morte enquanto guardam em suspense a notícia de comutação de sua pena.
Dos horrores do cárcere escreveu "Recordações da Casa dos Mortos".

Soren Kierkegaard considerava-o pai do existencialismo. O indivíduo como único responsável em dar significado à vida e vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar de todas as distrações, como o desespero, a ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio.

"Irmãos Karamazov" de sua autoria, foi considerado por Freud “o mais grandioso romance jamais escrito”.  Sua obra explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, a loucura, a culpa, ao homicídio. Inegável conhecedor dos subterrâneos da alma humana. Talvez por isso tenha impressionado tanto Freud, que em “Dostoievski e o Parricídio”, escreve: “Quatro facetas podem ser distinguidas na rica personalidade de Dostoievski: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador”.

Em "O Mujique Marei", o autor está preso na Sibéria e diante dos horrores do cárcere lança mão de uma memória de infância, para sobreviver diante da ignomínia humana. Essa lembrança infantil leva-o a rememorar um camponês russo (um mujique), rude, ignorante e selvagem, que num momento de terror foi capaz de lhe lançar ao mais profundo e radioso sentimento humano: a ternura, um afeto que somente os humildes de coração são capazes de produzir.

Durante a leitura coletiva, um dos aspectos que reteve minha atenção foi sensibilizar como essas memórias podem nos salvar, como podem representar um porto seguro, o apaziguamento no caos? Quando somos visitados por uma memória doce e ingênua da infância podemos nos socorrer diante de nossos campos de batalha, colocando em questionamento as razões pelas quais tanto guerreamos, restando outra pergunta: quem é verdadeiramente o nosso inimigo?

Se me socorro do que sou, é possível que consiga encontrar alguma resposta. O meu "eu apreendido", em algum momento de afeto, virá me ensinar que o meu maior inimigo talvez seja eu mesma.
O mundo de fora nada mais é do que "eu" com as minhas estórias e todos os meus fantasmas. A maneira que me é permitida ver o mundo talvez possa ser a única possibilidade de sobreviver todas as vezes que a vida me chamar para uma "sobrevida". É a lei da sobrevivência para os tempos de nossas grandes guerras, para que se tenha, ao menos, a possibilidade de fechar os olhos e sonhar novamente com um ato de ternura, de amor, de acolhimento.

A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.

*A leitura desse texto foi repetida em vários ambientes, com pessoas de diferentes classes sociais, diferentes ou nenhuma formação educacional formal. Numa das ocasiões em que o li num abrigo para moradores de rua em SP, havia um rapaz que me perguntava com insistência “como fazia para conseguir ter esse tipo de memória”. Essa pergunta sempre me inquietou.



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