Tem um livro que gostei muito ("Trem noturno para Lisboa"). Não sei se são ecos da minha cabeça mas me parece em que algum ponto desse romance nos é perguntado "para onde se encaminham as palavras que não são ditas?" Não saberia situar onde essa frase está ou se de fato existe pois o meu exemplar está todo grifado dos trechos que chamaram a minha atenção. A segunda coisa que gosto nesse livro é que o seu título virou uma expressão idiomática na Europa, querendo se referir a uma pessoa está pronta para tomar um rumo diferente na vida. O sujeito acorda e ao invés de tomar um café, toma um trem noturno para Lisboa ( foi isso o que aconteceu com o nosso homem do livro). A ideia toda me parece além de muito romântica bastante eficaz e juntar essa duas peças pode ser algo tão humanamente impossível quanto poético...
A terceira coisa que gostei é que foi escrito por um professor Suíço de filosofia que leciona em Berlim.
Imaginar que rumo tomaram as palavras que não foram ditas talvez a estória pessoal de cada um possa falar por si. Se mediante o que dizemos e não dizermos operamos os acontecimentos de nossas vidas, talvez sejam um motivo a mais querer conhecê-las antes de pronunciá-las. Colocar nossas palavras em ações significa falar ou silenciar (irremediavelmente) quando a ocasião exige.
Muito além das palavras que não foram ditas é necessário pensar quais conhecemos para situar esse ou aquele fato, traduzir sentimentos que irão modelar não simplesmente nossa forma de entender o mundo mas como nos relacionamos com esse mundo e muito além disso, como as palavras permeiam nossos relacionamentos interpessoais. A palavra como forma estruturante do pensamento é de vital importância desde as primeiras comunicações que estabelecemos com os nossos bebês, o que pode nos levar a avaliar o grau de importância das primeiras falas maternas e seus reflexos num ser em constituição. Mais adiante, deparamo-nos com a alfabetização como processo de cognição. Os idiomas onde estamos inseridos criam a nossa forma de pensar, modelando nosso pensamento em relação recíproca e inversa temos também nossos pensamentos modulando nossas palavras. Talvez dai a importância de ampliarmos nosso repertório linguístico para nos sentirmos parte do mundo.
A linguagem envolve portanto aspectos mentais. E o que existe de tão ameaçador em nosso momento atual, onde se preconizam mudanças políticas e sociais? Duas coisas me chamam bastante a atenção: a miopia com que se pretende avaliar e prognosticar soluções ( os que querem e exigem solução para ontem e não se satisfarão com nada..), fruto de pensamentos mal modulados; a outra questão é o empobrecimento do vernáculo, criando receitas de comunicação editadas em forma de cartilhas políticas, com palavras contextualizadas para criar uma narrativa própria de interpretação desses ditos fatos políticos, sociais e mais perigosamente: culturais.
A linguagem é símbolo. É o que nos separa dos animais e quanto menos palavras, menos capacidade de pensar (nesse ponto o diálogo também já foi para as cucuias...) E para quem acha que tudo isso é coisa pouca, Jung nos deixa um recadinho: adoecemos quando perdemos a capacidade de simbolizar...
Ou seja, a nação que se empobreceu porque abandonou as palavras, não soube buscar formas para ampliar o seu repertório linguístico fatalmente lerá em cartilhas editadas e prontas para o consumo. Daí palavras sendo distribuídas e amplificadas como mantras, onde metade defende que sim e metade defende que não. Na fusão dessas duas partes bem poucos tem clareza para opinarem através de seu próprio pensamento pois o desconhecimento das palavras tem feito muita falta, levando muitos, inevitavelmente, a serem catequizados.
O trem noturno para Lisboa partirá com muitos assentos vagos, não por falta de demanda, mas porque a senha para o ingresso é a palavra que deixou de ser apreendida. É lamentável mas é a vida.
"...e compreendia tudo com uma rapidez e uma exatidão que, depois do espanto inicial, me deu medo, pois a sua percepção derrubava todas as barreiras protetoras.
Nos anos que se seguiram passei a fugir toda vez que alguém começava a me compreender. Isso melhorou. Mas uma coisa permaneceu: não quero alguém que me compreenda totalmente. Quero passar pela vida sem ser reconhecida. A cegueira dos outros é a minha segurança e a minha liberdade." pg 446 - Trem noturno para Lisboa - Pascal Mercier.
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