Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
A gota que faltava
Seria tão bom aprender por osmose. Nunca mais precisar ouvir aquela frase tanto pesarosa como provocativa "eu bem que te avisei". Bordão predileto das mães na primeira hipótese e de amigas vudus na segunda.
Por um outro lado, os caminhos dos aprendizados são tão longos, tortuosos, cheios de encruzilhas, nuances e de escolhas que nem sempre arriscamos no palpite certo que, quando isso acontece, temos a catártica possibilidade de aprender. Arrisco pensar que é assim que nos conduziremos diante da atual crise da água.
O uso da água tem crescido a uma taxa duas vezes maior do que o aumento da população ao longo do último século, segundo a ONU. Todos os processos de transformação necessitam de água para que aconteçam, até mesmo as teclas desse computador demandam esse precioso líquido uma vez que no Brasil 75% da energia provém das usinas hidrelétricas. Por isso me admirava tanto que milhares de luzes piscassem para trazer o Natal. Me admira também filas de carros em lava jatos e me admira mais ainda que alimentos sejam jogados no lixo.
A agricultura demanda 72% de toda a água consumida no Brasil. Desse percentual 60% é perdido em processos de evaporação. Mesmo não tendo a menor noção em cálculos dá para imaginar o quanto é necessário de água para ter à mesa arroz, feijão e o suado pão nosso de cada dia.
Mais de 1/3 de todos os alimentos produzidos no mundo são desperdiçados entre a colheita, conservação e manuseio.
Depois do alimento plantado, colhido, transportado, chega às nossas mãos e ainda precisa ser higienizado, processado e dá-lhe água durante todas essas etapas. Nessa enorme cadeia, desde as mãos do campo (nem tudo pode ser feito por máquinas) até nossas mesas, vejo adultos e crianças deixarem comida no prato e vejo ainda um dos maiores absurdos criados na face da terra que são os restaurantes por quilo. Temos uma legislação que proíbe a doação desses alimentos, as ditas sobras de restaurantes e temos também a pouca consciência de quem os prepara para serem jogados fora somados ao desperdício do consumidor tanto dentro como fora de casa.
Nesse nosso Brasil vastíssimo, hectares e hectares de terra são usados para plantio de soja cuja quase totalidade da produção serve para alimentar porcos na China - sim porque a China tem problemas gravíssimos de escassez de água portanto funcionamos como água virtual daquela nação. Nada contra o equilíbrio de nossa balança comercial desde que os brasileiros estivessem sendo tão bem alimentados quanto os porcos chineses. Muito ao contrário, o brasileiro deixou de ser faminto para se tornar obeso, não pela quantidade mas pela qualidade da comida que ingere. A população de baixa renda não conhece frutas e compra mais barato um saco de bolacha nas lojas de 1,99 do que pagaria por duas maças, por exemplo. E aqui nesse imenso território nem banana é mais comprada ao preço da dita cuja.
A crise da água não vai apenas nos ensinar a tomar banhos mais curtos. Ela tem a nos mostrar que para continuarmos vivendo precisamos antes de tudo parar de consumir em excesso. Dê uma boa olhada no seu armário de responda se precisa mesmo de todos aqueles pares de sapatos, das roupas que levaram tantos litros de água para serem tingidas no seu tom preferido e estão ali guardadas, por anos. Veja se precisa mesmo atender as demandas do marketing sedutor para trocar tudo o que tem em casa porque anda tão enjoada da vida que precisa mudar a decoração a cada dois anos. E assim vale para a troca de carro, eletrônicos, viagens com foco puramente em compras e acima de tudo para as orgias alimentares.
Como diria o poeta " o homem pode viver sem amor, mas não vive sem água". Quem sabe entre essas duas escassezes, tenhamos a possibilidade de descobrirmos como poupar água e encontrarmos de novo o amor. Depois... não vá dizer que não te avisei.
http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2013/03/agricultura-e-quem-mais-gasta-agua-no-brasil-e-no-mundo
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