quarta-feira, 18 de maio de 2016

Essa garoa fina, chuvinha de molhar bobo, não combina com os propósitos  de caminhar tão cedo... Para não desanimar vou pensando em Eduardo Galeano, quando disse  que as longas caminhas por la rambla de Montevideo con su perro tinham o efeito de economizar em terapia.

Nessas primeiras horas matinais tem muito lulu sem as luloucas. Chuvinha miúda e chapinha são seres incomunicáveis. Tem sim, muito cão acompanhado de cuidador e me vem à ideia os negócios paralelos que são criados nos interregnos desse amor entre o homem e a criação. (Aspas: de onde venho, tudo o que é bicho é tratado genericamente por "criação").

Fiquei pensando que nesse novo e admirável mundo eufemista,  também não posso mais falar 'cão' ou 'cachorro'. Outro dia, uma hóspede me perguntou se poderia vir com seu 'amorzinho'. Subentendi meio reticente quanto à minha capacidade interpretativa, e por fim declarei que não aceitávamos 'pets'. Indignou-se contra esse meu preconceito, digno de  mudar essencialmente quem sou como pessoa, simplesmente porque não quero pelos e patas pela casa. Por fim quem dançou de verdade foi o namorado, que ficou sem o fim de semana na montanha. Prevaleceu o 'amorzinho' em detrimento do amorzão.

Olho para uma esquina da Oscar Freire (onde o aluguel é caríssimo) e vejo "padaria para pets" .  Paro para constatar melhor,  e vejo que é também sorveteria...meu espanto vai aumentando... nem sabia que gato gostava de sorvete...?! Fico com as ideias na cabeça se esse tipo de negócio pode dar certo (e toda vez que tenho essa dúvida já é um claro sintoma de que vai prosperar, porque coisas loucas acontecem nesse mundo eufemista de lulus e luloucas. Sei também que vai me chover crítica, irão dizer que sou insensível aos amores petianos, me defendo já, antes de fúrias e perda de amizades que também já fui mãe de cachorro, mas não consigo,  de verdade (!!), deixar de pensar em vários absurdos, que tanta gente não se dê conta que para produzir ração também precisa plantar soja (um dos itens da composição de ração animal, além de putrefatas farinhas de víceras...). E produzir ração também polui, envenena tanto quanto produzir alimentos para seres humanos em grandes escalas. Os investimentos para pets dariam para matar boa parte da fome no mundo. Ando mais um pouco e minha indignação aumenta. A poucos metros da sorveteria para cães e gatos, vejo em letras não garrafais (porque aqui tudo precisa ser discretamente hype) "spa para pets".

Volto, porque a chuvinha começa a virar toró. A caminhada virou questão existencial permeada de afetividade transferencial incognicível e como não sou Galeano, minhas caminhadas não são excludentes de terapia.


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