terça-feira, 6 de setembro de 2016

Doces sírios



Eu nunca gostei de repartição pública e elas nunca gostaram de mim. Ontem fui pegar uma reles assinatura de uma funcionária nem tão graduada ou ocupada assim, mas ela ficou uma hora como o meu papel em cima da mesa até assinar e colocar um carimbo...quando me devolveu teve o cuidado de dizer "pronto" "já" assinei. Esse "já" para ela é natural, para mim...bem, deixa pra lá.

Pego a Marginal e vou nos 50 permitido. Estranhei bastante no começo, hoje acho que está correto. Vou em direção ao Brás tenho bastante tempo, meu celular está molhado pela garrafa de água que tombou na minha bolsa. Sem horário, sem telefone, penso em dar uma bica nele e lançá-lo no rio, assim posso me livrar de todos os grupos de whatsapp, seria libertador... Mas sem celular estou sem Waze e me perdi. Entrei numa rua bem estreita que começou bem e foi ficando cada vez mais fina e mais esquisita, adoro quando colocam a placa de rua "sem saída" bem no fim da rua... Percebi que tinha entrado numa roubada, fui dando ré na estreiteza, desviando de postes, latas de lixo e guias, fiz a curva e continuei no meu de fasto, de repente saindo de uma das casa, um homem quase chama a minha atenção "onde a senhora vai dando ré na contra mão..." resolvo ser amável diante da inamabilidade. Ele é bem alto tem o corpo todo tatuado, está saindo de bicicleta e em cima da sua cabeça a placa anuncia em letras garrafais para as pessoas pedidas "tarô cigano", quase peço pra ele puxar umas cartas na ausência do meu Waze. Pondero que não. Tenho horror de ciganos desde que fui roubada por uma no Chile... que situação...! Ele me explica como sair dalí fazendo volteios com as mãos, finjo que entendo aquela profusão de virar a direita e esquerda, me dá guarida e chego de ré até o final a rua. Faço os volteios e dou de cara com dois caminhões da prefeitura que retiram das calçadas as mudanças dos que moram ali na rua, colados ao muro, subo um pouco na guia e consigo finalmente sair. Lá está o cigano tatuado, de novo, numa outra esquina apontando de cima da bicicleta a direção que devo tomar. Aceno para meu Waze cigano.

Estou próximo do Largo do Pari e me lembro que ali em frente existe uma loja de doces sírios maravilhosos. Vejo as torres da igreja, estaciono, as portas estão abertas mas a igreja é de Santo Antonio e por pior que esteja a situação para esse Santo eu não peço mais nada. Da última vez que entrei ali eu me casei. Dizem que é melhor se alinhar com São José para esse tipo de aflição.

A loja não existe mais naquele lugar, mas virando a esquina descubro outra que venho a saber é a mesma que eu procurava. Está bem menor, mas a quantidade, beleza e variedade da vitrine, me deixa namorando os doces já que naquela igreja eu não entro mais. Tenho dificuldade em escolher diante de tal variedade ( ao contrário do que acontece com o Santo...). Sempre fico assim diante de muitas possibilidades, escolho, peço um expresso, tomo sem açucar por pura ironia, para brindar com a funcionária pública. Me delicio completamente. A segunda-feira vai dando seis da tarde, fico pensando como é bom estar perdida pela cidade e ter doces sírios para gente namorar.

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