segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Enigma e insônia

Sou um enigma que me dá bom dia todos os dias. Às vezes tenho o hábito de não responder. Em busca de certezas perco cada vez mais minha própria razão. Razão é coisa do outro, nunca minha. O pulsar do incerto é que me acompanha durante o café da manhã, me rechaça durante a tarde e vem novamente me encontrar no fim do dia quando começa a escurecer. É sempre no fim da tarde que sinto vontade de voltar para casa. Dizem que 6 da tarde é a hora da solidão, a hora que os pássaros ser recolhem com uma cantoria diferente daquela que saíram para brincar quando o dia amanheceu. Os pássaros não são como gente. Estão sempre estridentemente felizes. Dizem que são muito inteligentes e que possuem sofisticados sistemas de navegação que faz da Nasa um laboratório de ciências como aquele que existia na meu colégio. É também a hora da Ave Maria, se algum sino ainda toca aqui na cidade ninguém é capaz de ouvir. Já desenvolvemos uma capacidade obstinada de não mais ouvir coisas. Acho que essa capacidade de não ouvir está criando um silêncio tal que me provoca insônia durante toda a noite. Aí sim qualquer prenúncio de barulho torna-se um barulhão, não são as coisas de fora e sim as de dentro que não me deixam dormir. Ser gente sempre implicou em solidão e não estou aqui a dizer que isso seja ruim. É o estar só no mundo que possibilita a criação, o encontro com a arte, a apreciação do claro-escuro-incerto que a vida oferece. Estar o tempo todo entre multidões sem encontrar-se com a sua solidão faz com que o mistério desapareça levando nas asas dos pássaros o enigma que precisamos tanto tentar resolver. O mistério de existir é rodeado do incerto, onde o lugar fica sem margens para que a imaginação possa encontrar novas maneiras de voar. É assim que me aproximo das estrelas, abro a janela e pálida de espanto sou capaz de ouví-las durante toda a noite. Não é errância, é poesia.

O PÁSSARO CATIVO
Armas, num galho de árvore, o alçapão.
E, em breve, uma avezinha descuidada, batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada, a gaiola dourada.
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar o passarinho
mudo, arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorgeando a sua dor exalam, sem que os homens os possam entender.
Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste.
Tenho água fresca num recanto escuro.

Da selva em que nasci; da mata entre os verdores,
tenho frutos e flores, sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde, construído de folhas secas, plácido, e escondido.

Entre os galhos das árvores amigas...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde, entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...

QUERO VOAR! VOAR!..."

Estas coisas o pássaro diria, se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição.
E a tua mão, tremendo, lhe abriria a porta da prisão...
Olavo Bilac




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