Fazia as minhas unhas enquanto ela esperava que as suas secassem. Com os olhos fixos para baixo, sem perceber o seu rosto, elogiei o seu sapato. Cor de doce de leite, um debrum num tom abaixo, pespontado com perfeição. Salto adequado ao cabedal, quase uma obra de arte. Começamos a conversar e ela contou, contou e contou. Esperava que as unhas secassem porque relutava em voltar para casa. Não queria voltar para o apartamento e ver a varanda vazia, onde durante anos, o marido costumava sentar para ler o jornal e ler, ler e ler. Era muito culto, falava nove idiomas.
Que planos que nada!!! A vida está toda escrita. Eles se conheceram no dia do incêndio do Joelma. Ele, sem saber do incêndio entrou pela rua afoito e no meio da multidão acabou torcendo o pé. De lá, foi levado para o hospital. Ela, que era Enfermeira Padrão, entre os mortos e vivos que chegavam, imobilizou o seu pé. Nem olhou para o rosto dele, mas pelo sapato que usava sabia que não era uma pessoa para ser atendida ali, naquele hospital municipal.
Nunca mais se viram. Ele rodou todos os hospitais da cidade por anos para encontrar a enfermeira. Um dia, ela entrou na sala de um médico, ele pulou da cadeira e gritou "é essa a moça!!" Ela tomou o maior susto, não imaginou o que pudesse estar acontecendo nem quem era aquele homem em desvario na sua frente. Quatro meses depois estava com ele em Genéve, numa feira de relógios e jóias. Brasileira, bonita, inesperadamente se viu transformada numa sofisticada modelo de jóias. Ele já era viúvo havia dois anos, flertava com ela discretamente mas teve a elegância de reservar quartos separados. Naquele lobby de hotel, ela decidiu que ele seria o homem com quem se casaria.
Nunca, em nenhum ano dos 40 de casamento as flores deixaram de chegar às sextas feiras. Inclusive depois da primeira semana que ele havia falecido.
Nunca dormiram uma noite sequer separados durante esses quarenta anos.
Ele, já no final da doença e bastante debilitado, na última semana da sua vida, numa manhã reclamou que a fralda lhe estava machucando o quadril. Quando ela colocou a mão para verificar surgiu uma caixa. Dentro com um colar e brincos de esmeraldas. Ele declarou que era em agradecimento pelo grande amor que sempre sentiu por ela durante toda a vida.
Não, não era pelas esmeraldas nem por toda a vida maravilhosa que ele me proporcionou... era pelo copo de leite que ele me levou na cama, todas as noites antes de dormir, exatamente, sempre, com a mesma temperatura.

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