Todo mundo sabe onde o calo aperta. Será mesmo?
Desde que desistimos de nossa porção instintual para adentrarmos no adequado, na aceitação pelo próximo, no emprego garantido, na complacência das crenças que são muito mais alheias do que nossas, nos distanciamos do natural, enveredamos por um emarando comportamental para dar conta de viver o nosso social de cada dia. E foi aí a coisa ficou difícil. Entre nossos instintos e nosso ser social sentimos falta de nossa jornada ancestral.
Dizer que somos livres é uma quimera tão distante como imaginar que receitas prontas possam nos trazer a felicidade em doses generosas, contínuas e sem interrupções, ou pior, como querem muitos, de forma perene.
Alguns vivem o que tem para ser vivido, outros não fazem contas, outros se alimentam de maneira que encontraram para se salvarem e outros mergulham tão profundamente na existência que não encontram senão o caos. Seria possível, então, redimir-se da angustia de viver? Também não tenho essa resposta, pois, como me considero do grupo que sofre dia sim dia não, procuro mediar minha desolação com uma boa dose de poesia para que minha reflexão não se torne por demais estreita ou que venha a aprisionar-me, como a um pássaro que é obrigado a cantar mesmo estando numa gaiola.
O caminho para fora da gaiola, pelo menos para mim, é o conhecer-se.
Num outro dia conversava sobre isso com um amigo que de pronto me respondeu que agora era muito tarde para enveredar-se por rotas nunca dantes navegadas, pois descobrindo-se não ser quem sempre julgou ser, talvez, ficasse ainda pior se colocasse outra pessoa no seu lugar...
Talvez, tenha sido isso o que Kafka sentiu quando metamorfoseou-se numa barata. Esse pensamento de todo verossímil, certamente condiz com nossas recusas em mergulharmos em nós mesmos, encontrar nossos fantasmas, atar mãos com as nossas fragilidades. Por uma outra via, pode ser a única oportunidade para descobrirmos que nossos medos nunca passaram de fantasias, que existir é um pouco além de estar correto num mundo mutável e que nossa inflexibilidade não condiz com as nuances mutantes do universo. Somente podemos mudar o que conhecemos. O que não conhecemos permanece como ignorância. Sem conhecimento não se operam mudanças, apenas ingerimos paliativos goela abaixo, trocamos uma fantasia por outra e continuaremos, em suma, sendo o ser que nos aprisiona. Cantaremos presos e trocaremos de sapato um pelo outro, indefinidamente, mas o calo vai continuar doendo.
Pessoas tem adoecido mais e mais e mais pela falta de auto se conhecerem.
Tomamos emprestado uma estrutura tão sólida e impenetrável criada antes mesmo de nascermos que o mais palatável é não improvisar. Seguimos por searas conhecidas, o novo nos assusta, confundimos nossas crenças com nossos desejos, nos misturamos coletivamente em tantas alegrias inventadas que muitas terminam muito antes que o arco iris se dissipe na paisagem. Nos ensinaram a esquecer como ser bicho, um exemplo disso é descobrir porque determinado representante do sexo oposto nos atrai mais ou menos e tentar atribuir essas nossas escolhas às convenções sociais ou ao papo cabeça, esquecendo que, o que nos impulsionada, verdadeiramente, é uma questão de feromônios. Nossos cheiros ancestrais não se perderam por mais que os anúncios de perfumes te mostrem homens e mulheres sedutores, sofisticados em algum paraíso distante onde você nunca terá a chance de colocar os teus calos doídos.
Perdemos de tal modo a intimidade com a nossa natureza instintual ao ponto de preferirmos o sintético, o asfalto, a sobrecarga de trabalho para poder comprar mais e mais e mais o que temos tempo de menos para usufruir. E muitas vezes o que é pior: o que estamos procurando não existe como produto manufaturado.
Enquanto nos renegamos como animais criamos tantas lógicas e contra lógicas que nos confundimos, perdemos o fio da meada, nos descompatibilizamos com a natureza, criando um mundo tão próprio quanto inacessível. Inacessível leia-se: para a primeira pessoa do singular.
Obviamente não consegui me explicar muito claramente para esse meu amigo de formação cartesiana. Não consegui arrastá-lo para entro de si, pois isso é uma missão que demanda tempo, pressupõe acima de tudo auto querer.
Quase terminando nosso café, ele disse que nessa semana estava pensando em enforcar um dia de trabalho (como nunca tinha feito na vida..) ... passar o dia na praia.., pisar na areia e ver as estrelas mais perto do mar. Eu não disse nada, fiquei pensando com os meus botões que o caminho para o instintual é inerente a esse contato com a natureza e, o primeiro passo para dentro de si é dar essa forcinha, reconhecer-se como parte e voltar a pertencê-la para pertencer-se.
Chegando em casa lhe mandei a indicação de uma pousada no Sahy. Espero que tenha botado o pé na areia, visto as estrelas, ouvido o mar e bem... virado fera.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
sábado, 12 de setembro de 2015
Amor bandido
Ontem estive em um encontro inédito e inimaginável há alguns tempos atrás. Tanto pelas minhas intenções e também, para um mundo que parece querer mudar (ou se não isso) ao menos está se disponibilizando para ouvir assuntos desagradáveis, sobre pessoas desagradáveis.
Sei que muitos não lerão o próximo parágrafo, portanto, minhas chances são tão escassas de ser lida e compreendida como a possibilidade de encontrar alguma saída para o assunto pautado num encontro sobre a situação das mulheres encarceradas. E, pasmem vocês, acontecido dentro de um dos mais elitistas recintos educacionais: a Fundação Getúlio Vargas. Compunham a mesa mulheres ( obviamente!) falando para uma platéia quase que exclusivamente feminina (obviamente!). Nessa mesa algumas representantes de instituições ligadas ao sistema prisional, uma professora/pesquisadora/escritora e uma representante de tudo o que se discute através de estatísticas, trabalhos acadêmicos e outras milhares de algumas boas intenções: uma ex detenta.
Na primeira fala já senti uma idiossincrasia. Tratava-se de "revista vexatória", que é revista sofrida por mulheres que visitam homem na penitenciária. Você pode passar diante de um presidio masculino e se surpreender com as filas que se formam em dias de visitas e detectar que em presídios femininos essa fila não existe. E porque? Por que a grande maioria das mulheres presas não recebem visitas. Daí, para mim pelo menos, o descompasso do primeiro tema trazido à discussão.
Quando a mulher é condenada por ter cometido um crime a sentença vai um pouco além das laudas escritas por um juiz. Assinam essas mesmas folhas completando uma condenação extensiva, os maridos/companheiros, os pais e os filhos. A criminosa deixa de ser esposa, filha e mãe. Ela falhou diante dos olhos de todos, pois, não cumpriu seus papéis de cuidadora ( papel intrinsecamente atribuído à mulheres, lembra das filas nos presídios masculinos...? ). Não soube ser mãe e envergonhou os pais e familiares. Salvo raríssimas exceções, essa mulher está só!
Alguns indicadores apontam que 65% das mulheres estão presas por tráfico de drogas. Em muitos casos assumem a liderança do tráfico quando o companheiro vai preso, em outros, são meramente as "mulas". E num argumento perverso costumo dizer (e pelos relatos pessoais que ouvi dentro das penitenciárias), essas prisões são frutos de um amor bandido. O amor que compromete não através de sentimentos mas lhes custa a liberdade, a autoestima e, invariavelmente, a solidão no cárcere. Nessa mesma ordem.
Um assunto que não foi tratado é que os homens ( muito ao contrário das mulheres) dificilmente se submetem a gama de pré requisitos para se se cadastrarem para visitas intimas. Ou seja, os homens não dão as caras por lá. Resultando: em busca de contato físico, para satisfação de desejos sexuais muitas se tornam temporariamente lésbicas.
Um outro aspecto perverso dessa distinção comportamental de gênero, é que a mulher quando "seu" homem vai preso, ela corre para o advogado, move mundos e fundos para o libertá-lo e o homem, por sua vez, quando a companheira vai presa também corre para o advogado, mas, para tratar do divórcio.
Que ninguém imagine em algum momento que esse tipo de abordagem pretenda transformar instituições prisionais em paraísos de encontros íntimos ou que se pretenda transformar as prisões em lugares tão maravilhosos que ninguém queira sair de lá. As prisões e os crimes continuarão existindo e sendo praticados. O ser humano não se livrará espontaneamente de sua índole transgressora, somos todos perversos, alguns com melhores formações e diferenças de oportunidades conseguem se livrar desse jugo instintual, sublimando nossas zonas escuras em alguns casos nos tornando, inclusive, beneméritos de causas sociais.
Faltou dizer nesse encontro ( e isso considero crucial) que mulheres dão à luz, mesmo estando presas... e o que acontece com essas mães e com essas criaturas recém paridas presas nesse emaranhado de leis que "pegam" e "não pegam" no nosso vasto país...
Ao final dos pronunciamentos todas as questões foram dirigidas para a ex detenta, formou-se um grupo em torno dela, de jovens futuros gestores de políticas públicas, que terão a possibilidade de olhar para essa e muitas outras questões tão amargas e aflitivas socialmente. Seguirão em frente com um pouco mais de maturidade, deixando um pouco para trás a força e fúria universitária, porém, que não se percam seduzidos por um mundo que precisa tratar de questões indigestas agora para ter o que comer amanhã.
O evolução das penas é uma contingência histórica, crimes devem ser punidos (sempre) sem dúvida alguma. Nosso Estado determina que as funções da pena são ressocialização, reintegração e reeducação e não dá conta de cumprir nenhuma dessas premissas. Podemos imaginar, portanto, que todas as prisões são contrárias aos fundamentos da própria lei? Será que o ser humano aprende alguma coisa coisa a partir de um sistema que impõe tão somente a culpa jurídica? Existem crimes que poderiam estar penalizados com medidas socioeducativas eficazes para que o Brasil deixasse de ocupar o desprestigioso quarto lugar em encarcerados no mundo? Como fazer para que as nossas cadeias deixem de formar melhores bandidos do que nossas escolas conseguem formar melhores alunos? A chapa esquentou...
Eu, da minha parte e já bem distante de um impulso juvenil, me dou cada vez mais conta que tive sorte. Entrei na fila certa e não posso dizer o que teria sido de mim, caso não tivesse tido pai, mãe, escola, dentista a cada seis meses, a benção da minha madrinha e uma medalhinha de "agnus dei" que ganhei no dia do meu batismo, e que me lembrei de trazer comigo no dia em que vim morar na cidade grande. Não pretendo que ninguém pense como eu, apenas imagino ser possível ouvir pessoas, fatos e outros pontos de vistas não para "resolver" o mundo e sim para revolver ideias, estigmas, pensar o mundo de uma forma um pouco menos maniqueistamente indolor.
Sei que muitos não lerão o próximo parágrafo, portanto, minhas chances são tão escassas de ser lida e compreendida como a possibilidade de encontrar alguma saída para o assunto pautado num encontro sobre a situação das mulheres encarceradas. E, pasmem vocês, acontecido dentro de um dos mais elitistas recintos educacionais: a Fundação Getúlio Vargas. Compunham a mesa mulheres ( obviamente!) falando para uma platéia quase que exclusivamente feminina (obviamente!). Nessa mesa algumas representantes de instituições ligadas ao sistema prisional, uma professora/pesquisadora/escritora e uma representante de tudo o que se discute através de estatísticas, trabalhos acadêmicos e outras milhares de algumas boas intenções: uma ex detenta.
Na primeira fala já senti uma idiossincrasia. Tratava-se de "revista vexatória", que é revista sofrida por mulheres que visitam homem na penitenciária. Você pode passar diante de um presidio masculino e se surpreender com as filas que se formam em dias de visitas e detectar que em presídios femininos essa fila não existe. E porque? Por que a grande maioria das mulheres presas não recebem visitas. Daí, para mim pelo menos, o descompasso do primeiro tema trazido à discussão.
Quando a mulher é condenada por ter cometido um crime a sentença vai um pouco além das laudas escritas por um juiz. Assinam essas mesmas folhas completando uma condenação extensiva, os maridos/companheiros, os pais e os filhos. A criminosa deixa de ser esposa, filha e mãe. Ela falhou diante dos olhos de todos, pois, não cumpriu seus papéis de cuidadora ( papel intrinsecamente atribuído à mulheres, lembra das filas nos presídios masculinos...? ). Não soube ser mãe e envergonhou os pais e familiares. Salvo raríssimas exceções, essa mulher está só!
Alguns indicadores apontam que 65% das mulheres estão presas por tráfico de drogas. Em muitos casos assumem a liderança do tráfico quando o companheiro vai preso, em outros, são meramente as "mulas". E num argumento perverso costumo dizer (e pelos relatos pessoais que ouvi dentro das penitenciárias), essas prisões são frutos de um amor bandido. O amor que compromete não através de sentimentos mas lhes custa a liberdade, a autoestima e, invariavelmente, a solidão no cárcere. Nessa mesma ordem.
Um assunto que não foi tratado é que os homens ( muito ao contrário das mulheres) dificilmente se submetem a gama de pré requisitos para se se cadastrarem para visitas intimas. Ou seja, os homens não dão as caras por lá. Resultando: em busca de contato físico, para satisfação de desejos sexuais muitas se tornam temporariamente lésbicas.
Um outro aspecto perverso dessa distinção comportamental de gênero, é que a mulher quando "seu" homem vai preso, ela corre para o advogado, move mundos e fundos para o libertá-lo e o homem, por sua vez, quando a companheira vai presa também corre para o advogado, mas, para tratar do divórcio.
Que ninguém imagine em algum momento que esse tipo de abordagem pretenda transformar instituições prisionais em paraísos de encontros íntimos ou que se pretenda transformar as prisões em lugares tão maravilhosos que ninguém queira sair de lá. As prisões e os crimes continuarão existindo e sendo praticados. O ser humano não se livrará espontaneamente de sua índole transgressora, somos todos perversos, alguns com melhores formações e diferenças de oportunidades conseguem se livrar desse jugo instintual, sublimando nossas zonas escuras em alguns casos nos tornando, inclusive, beneméritos de causas sociais.
Faltou dizer nesse encontro ( e isso considero crucial) que mulheres dão à luz, mesmo estando presas... e o que acontece com essas mães e com essas criaturas recém paridas presas nesse emaranhado de leis que "pegam" e "não pegam" no nosso vasto país...
Ao final dos pronunciamentos todas as questões foram dirigidas para a ex detenta, formou-se um grupo em torno dela, de jovens futuros gestores de políticas públicas, que terão a possibilidade de olhar para essa e muitas outras questões tão amargas e aflitivas socialmente. Seguirão em frente com um pouco mais de maturidade, deixando um pouco para trás a força e fúria universitária, porém, que não se percam seduzidos por um mundo que precisa tratar de questões indigestas agora para ter o que comer amanhã.
O evolução das penas é uma contingência histórica, crimes devem ser punidos (sempre) sem dúvida alguma. Nosso Estado determina que as funções da pena são ressocialização, reintegração e reeducação e não dá conta de cumprir nenhuma dessas premissas. Podemos imaginar, portanto, que todas as prisões são contrárias aos fundamentos da própria lei? Será que o ser humano aprende alguma coisa coisa a partir de um sistema que impõe tão somente a culpa jurídica? Existem crimes que poderiam estar penalizados com medidas socioeducativas eficazes para que o Brasil deixasse de ocupar o desprestigioso quarto lugar em encarcerados no mundo? Como fazer para que as nossas cadeias deixem de formar melhores bandidos do que nossas escolas conseguem formar melhores alunos? A chapa esquentou...
Eu, da minha parte e já bem distante de um impulso juvenil, me dou cada vez mais conta que tive sorte. Entrei na fila certa e não posso dizer o que teria sido de mim, caso não tivesse tido pai, mãe, escola, dentista a cada seis meses, a benção da minha madrinha e uma medalhinha de "agnus dei" que ganhei no dia do meu batismo, e que me lembrei de trazer comigo no dia em que vim morar na cidade grande. Não pretendo que ninguém pense como eu, apenas imagino ser possível ouvir pessoas, fatos e outros pontos de vistas não para "resolver" o mundo e sim para revolver ideias, estigmas, pensar o mundo de uma forma um pouco menos maniqueistamente indolor.
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