Quatro graves e um agudo, agudíssimo e eu com vontade de matar passarinho.
Confesso que quando os 15 homens da prefeitura vieram cortar uma árvore velha e podre em frente ao prédio, não pensei nem na árvore, nem no podre e nem na velha. Pensei apenas: nesse ano não vai ter sabiá. Ledo engano.
Os putos começam a cantoria à partir das 3:00 da manhã e vão até o raiar do dia. Durante o concerto, você dá mil voltas na cama até virar uma múmia presa entre os lençóis e quando o dia clareia você se levanta sem ter dormido. O concerto já não tem mais conserto.
Conheço já toda a partitura desse estridente coral insuportável. A abertura do festival de dá por volta de final de julho começo de agosto; primeiro são as aulas de treino - pi-pi-pi-piiiiiii (e não sai disso), são os filhotinhos aprendendo a tornarem-se adultos pentelhos. Essa afinação do coro vai até final de agosto/setembro. Em outubro a coisa bomba, se esgoelam durante a madrugada toda.
Às 6:33 do dia 20 de outubro de 2017 a rua, finalmente, está no maior silêncio. Foram descansar ou voar por aí depois de terem acordado meia cidade.
Quem disser que a culpa é da cidade que invadiu o território dos pássaros, gostaria de lembrar que essa anciã metrópole já completou mais de quatro séculos. E que nem sempre foi assim. Observo esse surto acontecendo de uns oito anos para cá. Algo aconteceu cuja explicação não tenho, provocando assustadoramente o aumento da espécie, acarretando esse esquizofrenia aviária (ou a minha...ainda não sei...), que endoidece com a iluminação excessiva da cidade, pensando que é dia. Outra explicação que ouvi é que teria aumentado muito o número de árvores frutíferas na cidade atraindo os pássaros. Sei lá.
Só sei de uma coisa: isso não é um pássaro. Isso é um passaralho!
Procurei a imagem de uma sabiá e me apareceu essa aí em cima... fazer o quê?
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
batata e sexo
Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão
menininha quando dorme
põe a mão no coração
Pra você era assim? Agora que tudo mudou não é mais.
Nessa semana tive uma decepção com a inocência da batatinha da minha infância, diante de um episódio de fúria alimentar. Abasteci minha bandeja de milk shake crocante (tive dificuldade em escolher o sabor diante da variedade que eu nem sabia que existia), hamburguer e a dita batatinha.
Como a gente gosta de um auto engano, resolvi tirar os óculos para comer para não ver o que estava comendo. Achei que assim me livraria desse prazer trash. E da culpa.
Faz tempo que o mundo vive uma sexualização exacerbada para vender produtos que você acha que não justificaria aquele peito ou aquela bunda no contexto. Os comerciais de cerveja há muito não vendem cerveja. Pelo tom das propagandas, até parece que o produto não é consumido por mulheres, pois a exuberância das formas ali escancaradas tendem a agradar um público masculino. Arrisco dizer que as mulheres já bebem tanta cerveja quanto os homens. Porém, nenhum comercial arriscaria colocar uns gostosões para desfilarem seus bícipes e abdomens bem trabalhados por medo de perder espaço comercial, onde a grosso modo, ainda se procura agradar e perpetuar a visão masculina nessa sociedade constituída abaixo da linha dos trópicos. Isso para não dizer que o mundo brasileiro ainda é extremamente machista, e a mídia continua no seu papel de agradar mercado explorando o tão bem aceito sexismo feminino.
Desconfio que tanto erotismo está ligado a uma falta de prazer. Prazer em fazer o que gosta; prazer em ter o corpo que se tem; prazer em ter gostos e aptidões particulares à partir de uma demanda escolhida pelo sujeito e não desejos empurrados goela abaixo; prazer em viajar para um lugar que ainda não foi vendido turisticamente; prazer do encontro com o outro.
Desconfio, também, que o próximo esteja, também, muito distante.
Terminado meu lauto prazer, decidi botar os óculos para recolher minhas coisas. A caixinha da batatinha que devorei com prazer incomensurável, trazia um curioso enunciado grafado em letras vermelhas: "me joga no molho e me chama de gostosa"... Nessa tarde, no meio da praça de alimentação, me senti uma lagartixa.
Até tú, batatinha?
menininha quando dorme
põe a mão no coração
Pra você era assim? Agora que tudo mudou não é mais.
Nessa semana tive uma decepção com a inocência da batatinha da minha infância, diante de um episódio de fúria alimentar. Abasteci minha bandeja de milk shake crocante (tive dificuldade em escolher o sabor diante da variedade que eu nem sabia que existia), hamburguer e a dita batatinha.
Como a gente gosta de um auto engano, resolvi tirar os óculos para comer para não ver o que estava comendo. Achei que assim me livraria desse prazer trash. E da culpa.
Faz tempo que o mundo vive uma sexualização exacerbada para vender produtos que você acha que não justificaria aquele peito ou aquela bunda no contexto. Os comerciais de cerveja há muito não vendem cerveja. Pelo tom das propagandas, até parece que o produto não é consumido por mulheres, pois a exuberância das formas ali escancaradas tendem a agradar um público masculino. Arrisco dizer que as mulheres já bebem tanta cerveja quanto os homens. Porém, nenhum comercial arriscaria colocar uns gostosões para desfilarem seus bícipes e abdomens bem trabalhados por medo de perder espaço comercial, onde a grosso modo, ainda se procura agradar e perpetuar a visão masculina nessa sociedade constituída abaixo da linha dos trópicos. Isso para não dizer que o mundo brasileiro ainda é extremamente machista, e a mídia continua no seu papel de agradar mercado explorando o tão bem aceito sexismo feminino.
Desconfio que tanto erotismo está ligado a uma falta de prazer. Prazer em fazer o que gosta; prazer em ter o corpo que se tem; prazer em ter gostos e aptidões particulares à partir de uma demanda escolhida pelo sujeito e não desejos empurrados goela abaixo; prazer em viajar para um lugar que ainda não foi vendido turisticamente; prazer do encontro com o outro.
Desconfio, também, que o próximo esteja, também, muito distante.
Terminado meu lauto prazer, decidi botar os óculos para recolher minhas coisas. A caixinha da batatinha que devorei com prazer incomensurável, trazia um curioso enunciado grafado em letras vermelhas: "me joga no molho e me chama de gostosa"... Nessa tarde, no meio da praça de alimentação, me senti uma lagartixa.
Até tú, batatinha?
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Onde a primeira vez meus olhos viram o mundo. Os cafezais, a escolinha para os filhos dos colonos, a professora. A boneca da minha irmã que andava e fa-la-va. A égua Brigitte do meu irmão, uma inocente homenagem para Bardot. Os homens de botas até os joelhos, chapéu, cavalo, esporas. As moças roubadas durante a noite e fugidas para casar. A profusão de parentes, onde todo mundo era primo, primo irmão, de primeiro, de segundo grau, num confusão de prole onde de vez em quando nascia um meio bobo ou muito louco. O medo da minha mãe que se trancava em casa com todas as crianças antes do por do sol. Os espelhos cobertos nas horas de tempestades. A raposa que vinha de noite comer os pintos. O pé de sapoti plantando pelo meus pais depois do casamento (e que sobrevive até hoje). O por sol do sol na frente da casa. O açude onde moram as sucuris. As jabuticabeiras, as mangueiras, o tamarindeiro imenso. As galinhas d`angola, o porco criado de a meia. A cascavel enroscada no pé de mandioca. O poço d`água, com gosto de água de verdade. O azulejo azul da cozinha, o armário com cheiro de madeira. O cheiro de leite fervido. A manteiga feita em casa. Uma tia que ninguém teve: tia Nina. A cerca de pau a pique rodeando a casa, os pés de coco que meu pai nunca parou de plantar. Os cavalos do meu pai, sempre com nome de carta de baralho, Valete, Sete de Ouro. As conversas dele com as vacas e os apelidos dos rebentos mais feios. O "cumpadre" Chico, com uma penca de filhos, pra quem não adiantava ter frio porque não tinha paletó pra vestir. O benzedô que curava as feridas dos bois e fazia as cobras aparecerem. O buraco grande no quintal, onde tudo virava cinzas. A vaca lambendo o potássio da árvore queimada. As noites com lampiões, os banhos de bacia. Os dias de lidar com porco e os dias de se fazer pamonha. As chuvas, o cheiro de terra molhada, as doenças infantis e o choro que me acometeram quando fomos embora de lá e de onde fui me mudando cada vez mais um pouco mais pra longe. O gosto que me dá caminhar sozinha pelo pomar e ouvir de novo o silêncio que ele ainda me tráz.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
sou tudo o que fiz de mim.
sou parte de todos os livros que li
dos filmes que vi
das viagens por onde fui
da pessoas que encontrei
dos foras que levei
sou parte de mim
na coisas que que não foram existenciadas
pela falta de tempo
pela falta de oportunidade (que eu mesma criei).
sou parte de mim no que resta de minhas estórias,
e fala pelas minhas memórias.
a parte de mim,
à parte.
o dito virou palavra
o calado virou nuvem,
e fez chover, chover, chover.
sou quem amei
outra parte de mim
é saudade.
sou parte de todos os livros que li
dos filmes que vi
das viagens por onde fui
da pessoas que encontrei
dos foras que levei
sou parte de mim
na coisas que que não foram existenciadas
pela falta de tempo
pela falta de oportunidade (que eu mesma criei).
sou parte de mim no que resta de minhas estórias,
e fala pelas minhas memórias.
a parte de mim,
à parte.
o dito virou palavra
o calado virou nuvem,
e fez chover, chover, chover.
sou quem amei
outra parte de mim
é saudade.
domingo, 23 de julho de 2017
Domingo é dia de missa
Minha ideia de Deus nasceu de muitas coisas que aconteciam dentro da minha casa, do que era
capaz de observar com um metro e dez de distância entre os meus pés e o fim de minha cabeça. Deus morava bem acima da minha cabeça, lá no céus, bem no alto, e quanto mais azul estava o dia, mais morada tinha para Deus.
Ouvia agradecimentos fervorosos das empregadas da casa, daí minha ideia de que os pobres são dotados de uma fé singela que os aproximam de uma criança. Minha tia solteira agarrava-se com o terço, e quanto mais brava a coisa ficasse mais orações tinha pela casa. Meu pai dizia que se ela rezava tanto é porque tinha pouca fé em Deus, então daí, isso vindo do meu grande Outro falando do Outro foi dando-me a ideia de que rezar demais também poderia ser pecado. Minha mãe nunca foi de carolices, nunca foi de missa, de padre, mas tinha um jeito especial de praticar a sua fé, cuidando da casa, das panelas e dos muitos filhos.
Éramos quatro meninas em casa (a caçula não nos acompanhava), numa cidade pequena que não nos oferecia nada além do que festas religiosas e missas dominicais. Aos domingos vestíamos nossas melhores roupas e íamos religiosamente à missa, somente as crianças, sem a presença ou interdição dos pais. Íamos porque determinamos que assim fosse e pronto. Confessávamos nossos pecados infantis diretamente com o representante de Deus, em dia com hora marcada para receber o perdão de nossas agruras. Eu ia para esses encontros fazendo uma lista mental dos meus pecados da semana, é óbvio que não me ocorria nada para dizer ao Padre através daquela treliça de madeira, além de ter desobedecido minha mãe, nada mais sobrava para contar. Rezava uns Creio em Deus Pai e perdoada poderia comungar no domingo. Tinha que fazer um esforço enorme para não morder o corpo de Cristo. Minha irmã sempre me cutucava para que eu tomasse cuidado com os dentes. Eu adorava hóstia, sempre fui uma criança faminta e às dez da manhã, em jejum, com o corpo de Cristo na boca, salivava crucialmente.
Uma vez tive uma crise de soluço, talvez por conta do jejum prolongado, em plena missa. Essa mesma irmã mais velha sugeriu que eu abrisse a boca bem aberta para que o soluço cessasse. Saiu de minha garganta, bem na hora do silêncio missal, um coisa estridente parecida com um grito, presumo até hoje, que toda a igreja tenha me ouvido, fiquei morta de raiva da minha irmã, envolvi-me com a ira e fui aprendendo que não se deve confiar em irmãs mais velhas.
Com o fim da missa começava a subir a rua de casa, louca para me desfazer do vestido e dos sapatos de verniz. Nosso prato de domingo era macarrão como frango caipira, eu salivava de novo ao entrar em casa, cometendo mais um pecado capital. A comida da minha mãe sempre foi dos deuses, eu era apenas uma mortal, estava perdoada.
Brincávamos soltas pelas ruas, embora fosse um tempo em que a casa do Pai ficasse sempre de portas abertas, éramos proibidas por nossa mãe de entrarmos sozinhas no templo. Ela não dizia porque, nem se explicava com todas as letras, mas ouvíamos aqui e ali em conversas esparsas sobre tarados e coisas do genero. Brincar no fundo da igreja também era proibido. Tinha um homem meio louco que ficava ali atrás capinando, que corria atrás dos moleques e furava as bolas de futebol caídas em seus domínios, sem dó nem piedade. Era um neurótico de guerra que virou soldado de Deus, cuja missão era salvaguardar a casa do pai ameaçada por crianças que brincavam na rua.
Eu sempre tive pânico de defunto. Um dia me colocaram diante do Jesus morto, um homem em tamanho original, de tanga, com uma coroa de espinho na cabeça, respingado de sangue, com feridas pelo corpo, dentro de um caixão de vidro transparente. Eu não gritei porque ali era lugar de fazer silêncio absoluto, minhas pernas travaram de tal forma que não conseguia me mexer. Fui arrastada dali com explosões de risos que surgiram do lado de fora da rua.
Aprendi a missa de cor. É incrível que ainda a saiba passados mais de quarenta anos sem frequentá-las. Foi bom ter aprendido a rezar, precisei fazê-lo em muitas etapas da minha vida. Lembro-me de quando a desgraça se abateu sobre a minha família, eu já não era mais criança, contava com 20 anos, mas a coisa era duma dimensão inaceitável que somente olhando para o infinito poderia encontrar alguma explicação para o ocorrido. Nesses dias que foram de imensa negritude, uma vizinha vinha até a nossa casa por volta das seis da tarde, ajoelhávamos em volta da cama dos meus pais, dávamos a mãos e rezávamos com ela. Ao final ela dizia algumas palavras que lhe vinham espontaneamente, confortávamo-nos, era único momento de serenidade do dia, mesmo que depois eu continuasse sem dormir de noite ou se dormisse era acometida de pesadelos horríveis.
Quando minha irmã caçula esteve na UTI, com 30% de possibilidade de sobreviver, entrei num parafuso tal que me ocorreu ir à missa. Era um fim de tarde de domingo. Eu nunca tinha entrado numa UTI, de forma que para mim essas visitas eram de muita dor. Ao final da missa procurei o Padre, ele me ouviu em silêncio, não me disse nada, o momento era de não palavras. Untou minhas mãos com óleo, recomendou que no momento em que estivesse com a minha irmã lhe fizesse uma prece com as mãos untadas acima de sua cabeça. No dia seguinte tive a notícia de que ela seria transferida para o quarto. Precisei olhar para o céu.
Tenho cá para mim que a imagem, ideia, devoção ou seja lá como queiram chamar, essa memória de Deus vem da infância. É através dos ritos, da religiosidade que apreendemos que vamos desenhar um Deus dentro de nós. Talvez por isso me torne tão estranho que se matem ou matem em nome de um Deus. Estranho também, que muitos precisem viver uma experiência individual num estado permanentemente coletivo e que tantas igrejas, com as mais variada oferta de fé tenham sido edificadas pelo homem, que ao me ver, podem funcionar muito mais como prisão do que a suposta liberdade que anunciam. Só há um lugar onde a liberdade é possível: dentro de si, através das memórias que inventamos.
capaz de observar com um metro e dez de distância entre os meus pés e o fim de minha cabeça. Deus morava bem acima da minha cabeça, lá no céus, bem no alto, e quanto mais azul estava o dia, mais morada tinha para Deus.
Ouvia agradecimentos fervorosos das empregadas da casa, daí minha ideia de que os pobres são dotados de uma fé singela que os aproximam de uma criança. Minha tia solteira agarrava-se com o terço, e quanto mais brava a coisa ficasse mais orações tinha pela casa. Meu pai dizia que se ela rezava tanto é porque tinha pouca fé em Deus, então daí, isso vindo do meu grande Outro falando do Outro foi dando-me a ideia de que rezar demais também poderia ser pecado. Minha mãe nunca foi de carolices, nunca foi de missa, de padre, mas tinha um jeito especial de praticar a sua fé, cuidando da casa, das panelas e dos muitos filhos.
Éramos quatro meninas em casa (a caçula não nos acompanhava), numa cidade pequena que não nos oferecia nada além do que festas religiosas e missas dominicais. Aos domingos vestíamos nossas melhores roupas e íamos religiosamente à missa, somente as crianças, sem a presença ou interdição dos pais. Íamos porque determinamos que assim fosse e pronto. Confessávamos nossos pecados infantis diretamente com o representante de Deus, em dia com hora marcada para receber o perdão de nossas agruras. Eu ia para esses encontros fazendo uma lista mental dos meus pecados da semana, é óbvio que não me ocorria nada para dizer ao Padre através daquela treliça de madeira, além de ter desobedecido minha mãe, nada mais sobrava para contar. Rezava uns Creio em Deus Pai e perdoada poderia comungar no domingo. Tinha que fazer um esforço enorme para não morder o corpo de Cristo. Minha irmã sempre me cutucava para que eu tomasse cuidado com os dentes. Eu adorava hóstia, sempre fui uma criança faminta e às dez da manhã, em jejum, com o corpo de Cristo na boca, salivava crucialmente.
Uma vez tive uma crise de soluço, talvez por conta do jejum prolongado, em plena missa. Essa mesma irmã mais velha sugeriu que eu abrisse a boca bem aberta para que o soluço cessasse. Saiu de minha garganta, bem na hora do silêncio missal, um coisa estridente parecida com um grito, presumo até hoje, que toda a igreja tenha me ouvido, fiquei morta de raiva da minha irmã, envolvi-me com a ira e fui aprendendo que não se deve confiar em irmãs mais velhas.
Com o fim da missa começava a subir a rua de casa, louca para me desfazer do vestido e dos sapatos de verniz. Nosso prato de domingo era macarrão como frango caipira, eu salivava de novo ao entrar em casa, cometendo mais um pecado capital. A comida da minha mãe sempre foi dos deuses, eu era apenas uma mortal, estava perdoada.
Brincávamos soltas pelas ruas, embora fosse um tempo em que a casa do Pai ficasse sempre de portas abertas, éramos proibidas por nossa mãe de entrarmos sozinhas no templo. Ela não dizia porque, nem se explicava com todas as letras, mas ouvíamos aqui e ali em conversas esparsas sobre tarados e coisas do genero. Brincar no fundo da igreja também era proibido. Tinha um homem meio louco que ficava ali atrás capinando, que corria atrás dos moleques e furava as bolas de futebol caídas em seus domínios, sem dó nem piedade. Era um neurótico de guerra que virou soldado de Deus, cuja missão era salvaguardar a casa do pai ameaçada por crianças que brincavam na rua.
Eu sempre tive pânico de defunto. Um dia me colocaram diante do Jesus morto, um homem em tamanho original, de tanga, com uma coroa de espinho na cabeça, respingado de sangue, com feridas pelo corpo, dentro de um caixão de vidro transparente. Eu não gritei porque ali era lugar de fazer silêncio absoluto, minhas pernas travaram de tal forma que não conseguia me mexer. Fui arrastada dali com explosões de risos que surgiram do lado de fora da rua.
Aprendi a missa de cor. É incrível que ainda a saiba passados mais de quarenta anos sem frequentá-las. Foi bom ter aprendido a rezar, precisei fazê-lo em muitas etapas da minha vida. Lembro-me de quando a desgraça se abateu sobre a minha família, eu já não era mais criança, contava com 20 anos, mas a coisa era duma dimensão inaceitável que somente olhando para o infinito poderia encontrar alguma explicação para o ocorrido. Nesses dias que foram de imensa negritude, uma vizinha vinha até a nossa casa por volta das seis da tarde, ajoelhávamos em volta da cama dos meus pais, dávamos a mãos e rezávamos com ela. Ao final ela dizia algumas palavras que lhe vinham espontaneamente, confortávamo-nos, era único momento de serenidade do dia, mesmo que depois eu continuasse sem dormir de noite ou se dormisse era acometida de pesadelos horríveis.
Quando minha irmã caçula esteve na UTI, com 30% de possibilidade de sobreviver, entrei num parafuso tal que me ocorreu ir à missa. Era um fim de tarde de domingo. Eu nunca tinha entrado numa UTI, de forma que para mim essas visitas eram de muita dor. Ao final da missa procurei o Padre, ele me ouviu em silêncio, não me disse nada, o momento era de não palavras. Untou minhas mãos com óleo, recomendou que no momento em que estivesse com a minha irmã lhe fizesse uma prece com as mãos untadas acima de sua cabeça. No dia seguinte tive a notícia de que ela seria transferida para o quarto. Precisei olhar para o céu.
Tenho cá para mim que a imagem, ideia, devoção ou seja lá como queiram chamar, essa memória de Deus vem da infância. É através dos ritos, da religiosidade que apreendemos que vamos desenhar um Deus dentro de nós. Talvez por isso me torne tão estranho que se matem ou matem em nome de um Deus. Estranho também, que muitos precisem viver uma experiência individual num estado permanentemente coletivo e que tantas igrejas, com as mais variada oferta de fé tenham sido edificadas pelo homem, que ao me ver, podem funcionar muito mais como prisão do que a suposta liberdade que anunciam. Só há um lugar onde a liberdade é possível: dentro de si, através das memórias que inventamos.
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”
Leandro Gomes de Barros
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”
Leandro Gomes de Barros
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Um gênio chamado Dostoiévski
Nunca gostei de pensamentos reducionistas. Talvez pela inconstância de meus próprios pensamentos, talvez por uma inquietação da alma que não permite ser compartimentalizada (isso não é exclusividade de minha alma, mas também da sua). A diferença é que algumas pessoas se dão conta disso, enquanto outras passam a vida sem perceber essa fato como um incômodo.
Tenho cá pra mim, que uma hora ou outra é sempre disso que a vida vai tratar, quer a gente queira quer repudie, o incômodo vem nos fazer uma visita. E visitas vocês sabem bem como funcionam... depois de alguns dias a coisa não fica tão bem, os abraços das partidas não são os mesmos das chegadas.
Voltando ao reducionismo, talvez por essa questão, não tenha me atido a uma só profissão ou a uma única área do conhecimento humano. Fiz vários cursos, desde os manuais, adoro ferramentas, sei usar algumas e gostaria de fazer uso de outras. Meu filho quando tinha uns cinco anos de idade me chamava de Pereirão, quem assistiu a novela sabe do que estou falando. Sempre gostei de temas relacionados com saúde, cuidados. Desde acupuntura auricular até minha formação em psicanálise foi um percurso, entremeado com venda de sapatos, construções, reformas, juntar contas em colares, desenvolver algumas coleções de moda, advogar em causa própria toda as vezes em que surgiam interesses contrariados, vender imóveis, estudar, mediar e conciliar conflitos, botar em curso um projeto social acalentado por anos, cozinhar, fizeram parte de minha trajetória, além de outras coisas que como diz uma amiga, vai com calma que o curriculum é extenso.
Religiões, seitas, ervas medicinais também visitei muitas e nunca consegui me ater ou me dedicar completamente a nenhuma delas, pois não posso acreditar que uma forma de rezar possa excluir outra, nem que toda erva tomada em doses equivocadas não acabe virando veneno.
Partido político então nem se fale. Acho tudo isso uma forma de criar igrejas, as pessoas botam um bíblia em baixo do braço e saem fazendo proselitismo. Mais chato do que Crente tocando sua campainha às sete da manhã num domingo sonolento.
Por isso tudo nunca frequentei fãs clubes, nunca me envolvi em histerias coletivas, não tenho ídolos ou heróis, admiro algumas personalidades bem de longe para que elas nunca percam seus encantos aos meus olhos e continuem alimentando a minha alma.
Contesto muitas formas de amor e idolatria, o ser humano é muito confuso na formação de seus vínculos e muito do que parece ser acaba não sendo. O que poderiam ser laços acabam virando rompimentos de difícil cerzidura. Muitos se amarguram irremediavelmente por conta de terem exaurido a forças de suas paixões queimando já na largada o que poderia tornar-se uma relação mutuamente satisfatória, onde ambos não precisam fazer qualquer tipo de concessões, apenas trocas.
Time de futebol não tenho, faço questão de não entender o jogo. Um país que precisa falar tanto de futebol, ter tantos noticiários esportivos, tantos campeonatos, está querendo esconder alguma coisa. Se falássemos tanto de livros quanto se fala de futebol certamente não estaríamos tomando de 7x1 há cinco séculos.
A única coisa que me fascina verdadeiramente é o ser humano com todas as suas vertentes. Uma vida ou qualquer outra análise onde o ser humano não esteja presente não é capaz de me cativar. Reduzir o indivíduo, encarcerá-lo numa teoria, aprisioná-lo em paradigmas, enclausurá-lo em dogmas, cercá-lo por muros, assaltá-lo com certezas, não deixar que ele pense, explicá-lo, conclui-lo é o mesmo que matá-lo sem lhe dar qualquer possibilidade de eternidade. Por isso muitos não legam nada, não contam ou deixam estórias, passam pela vida tentando reduzi-la a alguns poucos e pobres processos que visam a sociabilidade sem incômodos. É bom que se preste atenção na sociedade medicamentalizada que estão nos oferecendo, nas formulações imediatistas de felicidade vendida por atacado, nas estéticas culturais que tem sido instrumentalizadas pelo poder midiático, na romantização de algumas temas tratados com total falta de responsabilidade, na ignorância frívola das embalagens e principalmente e acima de tudo no senso comum, que nada mais são do que fórmulas reducionistas de impedir que a criatividade e a originalidade surjam, numa maneira de criar um ser humano adequado porém repleto de sintomas, desgastado por angústias e amargurado por desejos refugiados.
“A vida não é suave com as pessoas e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde do que anda a pé.” Dostoiévski
Tenho cá pra mim, que uma hora ou outra é sempre disso que a vida vai tratar, quer a gente queira quer repudie, o incômodo vem nos fazer uma visita. E visitas vocês sabem bem como funcionam... depois de alguns dias a coisa não fica tão bem, os abraços das partidas não são os mesmos das chegadas.
Voltando ao reducionismo, talvez por essa questão, não tenha me atido a uma só profissão ou a uma única área do conhecimento humano. Fiz vários cursos, desde os manuais, adoro ferramentas, sei usar algumas e gostaria de fazer uso de outras. Meu filho quando tinha uns cinco anos de idade me chamava de Pereirão, quem assistiu a novela sabe do que estou falando. Sempre gostei de temas relacionados com saúde, cuidados. Desde acupuntura auricular até minha formação em psicanálise foi um percurso, entremeado com venda de sapatos, construções, reformas, juntar contas em colares, desenvolver algumas coleções de moda, advogar em causa própria toda as vezes em que surgiam interesses contrariados, vender imóveis, estudar, mediar e conciliar conflitos, botar em curso um projeto social acalentado por anos, cozinhar, fizeram parte de minha trajetória, além de outras coisas que como diz uma amiga, vai com calma que o curriculum é extenso.
Religiões, seitas, ervas medicinais também visitei muitas e nunca consegui me ater ou me dedicar completamente a nenhuma delas, pois não posso acreditar que uma forma de rezar possa excluir outra, nem que toda erva tomada em doses equivocadas não acabe virando veneno.
Partido político então nem se fale. Acho tudo isso uma forma de criar igrejas, as pessoas botam um bíblia em baixo do braço e saem fazendo proselitismo. Mais chato do que Crente tocando sua campainha às sete da manhã num domingo sonolento.
Por isso tudo nunca frequentei fãs clubes, nunca me envolvi em histerias coletivas, não tenho ídolos ou heróis, admiro algumas personalidades bem de longe para que elas nunca percam seus encantos aos meus olhos e continuem alimentando a minha alma.
Contesto muitas formas de amor e idolatria, o ser humano é muito confuso na formação de seus vínculos e muito do que parece ser acaba não sendo. O que poderiam ser laços acabam virando rompimentos de difícil cerzidura. Muitos se amarguram irremediavelmente por conta de terem exaurido a forças de suas paixões queimando já na largada o que poderia tornar-se uma relação mutuamente satisfatória, onde ambos não precisam fazer qualquer tipo de concessões, apenas trocas.
Time de futebol não tenho, faço questão de não entender o jogo. Um país que precisa falar tanto de futebol, ter tantos noticiários esportivos, tantos campeonatos, está querendo esconder alguma coisa. Se falássemos tanto de livros quanto se fala de futebol certamente não estaríamos tomando de 7x1 há cinco séculos.
A única coisa que me fascina verdadeiramente é o ser humano com todas as suas vertentes. Uma vida ou qualquer outra análise onde o ser humano não esteja presente não é capaz de me cativar. Reduzir o indivíduo, encarcerá-lo numa teoria, aprisioná-lo em paradigmas, enclausurá-lo em dogmas, cercá-lo por muros, assaltá-lo com certezas, não deixar que ele pense, explicá-lo, conclui-lo é o mesmo que matá-lo sem lhe dar qualquer possibilidade de eternidade. Por isso muitos não legam nada, não contam ou deixam estórias, passam pela vida tentando reduzi-la a alguns poucos e pobres processos que visam a sociabilidade sem incômodos. É bom que se preste atenção na sociedade medicamentalizada que estão nos oferecendo, nas formulações imediatistas de felicidade vendida por atacado, nas estéticas culturais que tem sido instrumentalizadas pelo poder midiático, na romantização de algumas temas tratados com total falta de responsabilidade, na ignorância frívola das embalagens e principalmente e acima de tudo no senso comum, que nada mais são do que fórmulas reducionistas de impedir que a criatividade e a originalidade surjam, numa maneira de criar um ser humano adequado porém repleto de sintomas, desgastado por angústias e amargurado por desejos refugiados.
“A vida não é suave com as pessoas e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde do que anda a pé.” Dostoiévski
terça-feira, 23 de maio de 2017
Morar na roça
Ele queria chegar até a vila mas não pela estrada. Tinha que ser pelo meio do pasto, atravessando o rio, pulando a cerca. Para não contrariar e porque ele nunca tem tempo de vir comigo, aceitei sem regatear as suas condições. As vacas para mim não são animais sagrados. Elas me olham com uma cara de muito pouco caso enquanto mascam. Meus sapatos não são adequados, não gosto de pisar onde não vejo, com o capim até o joelho fica fácil pisar numa víbora adormecida. Elas são meu objeto de terror. Seguíamos e o dia quase indo. Quando penso que já tinha deixado para trás as cobras, o rio, as vacas, começo a ouvir latidos. Muitos latidos e cada vez mais próximo. Ele me diz que tem um sitio por onde temos que passar que tem muitos cachorros. Nessa hora estive ao ponto de cometer um infanticídio. Para que não me arrependesse de tê-lo matado, imaginei que pudesse subir em alguma daquelas árvores e ele que se virasse para ir na frente, chamar alguém para me resgatar. Diante dessa impossibilidade e julgando a possibilidade de ter que passar a noite enroscada numa árvore, cruzei os dedos em figa como fazia quanto criança na presença de cachorros, repetindo mentalmente "são-roque/são-roque/são-roque" e atravessamos os cães.
Liberta, começamos a conversar. Passou alguém a cavalo tocando uma vaca e ele me pergunta como era possível alguém pode viver num lugar daqueles, acordando e fazendo todos os dias as mesmas coisas, sem nunca ter saído dali para conhecer um outro mundo? Sugeri que quando encontrasse mais alguém pela estrada, fizesse essa pergunta. Mas que fosse sútil. Que começasse uma conversa pelas beiradas, puxando assunto devagar, de um jeito que parece que não sabemos mais como fazê-lo.
Não demorou muito e apareceu um cachorro preto, logo atrás com passos lentos uma senhora de banho recém tomado, dava pra sentir o cheiro de sabonete misturado com roupa lavada e secada ao sol. Estava agasalhada, ali sempre faz um friozinho. Falamos primeiro com o cachorro. Chamava-se "Negrinho". Ela começou contando que ele estava sem pelos nas ancas porque alguém fez a "mardade" de jogar água fervendo nele. Que ficou muito queimado e ela com pena do bicho começou a cuidar dele, passando pomada com cinza de fogão à lenha e assim ele foi se fazendo dela. Agora, num larga mais dela de jeito nenhum. Onde ela vai o Negrinho vai atrás. Depois apontou a casa onde morava, falou dos filhos que tinham ido embora pra cidade, do neto que aparecia nas férias. Por fim veio a pergunta, se gostava de morar ali? Vixe Maria! Nasceu e morou ali a vida toda. Teve um ano em que os filhos quiseram levá-la pra cidade, ela foi. Acabou adoecendo e teve que voltar. Ali, era bom demais porque era sussegadinho.
Convidou para ir passear na casa dela qualquer dia desses. Despediu-se com um "Deus acompanhe" e foi caminhando atrás do Negrinho.
Nós dois continuamos nossa volta para a casa, morro acima, dessa vez pela estrada de terra. Ali, o cachorro pode ser chamado de "Negrinho" sem que ninguém pense em fazer um boletim de ocorrência por preconceito em relação a uma etnia inteira. Ali existem algumas outras coisas que estão além e aquém de normatizações sociais. Existe um tipo de sabedoria de quem trabalha a terra e sabe como lhe é difícil tirar frutos se não existir uma dose generosa de paciência, resignação e amor. Ali, existe uma forma de viver onde o mundo intelectualizado não consegue adentrar, porque está tão saturado de hipóteses, percepções teóricas, onde o ser humano passa a ser invisível por falta de uma tese que o acompanhe.
Não dissemos mais nada sobre isso. Não sei se João teve a resposta que procurava, se percebeu esse momento ou se ainda é muito jovem para entender o que os velhos dizem. Todos precisamos de um tempo para viver, perceber, e é bom que isso venha aos poucos, sussegadinho, para que a gente não tenha pressa em "contrariar" a natureza.
Liberta, começamos a conversar. Passou alguém a cavalo tocando uma vaca e ele me pergunta como era possível alguém pode viver num lugar daqueles, acordando e fazendo todos os dias as mesmas coisas, sem nunca ter saído dali para conhecer um outro mundo? Sugeri que quando encontrasse mais alguém pela estrada, fizesse essa pergunta. Mas que fosse sútil. Que começasse uma conversa pelas beiradas, puxando assunto devagar, de um jeito que parece que não sabemos mais como fazê-lo.
Não demorou muito e apareceu um cachorro preto, logo atrás com passos lentos uma senhora de banho recém tomado, dava pra sentir o cheiro de sabonete misturado com roupa lavada e secada ao sol. Estava agasalhada, ali sempre faz um friozinho. Falamos primeiro com o cachorro. Chamava-se "Negrinho". Ela começou contando que ele estava sem pelos nas ancas porque alguém fez a "mardade" de jogar água fervendo nele. Que ficou muito queimado e ela com pena do bicho começou a cuidar dele, passando pomada com cinza de fogão à lenha e assim ele foi se fazendo dela. Agora, num larga mais dela de jeito nenhum. Onde ela vai o Negrinho vai atrás. Depois apontou a casa onde morava, falou dos filhos que tinham ido embora pra cidade, do neto que aparecia nas férias. Por fim veio a pergunta, se gostava de morar ali? Vixe Maria! Nasceu e morou ali a vida toda. Teve um ano em que os filhos quiseram levá-la pra cidade, ela foi. Acabou adoecendo e teve que voltar. Ali, era bom demais porque era sussegadinho.
Convidou para ir passear na casa dela qualquer dia desses. Despediu-se com um "Deus acompanhe" e foi caminhando atrás do Negrinho.
Nós dois continuamos nossa volta para a casa, morro acima, dessa vez pela estrada de terra. Ali, o cachorro pode ser chamado de "Negrinho" sem que ninguém pense em fazer um boletim de ocorrência por preconceito em relação a uma etnia inteira. Ali existem algumas outras coisas que estão além e aquém de normatizações sociais. Existe um tipo de sabedoria de quem trabalha a terra e sabe como lhe é difícil tirar frutos se não existir uma dose generosa de paciência, resignação e amor. Ali, existe uma forma de viver onde o mundo intelectualizado não consegue adentrar, porque está tão saturado de hipóteses, percepções teóricas, onde o ser humano passa a ser invisível por falta de uma tese que o acompanhe.
Não dissemos mais nada sobre isso. Não sei se João teve a resposta que procurava, se percebeu esse momento ou se ainda é muito jovem para entender o que os velhos dizem. Todos precisamos de um tempo para viver, perceber, e é bom que isso venha aos poucos, sussegadinho, para que a gente não tenha pressa em "contrariar" a natureza.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
conhecer alguém
Conhecer alguém é algo para mim tão difícil de assimilar quanto compreender o contexto dessa simples frase. Que na verdade não tem nada de simples. Carrega em si algo tão vorazmente detentor de conhecimento como requer um certo semideusismo para atingir tão prodigioso feito.
Sou atacada também por essa dúvida quando ouço mães dizendo que conhecem os próprios filhos.
Eu não conheço o meu. Conheço dele algumas particularidades, nunca vou saber de fato como ele é com amigos, como dança numa balada, como dá seus passos na direção de outrem, quais são seus verdadeiros medos, inseguranças, por onde irá conduzir-se e retroceder tantas vezes quantas necessárias nessa vasta vida.
De suas particularidade lembro-me de uma que me era bastante útil para não perdê-lo de vista na praia. Mar para mim é para olhar. Eu não queira que ele tivesse esse sentimento diante das imensidões, por isso, quando me pedia para entrar na água, eu ficava na areia observando-o. De repente a praia começava a encher, as crianças ficam diminutas na água, como ele não é nenhum nórdico, ficava confundido com tantas outras cabecinhas de cabelos escuros. Sempre pensava porque ainda não tinham inventado um protetor com cores fluorescentes para que eu pudesse distingui-lo no meio da multidão. Ele tinha um jeito (e tem até hoje) de limpar a água dos olhos. Virava os dois punhos para dentro, abria os cotovelos em asas, espalmava os dedos abertos sobre a testa e passava a se livrar do sal no olhos. Era por esse movimento, por essa particularidade, que eu conseguia não perdê-lo de vista diante de imensidões.
Com o tempo ele foi adquirindo outras tantas particularidades. Agora, recém saído da adolescência me parece que outras tantas conheçam a surgir, sempre com caráter transitório, mudando ao sabor do dinamismo dos movimentos que a vida faz, nessa dança que é a nossa existência, onde parece que ao aprender um ritmo, alguém vem e troca a música só para nos fazer aprender um novo jeito de dançar. Tem andado por largas experiências, que bem pouco me dá relato, apenas posso perceber através de nuances de algumas particularidades, ficando com uma leve percepção sobre o homem em que ele está se transformando.
A maternidade vem carregada de muitos mitos sociais que transcendem em grandiosidade de perfeições principalmente nas datas de comemorações dos "dias da mães". O mundo talvez pudesse ser mais simples e os consultórios analíticos menos abarrotados se nos ensinassem desde o berço que tivemos e fomos mães possíveis, nunca mães perfeitas.
Sou atacada também por essa dúvida quando ouço mães dizendo que conhecem os próprios filhos.
Eu não conheço o meu. Conheço dele algumas particularidades, nunca vou saber de fato como ele é com amigos, como dança numa balada, como dá seus passos na direção de outrem, quais são seus verdadeiros medos, inseguranças, por onde irá conduzir-se e retroceder tantas vezes quantas necessárias nessa vasta vida.
De suas particularidade lembro-me de uma que me era bastante útil para não perdê-lo de vista na praia. Mar para mim é para olhar. Eu não queira que ele tivesse esse sentimento diante das imensidões, por isso, quando me pedia para entrar na água, eu ficava na areia observando-o. De repente a praia começava a encher, as crianças ficam diminutas na água, como ele não é nenhum nórdico, ficava confundido com tantas outras cabecinhas de cabelos escuros. Sempre pensava porque ainda não tinham inventado um protetor com cores fluorescentes para que eu pudesse distingui-lo no meio da multidão. Ele tinha um jeito (e tem até hoje) de limpar a água dos olhos. Virava os dois punhos para dentro, abria os cotovelos em asas, espalmava os dedos abertos sobre a testa e passava a se livrar do sal no olhos. Era por esse movimento, por essa particularidade, que eu conseguia não perdê-lo de vista diante de imensidões.
Com o tempo ele foi adquirindo outras tantas particularidades. Agora, recém saído da adolescência me parece que outras tantas conheçam a surgir, sempre com caráter transitório, mudando ao sabor do dinamismo dos movimentos que a vida faz, nessa dança que é a nossa existência, onde parece que ao aprender um ritmo, alguém vem e troca a música só para nos fazer aprender um novo jeito de dançar. Tem andado por largas experiências, que bem pouco me dá relato, apenas posso perceber através de nuances de algumas particularidades, ficando com uma leve percepção sobre o homem em que ele está se transformando.
A maternidade vem carregada de muitos mitos sociais que transcendem em grandiosidade de perfeições principalmente nas datas de comemorações dos "dias da mães". O mundo talvez pudesse ser mais simples e os consultórios analíticos menos abarrotados se nos ensinassem desde o berço que tivemos e fomos mães possíveis, nunca mães perfeitas.
sábado, 4 de março de 2017
Há dias o observava. Na contraluz somente lhe divisava a perfeição dos contornos, cabecinha, duas orelhinhas espetadas para cima, perfeitinhas. Sequer mexia-se. Passava suas manhãs estático a fitar o viveiro de pintinhos. Pelo alto, os passarinho lhe faziam mover apenas o região orbital dos olhos. Certamente esperava crescer e sonhava com o dia em que fosse gato grande e devoraria todos aqueles seres piantes, sem dó nem piedade. Por aquelas paragens ainda não havia aparecido ninguém que quisesse matricular precocemente o gatinho numa escola para aprender a ter respeito ético pelos demais seres viventes. Ou que lhe tentasse impôr limites morais de boa convivência, como por exemplo não matar o próximo, não sofrer de gula. Ninguém ali, por aqueles lados, o diagnosticaria como um perverso. Até porque por ali, psicanálise não chega nem perto do poleiro.
O gato podendo ser gato continuaria desejando matar passarinho, comer pintinho, não era preciso ensiná-lo desquerer através de mal logradas manobras de recalque, o que no frigir dos ovos, nada mais é do que deixar para lá...mas continuar querendo aquilo... até um dia ser devorado por iras, medos, arrependimentos, ataques de fúria, de pânico.
Ali, naquelas lonjuras, o gato estava livre para viver os seus instintos, a não sublimá-los e um dia com toda a certeza colocar seus desejos em garras, dentadas e sangue.
Tive notícias que o gato mudou-se para a cidade, afia as garras nas cortinas, foi castrado para ser protegido dos perigos rua e para viver mais...
O gato podendo ser gato continuaria desejando matar passarinho, comer pintinho, não era preciso ensiná-lo desquerer através de mal logradas manobras de recalque, o que no frigir dos ovos, nada mais é do que deixar para lá...mas continuar querendo aquilo... até um dia ser devorado por iras, medos, arrependimentos, ataques de fúria, de pânico.
Ali, naquelas lonjuras, o gato estava livre para viver os seus instintos, a não sublimá-los e um dia com toda a certeza colocar seus desejos em garras, dentadas e sangue.
Tive notícias que o gato mudou-se para a cidade, afia as garras nas cortinas, foi castrado para ser protegido dos perigos rua e para viver mais...
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Elis Regina Atrás da Porta
Assistir algo publicamente tem me tornado um incômodo cada vez maior. Na última vez que fui a um show jurei que nunca mais iria. Incomodou-me tremendamente ver o Zeca Baleiro na imensa tela do celular da mocinha na minha frente. Ontem depois de uma chuva fina entrei no cinema para uma sessão tardia. O homem do meu lado direito, postou o celular na sua poltrona que divisava com a minha e o danado vibrou ininterruptamente a cada três minutos. O mesmo ser, a cada cena do filme não se continha e manifestava-se verbalmente com a sua madame que comia pipoca nhoc+nhoc+nhoc+nhoc. O cidadão parecia ter comprado a sessão só para os dois ou parecia estar na sala da casa dele com a patroa. A mocinha do meu lado esquerdo também olhou suas mensagens de tempos em tempos, com aquele inevitável facho de luz branca. Fazendo a linha dos incomodados que se mudem, fui para a primeira fila, onde convenhamos não é o lugar mais cobiçado, por isso restava uma única poltrona vaga. A senhora do meu lado esquerdo, não se continha, a cada cena insistia em fazer coro com ninguém menos que Elis...
Muito bom. Andreia Horta dá um show na tela. O filme recebeu algumas críticas de quem conviveu com a cantora, mas nunca é demais lembrar que cinema é cinema, que vida é vida. A vida do furacão Elis não caberia mesmo em alguns minutos de projeção. Foi visceralmente apimentada. Falando-se de Elis não tem como ditar preferências, mas sempre que ouço "Atrás da Porta" me vem um gosto quente de whisky pela boca.
Muito bom. Andreia Horta dá um show na tela. O filme recebeu algumas críticas de quem conviveu com a cantora, mas nunca é demais lembrar que cinema é cinema, que vida é vida. A vida do furacão Elis não caberia mesmo em alguns minutos de projeção. Foi visceralmente apimentada. Falando-se de Elis não tem como ditar preferências, mas sempre que ouço "Atrás da Porta" me vem um gosto quente de whisky pela boca.
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