Flávia conquistou a liberdade há apenas dois meses, depois de dezessete anos encarcerada. Hoje está como mestre de cerimônias num evento promovido para discutir a situação de mulheres encarceradas. O foco que me interessa precisamente nesse workshop é a arte como instrumento de recuperação.
O menu artístico dentro de uma penitenciária feminina São Paulo é guarnecido de aulas de artesanato com reciclagem de materiais, meditação, sarau de poesia. Inúmeras outras atividades desenvolvidas lá dentro, de forma independente por voluntários autônomos que se dispõem a transmitir um pouco daquilo em que acreditam, à título de receber absolutamente nada do que possa ser mensurado como troca, aos olhos desse mundão de meu Deus. Os esforços desses voluntários em adentrar muro e grades é tão hercúleo como o esforço que faz quem está dentro para sair. Inúmeras são as barreiras interpostas, burocracia administrativa, formatação do sistema prisional brasileiro, mentalidade pátria etc etc etc.
Mas Flávia está aqui! Equilibrando-se sobre os saltos, esse ícone de imposição da feminilidade. Lê uma poesia de lavra própria. Pede licença e pergunta se "pode" falar uma "coisa": relata que no fundo do poço, quando já não via mais possibilidade e nem mais forças para sair da cadeia, foi "salva" pelo sarau. Descobriu através do sarau de poesia dentro da penitenciária, um fiapo de forças que poderia ajudá-la a aguentar mais um pouco, a esperar pelo que nem mais acreditava ser possível. Veio a liberdade dois meses depois.
Então, Jaime Queiroga, me lembro do Sermão da Sexagésima Hora de Padre Vieira. O semeador que sai para semear. Lançando sementes, algumas nascem outras não, outras frutificam no mais improvável dos lugares, num veio de pedra, quem sabe... Assim segue quem semeia, sem esperar que almas se salvem, mas que apenas uma ou única alma possa salvar-se. "...hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto".
Link sermão: http://www.culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf
O filho de Flávia, nascido nos umbrais do cárcere, tem dezessete anos e está na plateia. Imagino que hoje esteja sentindo-se também liberto, vendo a mãe iluminada pelos holofotes, no seu longo vestido rosa, "salva" pelo sarau do Jaime, para trilhar um novo caminho e, quem sabe descobrir mais adiante, que os melhores passos são aqueles dados descalça, com o pé todo palmilhando o chão, sentindo o gosto que a terra tem.
Pensar a arte como instrumento de transformação social é sensibilizar-se para que o mundo venha a ser mais reflexivo, mais contemplativo, mais necessário, com outras possibilidades de escolhas, caminhar pela não violência, dando à todos um mesmo ponto de partida e esperando que cada um possa se sentir intimamente satisfeito com a sua trajetória, na medida em que desperte para as suas potencialidades individuais. Quem não se reconhece como cidadão não tem a possibilidade de atuar como tal: paideia.
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| Grupo de Sarau Jaime Queiroga |


