Ontem estive em um encontro inédito e inimaginável há alguns tempos atrás. Tanto pelas minhas intenções e também, para um mundo que parece querer mudar (ou se não isso) ao menos está se disponibilizando para ouvir assuntos desagradáveis, sobre pessoas desagradáveis.
Sei que muitos não lerão o próximo parágrafo, portanto, minhas chances são tão escassas de ser lida e compreendida como a possibilidade de encontrar alguma saída para o assunto pautado num encontro sobre a situação das mulheres encarceradas. E, pasmem vocês, acontecido dentro de um dos mais elitistas recintos educacionais: a Fundação Getúlio Vargas. Compunham a mesa mulheres ( obviamente!) falando para uma platéia quase que exclusivamente feminina (obviamente!). Nessa mesa algumas representantes de instituições ligadas ao sistema prisional, uma professora/pesquisadora/escritora e uma representante de tudo o que se discute através de estatísticas, trabalhos acadêmicos e outras milhares de algumas boas intenções: uma ex detenta.
Na primeira fala já senti uma idiossincrasia. Tratava-se de "revista vexatória", que é revista sofrida por mulheres que visitam homem na penitenciária. Você pode passar diante de um presidio masculino e se surpreender com as filas que se formam em dias de visitas e detectar que em presídios femininos essa fila não existe. E porque? Por que a grande maioria das mulheres presas não recebem visitas. Daí, para mim pelo menos, o descompasso do primeiro tema trazido à discussão.
Quando a mulher é condenada por ter cometido um crime a sentença vai um pouco além das laudas escritas por um juiz. Assinam essas mesmas folhas completando uma condenação extensiva, os maridos/companheiros, os pais e os filhos. A criminosa deixa de ser esposa, filha e mãe. Ela falhou diante dos olhos de todos, pois, não cumpriu seus papéis de cuidadora ( papel intrinsecamente atribuído à mulheres, lembra das filas nos presídios masculinos...? ). Não soube ser mãe e envergonhou os pais e familiares. Salvo raríssimas exceções, essa mulher está só!
Alguns indicadores apontam que 65% das mulheres estão presas por tráfico de drogas. Em muitos casos assumem a liderança do tráfico quando o companheiro vai preso, em outros, são meramente as "mulas". E num argumento perverso costumo dizer (e pelos relatos pessoais que ouvi dentro das penitenciárias), essas prisões são frutos de um amor bandido. O amor que compromete não através de sentimentos mas lhes custa a liberdade, a autoestima e, invariavelmente, a solidão no cárcere. Nessa mesma ordem.
Um assunto que não foi tratado é que os homens ( muito ao contrário das mulheres) dificilmente se submetem a gama de pré requisitos para se se cadastrarem para visitas intimas. Ou seja, os homens não dão as caras por lá. Resultando: em busca de contato físico, para satisfação de desejos sexuais muitas se tornam temporariamente lésbicas.
Um outro aspecto perverso dessa distinção comportamental de gênero, é que a mulher quando "seu" homem vai preso, ela corre para o advogado, move mundos e fundos para o libertá-lo e o homem, por sua vez, quando a companheira vai presa também corre para o advogado, mas, para tratar do divórcio.
Que ninguém imagine em algum momento que esse tipo de abordagem pretenda transformar instituições prisionais em paraísos de encontros íntimos ou que se pretenda transformar as prisões em lugares tão maravilhosos que ninguém queira sair de lá. As prisões e os crimes continuarão existindo e sendo praticados. O ser humano não se livrará espontaneamente de sua índole transgressora, somos todos perversos, alguns com melhores formações e diferenças de oportunidades conseguem se livrar desse jugo instintual, sublimando nossas zonas escuras em alguns casos nos tornando, inclusive, beneméritos de causas sociais.
Faltou dizer nesse encontro ( e isso considero crucial) que mulheres dão à luz, mesmo estando presas... e o que acontece com essas mães e com essas criaturas recém paridas presas nesse emaranhado de leis que "pegam" e "não pegam" no nosso vasto país...
Ao final dos pronunciamentos todas as questões foram dirigidas para a ex detenta, formou-se um grupo em torno dela, de jovens futuros gestores de políticas públicas, que terão a possibilidade de olhar para essa e muitas outras questões tão amargas e aflitivas socialmente. Seguirão em frente com um pouco mais de maturidade, deixando um pouco para trás a força e fúria universitária, porém, que não se percam seduzidos por um mundo que precisa tratar de questões indigestas agora para ter o que comer amanhã.
O evolução das penas é uma contingência histórica, crimes devem ser punidos (sempre) sem dúvida alguma. Nosso Estado determina que as funções da pena são ressocialização, reintegração e reeducação e não dá conta de cumprir nenhuma dessas premissas. Podemos imaginar, portanto, que todas as prisões são contrárias aos fundamentos da própria lei? Será que o ser humano aprende alguma coisa coisa a partir de um sistema que impõe tão somente a culpa jurídica? Existem crimes que poderiam estar penalizados com medidas socioeducativas eficazes para que o Brasil deixasse de ocupar o desprestigioso quarto lugar em encarcerados no mundo? Como fazer para que as nossas cadeias deixem de formar melhores bandidos do que nossas escolas conseguem formar melhores alunos? A chapa esquentou...
Eu, da minha parte e já bem distante de um impulso juvenil, me dou cada vez mais conta que tive sorte. Entrei na fila certa e não posso dizer o que teria sido de mim, caso não tivesse tido pai, mãe, escola, dentista a cada seis meses, a benção da minha madrinha e uma medalhinha de "agnus dei" que ganhei no dia do meu batismo, e que me lembrei de trazer comigo no dia em que vim morar na cidade grande. Não pretendo que ninguém pense como eu, apenas imagino ser possível ouvir pessoas, fatos e outros pontos de vistas não para "resolver" o mundo e sim para revolver ideias, estigmas, pensar o mundo de uma forma um pouco menos maniqueistamente indolor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário