Para mim, memória e lembrança eram similares. Sempre gostei de ler para os meus ouvintes um conto de Dostoiévski ( O Mujique Marei), onde o autor relata uma passagem de seu duro exílio na Sibéria. Tentar escapar seria uma morte tão certa como era o branco que cobria tudo ao seu redor. Para sobreviver, agarrava-se a uma lembrança doce, sobre um rude camponês que conheceu quando era ainda criança. E pela força dessas memórias conseguiu sobreviver ao cárcere. Eu costumava dizer então, durante nossas leituras em grupo, sobre a importância das 'memórias que nos salvam'. Aquelas que surgem de recônditos muito esquecidos para nos emprestarem uma sobrevida naqueles momentos em que a vida parece deixar de fazer sentido.
Esse me amigo de fala estranha, me dizia então, da diferença entre recordar e lembrar. Recordar de 'ri-cordare', passar duas (ou várias vezes) pelo coração e lembrar (cujo seu contrário é esquecer...), estaria ligado a memória e aos processos puramente mentais. Esquecer passa a ser, portanto, simplesmente deixar de sentir. A beleza dessa construção que diferencia recordação e memória, essa nova ideia onde recordar é dar corda com o coração tornando impossível esquecer das coisas aprendidas com amor. É assim, que posso ainda recordar e sentir nos meus cabelos os dedos de dona Tita, que me fizeram adormecer naquele fim de tarde, mesmo sendo eu uma criança insone. Isso me fez entender porque esse acontecimento aparentemente tão banal, me vinha ao coração nos momentos em que precisei de um lugar seguro, de uma recordação que me salvasse, mesmo que dizer sobre isso, possa parecer algo absolutamente tão fora de contexto.
O que muda para mim é saber que as "re-cordações" que nos salvam são aquelas que puderam acessar nossos corações e que nos revisitam com a força da felicidade já vivida mas, que tem gosto de coisa sempre nova. Que não se perdem nem no tempo nem na distância porque com elas criamos o nosso jeito de amar e de não esquecer.

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